O passado que mora no homem comum

Mais comum (e tenebroso) do que você pensa.

Imagem tirada do http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/noticia/2015/11/pela-primeira-vez-na-historia-grid-de-f1-recebera-modelos-homens-e-mulheres.html

Uma mulher escreve um texto num blog com esperança de tentar avisar a atual do seu ex sobre ele. Ao decorrer da situação, ela comenta sobre como ele teve atitudes de pedofilia ao longo do seu namoro. A descrição dá exemplos, como chama-la com nomes diminutivos e voz infantilizada na hora do sexo, elogiar sexualmente uma menina de 12 anos e não apresentar excitação quando ela teve que parar de se depilar por problemas de saúde. Por fim o relacionamento acabou e descobriu que agora está namorando outra mulher, mãe de um filho de 6 anos. O texto servia para alertar e evitar que algo mais sério acontecesse com esta criança.

Convivemos com homens o dia inteiro, a nossa vida toda. Homens heterossexuais, sendo mais específica. No ônibus, no mercado, na rua passando pela gente. Relacionamos-nos com eles, seja casualmente ou sexualmente, caso esta seja a sua preferência sexual. Logo convivemos com o machismo junto com o ar que respiramos. Seja por uma piada, uma assobiada, uma falta de respeito (claramente porque você é mulher e apenas isso) e um medo constante de que algo de ruim vai acontecer com a gente enquanto andamos pela rua.

Já tive 6 namoros, fiquei com um monte de outras pessoas e eu posso afirmar que não sei a fundo o passado de ninguém, só o que costumava ser dito em conversas alheias. Ou seja, o passado de qualquer pessoa (e não apenas de mulher, como diz o dito popular) é uma cozinha de restaurante que você só entra se tiver autorização da vigilância sanitária. Eu imagino que o ex desta moça é um cara normal. Com uma feição e fala agradável, barba cerrada, camisa da Lacoste e algo atraente. Se não fosse assim, ela não teria nem começado uma relação com ele. Se ela não gostasse dele, a primeira “vem cá minha garotinha” com voz com tonalidade de neném, ela teria terminado.

Os agressores não são monstros, como dizem por ai. Eles não andam com uma camisa escrita “eu já bati numa mulher” ou “eu tenho fantasia sexual de transar com uma criança de 5 anos”. São homens normais, com piadas, vestindo suas calças e uniformes, indo para seu trabalho, juntando dinheiro para suas viagens. Eles são homens normais, e ai que é totalmente assustador. Não está no Tinder e apenas lá. Pode ser um amigo seu, um paquera no bar, um motorista de táxi.

Estupro, por exemplo, engloba muito mais que o sexo com penetração forçada. Ou seja, se o dito cujo beijar meninas a força depois de embebeda-las na balada já pode se considerar um estuprador. O que acontece é que a lei é tão abrangente que se uma dessas meninas resolver denunciar a policia, cabe ao delegado ver relevância no caso e fazer o boletim de ocorrência contra o individuo. Claro que quem faz isso não costuma esconder na roda de amigos, isso é normalizado, como xingar sua namorada ou a atendente do Mc Donald´s com disseres machistas ou transar com seus conjugues, mesmo estas não demonstrando interesse. Podemos estar beijando homens que já cometerem crimes e não sabemos.

Mas e ai, o que fazemos? Paramos de ter relações com qualquer tipo de homem no planeta Terra? A minha vontade particular é sim, só conviver com gatos, mas não podemos fazer isso. Somos seres sociais. Precisamos de homens para nos atender em bancos, nos levar de um lugar a outro, de fazer a nossa comida. Vejam bem, não estou dizendo que precisamos ser dependentes a eles, mas por serem humanos e estarem em nossa convivência, a maioria das vezes não temos como exigir que seja, por exemplo, uma médica que nos atenda, não um homem, se estamos numa emergência. E se somos heterossexuais, normalmente teremos desejo por homens e não por mulheres. O que fazer, então, perante a esta tenebrosa afirmação?

ilustração por mim

Escutem as mulheres.

Todo mundo já passou pela situação de um homem chamar todas as mulheres que já fizeram parte de sua vida de loucas. Quando questionei um colega tal afirmação, ele me respondeu afirmando que o motivo era a mudança de opinião repentina. Claro que isso soar para ele “do nada” poderia ser bem claro para cada ex que ele chamou de louca. A não ser que a mulher em questão tome tarja preta prescrita por um profissional, nenhuma ex é louca. Todo mundo tem direito de não querer mais, de ter ciúme, de pedir para voltar. Mas isso não classifica loucura. É desagradável, triste, incomodo, mas não significa que ela vai te matar. O contrário não é real: Um homem inconformado com o término sim.

É extremamente difícil uma mulher denunciar seu ex-parceiro abusivo. Quando o faz leva consigo desconfiança por todos, tendo que provar por A + B o seu depoimento. Caso esta consiga fazer isso, confie nela. Não peça para não se expor ou “tome cuidado”. A gente já se cuida o tempo inteiro, temos medo o tempo todo. Já vi mulheres dizendo que o que mais marcou o seu estupro não foi o ato, mas sim a culpa em torno de algo que estava fora do seu controle. Há uma solidão que mora em cada mulher que já sofreu algo assim. Poucas se sentem acolhidas.

Há casos, raros e direcionados quase exclusivamente a gente que tem alguma fama e mídia, que sabemos muito bem o que aconteceu. Atores que bateram em suas esposas, diretor que abusou de sua filha adotiva, cantores que cantam letras misóginas e esportistas que traíram. Às vezes é denunciado pelas próprias agredidas, às vezes ficamos sabendo por que alguém vazou a informação do registro do ocorrido para a imprensa. Enquanto colocarmos o pano quente em este tipo de caso nós estaremos cada vez mais distantes de nos juntar e nos ajudar. Achar que defender uma celebridade pouco tem a ver com o amigo abusador é o mesmo de achar que todo político é corrupto, sem pensar que o político é tão brasileiro quanto nós.

Titi Muller abraçando Jared Letto, após o mesmo ter sido acusado de assédio.

Os homens costumam se orgulhar do seu passado violento normalizado. Encher a boca para dizer que deixou a ex sem casa, que não deixa barato quando uma mulher fala alto, a chamando de histérica numa conversa casual de bar entre amigos, se orgulhar que a sua ex vive te procurando, a denominando de desesperada e mostrando suas mensagens. Isso é um sinal de alerta. A próxima histérica, louca, desesperada, piranha será a gente.

Enfim, não importa se você, mulher que está lendo este texto, ache que feminismo é um exagero vindo de mulheres que estão focadas em mostrar o peito e sua única pauta é o aborto. Me lembro de estar numa mesa de sushi bar e a mulher presente ter falado algumas vezes que mulheres de respeito não se vestem que nem piranha (decote e short curto, como estava vestida a Anitta em um dos clipes). Um colega esperou eu falar alguma coisa, porém fiquei quieta. Haverá um dia que ela passará na rua e não importa a roupa que estiver vestida, haverá algum homem que a perseguirá até ela chegar em casa. O machismo não escolhe mulheres. Você pode me achar exagerada e que este texto é fruto de uma pessoa paranoica e neurótica perante a toda uma situação que talvez eu tenha passado. Mas não é, basta procurar na internet qualquer sentença de palavras relacionadas a violência feminina. Basta perguntar a mulheres próximas se já passaram por isso em suas vidas. E saberemos que não estamos sozinhas nesta, infelizmente.

Os homens, o que tenho a ver?


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