O que Amy, de Garota Exemplar, pode nos ensinar sobre a forma como lidamos com os homens

Garota Exemplar (2014)
“Tem uma grande diferença entre realmente amar alguém e amar a ilusão dela” (Amy Dunne)

O romance Garota Exemplar (com versão homônima adaptada para os cinemas em 2014), de Gillyan Flinn, conta a história do casamento falido de Amy e Nick Dunne, dois jornalistas/escritores que se mudaram de Nova Iorque para a região da Missouri após uma série de eventos dramáticos em suas vidas. No dia do quinto aniversário de casamento deles, Nick descobre que sua esposa desapareceu. Todas as suspeitas, sejam da mídia, amigos e mesmo de familiares começam a apontar para a hipótese de Nick ter assassinado a esposa.

Agora, vou para a parte dos spoilers, ou seja, vou adentrar em detalhes do enredo que, se você tem curiosidade em ler o livro ou assistir ao filme um dia, é melhor parar de ler esse texto por aqui para não fazer “perder a magia” da coisa.

Para quem não se importa com isso, prosseguindo:

Se você leu o livro (ou assistiu ao filme) e viu o título desse meu texto, certamente, deve ter ficado um pouco preocupado sobre o que Amy, clara sociopata/psicopata (e não, Nick, como todos imaginavam), poderia ter a nos ensinar sobre o modo como lidamos com homens.

Calma, não estou falando para forjar o próprio assassinato para incriminar o seu homem. Estou falando de como mesmo uma mulher linda, inteligente, de condições econômicas favoráveis, com vários homens aos seus pés, e dona de si pode também se ver insegura e transfigurar-se na nossa própria “versão de flerte” — aquela em que bancamos a “Amy legal” para poder conseguir a atenção de um homem em específico para iludir (tanto a ele, quanto a nós mesmas) sobre a possibilidade de se relacionar com uma mulher bonita, interessante, mas submissa. Ou “gostosa e compreensiva”, como dizia Amy Dunne.

Ser a Garota Legal significa que sou uma mulher gostosa, brilhante, divertida, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga vídeo game, bebe cerveja barata, adora ménage à trois e sexo anal… Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas. Garotas Legais nunca ficam com raiva. Apenas sorriem de uma forma desapontada e amorosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, me sacaneie, não ligo, sou a Garota Legal. (Amy Dunne)

O leitor tem contato com duas versões de Amy: uma é a Amy “gostosa e compreensiva”, como já falei, a “versão de flerte” de Amy para conquistar Nick Dunne, quando eles nem sonhavam em casar ainda. O trecho acima é de uma parte do livro em que, salvo engano — já li esse livro tem uns meses e me corrijam se minha memória houver falhado — , quando Amy já revelou a sua versão nua e crua — uma mulher temperamental, neurótica e “chata”. Sendo que foi por causa disso, principalmente, que Nick começou a se frustar no casamento e a trair a esposa com uma das alunas dele (Nick dava aulas em uma faculdade do Missouri).

Como você sabe que não é uma garota legal, só porque ele diz coisas como: Eu gosto de mulheres fortes. Se ele diz isso à você, ele chegará ao ponto de transar com outra pessoa. Porque “eu gosto de mulheres fortes” é código para “eu odeio mulheres fortes”. (A.D.)

Amy é um contraponto ao ideal de mocinha das comédias românticas: ela é sensível (tem conhecimento sobre artes, música, etc.), mas, ao mesmo tempo, é uma “mulher forte”. Ou seja, tem opinião e se posiciona sobre isso. Não aceita as ordens de um homem tão facilmente. Nem fica apática quando desapontada. Amy, durante muito tempo do relacionamento com Nick, fez uma versão de si mesma contrária ao que ela realmente era. Isso tudo, só para satisfazer Nick. Ou, até porque ela mesma se sentia confortável em ser uma mulher “sem espírito”. Como ela mesma confessa em alguns trechos, seria mais fácil de lidar sendo assim.

Então eu dou uma respirada gigantesca, enrolo minha raiva fazendo uma bola de borracha vermelha e mentalmente a chuto para o espaço. (A.D.)

Amy, então, foi pegando todos os sentimentos negativos sobre o relacionamento dela com Nick e, no final de tudo, executou um grande plano de vingança: estudou tudo sobre crimes e investigações; depois, forjou o próprio assassinato em detalhes para incriminar Nick Dunne.

Se você não pode cuidar de mim enquanto estou viva, você me matou de qualquer maneira. (A.D.)

Eu só li Garota Exemplar no ano passado. Peguei o livro na biblioteca ao acaso e me apaixonei pelo desenvolvimento da personagem de Amy. Talvez, porque Amy demonstra uma versão exagerada de nós mesmas: nós, mulheres, conseguimos ser bem “psicopatas” quando queremos a atenção de um homem. O que a gente tem que se perguntar é: pra quê tudo isso?

Fato é que sempre haverá caras melhores. Caras que conseguirão conviver mesmo com nossas versões mais chatas. Esse meu texto, além de ser uma resenha sobre um livro que já ocupou espaço no meu coração de tão bom que é, também é para conscientizar sobre o quanto nos sabotamos para poder corresponder às expectativas de um homem.

Amy chegou ao seu extremo. Mas será que nós também já não chegamos ao nosso próprio limite alguma vez?

Então isso tinha que parar. Ser comprometida com Nick, me sentir segura com Nick, ser feliz com Nick, me fez perceber que tinha uma verdadeira Amy aqui, e ela era muito melhor, muito mais interessante, complicada e desafiadora que a Amy legal. Nick queria a Amy legal de qualquer jeito. Você consegue imaginar? Finalmente mostrar seu verdadeiro eu para o seu esposo, sua alma gêmea e ele não gostar de você? Então é como o ódio começa. (A.D.)

Observação: os trechos acima são do livro Garota Exemplar, de Gillyan Flinn, mas eu os copiei de sites variados na Internet, podendo não corresponder exatamente ao que está na obra, já que eu devolvi o exemplar para a biblioteca há algum tempo.


Gostou do que eu escrevo? Você pode curtir a minha página no Facebook Poucas Palavras Agridoces e assinar a minha newsletter:

☛ Prefere dar uma opinião de maneira mais reservada? Não hesite em mandar um e-mail, seja com elogios, opiniões e críticas (estas sendo educadas e construtivas são sempre bem-vindas!), para medium.kspaiva@gmail.com


Quer receber mais textos como esse? Siga nossa publicação, fale sobre elas e compartilhe!
Nossa Página no Facebook: Fale com Elas
Nosso Instagram: @falecomelas
Nosso Twitter: falecomelass