Pela autonomia dos nossos corpos

Por que achamos tão normal dispor do corpo de outra pessoa ao nosso bel prazer, especialmente se essa pessoa é uma mulher?

Bodies, The Exhibition

Semana passada essa história veio à tona e gerou muita discussão. Para quem não consegue clicar, um resumo: Esse jovem de 22 sofre com uma grave doença renal e não aguenta mais fazer as sessões de hemodiálise que o mantém vivo. Sem elas ele não terá a chance de sobreviver por muito mais tempo, mas seu entendimento é de que assim sofrerá menos. Quando decidiu desistir do tratamento a sua mãe o interditou judicialmente, obrigando-o a continuar vivendo contra a própria vontade. Agora os dois brigam nos tribunais para que juízes decidam quem está com a razão.

Quando a notícia foi parar nas redes sociais vi que a maioria dos internautas apoiava a mãe do jovem em sua atitude. Os argumentos eram os mais variados, mas repetiam-se aqueles que diziam que o rapaz não teria maturidade para fazer uma escolha dessa magnitude, que certamente não tem real consciência das repercussões da sua decisão e que também é muito egoísta, tendo em vista que o caminho que ele está tomando causa muita dor a mulher que o gerou e educou.

Eu pessoalmente discordo desse tipo de interpretação. Penso que de fato o sofrimento dessa mulher e de toda a sua família é incalculável, mas ninguém deveria ter o direito de arbitrar sobre o que o outro faz com a própria vida e principalmente com o próprio corpo. Não é porque ela o pariu e criou que se estabelece naturalmente uma relação de posse entre os dois, em que ela define o destino do filho já que o querer dele vai machucá-la demais. Acredito que devemos procriar quando desejamos transformar as nossas vidas, não quando decidimos que queremos comandar uma outra existência. As expectativas que criamos a respeito desse ser que deriva de nós não têm que ser atendidas e devemos estar preparados para isso quando escolhemos ser pais e mães.

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Achei que as polêmicas parariam por um tempinho já que estamos às vésperas da folia, mas nos últimos dias essa outra história atípica tomou a mídia por completo, fazendo muito mais barulho que a primeira e não deu para não associar as duas e me pegar refletindo. Novamente um pequeno resumo: Uma mulher de 21 anos teve hemorragia no cérebro e a sua morte cerebral foi constatada 3 dias após sua entrada no hospital. Os aparelhos que a mantinham mecanicamente viva não foram desligados, no entanto. Tudo continuou funcionando por mais 123 dias, para que os gêmeos dos quais ela estava grávida pudessem ser gerados por mais algum tempo, de modo que sobrevivessem fora do útero. Foi feita a cesárea, os seus demais órgãos foram doados e só na última quarta feira o seu corpo pode ser enfim velado.

Desculpem se a minha forma de descrever a situação dessa jovem não a romantiza, mas romantizar é exatamente o que fizeram todos os veículos que vi publicarem a notícia e é justamente isso que eu não consigo entender. Aliás, entender eu até consigo, mas tenho uma grande dificuldade de aceitar.

Veja bem, eu não sei se seguir gerando os seus filhos foi o último desejo dessa mulher. Eu também não sei se ela sabia dessa gravidez e a desejava, afinal a gestação estava no segundo mês quando ela sofreu a hemorragia. Talvez fosse exatamente esse o caso e se sim está tudo bem! Se a vontade dela foi respeitada até o fim quem sou eu para questionar?

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O ponto é que não me surpreenderia se tivesse sido diferente. Eu não ficaria chocada se independentemente da impossibilidade de escolha dela tivessem seguido com a gestação porque era da vontade de seu marido e da sua família ter esses bebês. Também não me assustaria que tenham seguido aqui a mesma máxima que seguem para a doação de órgãos, que diz que por mais que você se manifeste a favor ou contra durante a vida é o seu círculo familiar quem decide o que fazer com o seu corpo depois que você morre. Não seria motivo de espanto para mim que a equipe médica tivesse feito pressão para seguir com a gravidez, apesar de todos os riscos conhecidos ou não de se manter uma gestação nessas condições.

E por que? Porque não seria a primeira e nem a última vez que o corpo da mulher é usado em propósitos que não são necessariamente por ela abraçados. Na verdade, isso é o que mais acontece. Quando somos estupradas o nosso corpo deixa de ser nosso e passa a ser do outro, para atender a sua satisfação sexual e aos seus delírios de poder. Quando o Estado nos impede de abortar o nosso corpo deixa de ser nosso e passa a ser daqueles que fazem as leis e se preocupam mais com uma vida que ainda não é um fato do que com a nossa, que já existe. Quando temos que nos preocupar com que roupa usar em festas como o carnaval o nosso corpo deixa de ser nosso e passa a ser de quem vai tentar nos abusar justificando que “usando isso ela tá pedindo, né”.

Não discordo que é nobre o desejo de salvar duas vidas, que descendiam diretamente de uma que se perdeu de forma tão traumática e prematura. Eu realmente consigo compreender as motivações e me sinto incapaz de julgar a família dessa mulher pelo que está acontecendo, porque eles estão sendo vitimados por uma tragédia sem precedentes, mas eu consigo sim questionar uma sociedade que sem estar envolvida na situação sentencia que “se já estava morta mesmo que pelo menos gerasse os bebês até o fim”, porque não é somente na hora da morte que nossos corpos não nos pertencem. É principalmente durante a vida que temos a nossa autonomia sobre eles questionada e usurpada, o tempo inteiro e sem descanso. É uma opressão que pode se dar em qualquer gênero, como bem exemplifica a situação do garoto de Goiás, mas é ainda mais comum com mulheres, porque é assim que o machismo age: dizendo que o nosso bem mais precioso não é exatamente nosso, mas de todo mundo que o utiliza, que o mede, que o qualifica, que o rejeita e que também o deseja.

Que todos nós possamos escolher o que fazer com a matéria da qual somos feitos, que nos acolhe e abriga, tendo consciência das consequências, mas também com liberdade sincera e irrestrita. É pra isso que existimos, afinal: para viver da melhor forma que podemos e partir daqui com dignidade e respeito. Seguir pelo menos para mim só faz sentido desse jeito!

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