Por que é importante ler mulheres?

Uma reflexão a partir de Deslocamentos do feminino, livro de Maria Rita Kehl

Em 2014, a jornalista Joanna Walsh escreveu um artigo sobre a persistência da desigualdade de gênero nos hábitos de leitura. Walsh percebeu que ao longo de sua vida tinha lido um número muito maior de escritores do que de escritoras e, diante dessa descoberta, decidiu reverter essa discrepância e dedicar um ano inteiro à literatura feita pelas mulheres. Essa simples aposta foi o suficiente para impulsionar um movimento, o #readwomen, em português, #LeiaMulheres.

O projeto pessoal de Walsh, alcançou um potencial político ao servir de inspiração para novas articulações e iniciativas construídas por mulheres, sempre com o objetivo comum de enfrentar a desigualdade de gênero na literatura. No Brasil, por exemplo, a ideia inspirou a criação do clube de leitura “Leia Mulheres”, que acontece mensalmente em diferentes regiões do Brasil. Além disso, é notável o fortalecimento de revistas e projetos editoriais que se dedicam inteiramente à publicação de escritoras, como a Alpaca Press, a Oceânica, a Capitolina, a Fale Com Elas, a Mulheres que Escrevem, a Ovelha, entre outras.

Desde 2014, participo ativamente desse movimento. Não só priorizo ler livros escritos por mulheres, como busco me engajar em coletivos e projetos que sejam feitos por e para mulheres. O que isso me proporciona é mais do que um fortalecimento; ler mais mulheres me deu ferramentas e apoio para construir um lugar e uma voz própria dentro de uma sociedade que historicamente dá às mulheres uma faixa muito estreita de possibilidades.

É Maria Rita Kehl quem usa essa expressão, faixa muito estreita, para definir o espaço destinado às mulheres de acordo com o que é suposto enquanto feminino. Em Deslocamentos do feminino, livro de 1998 que foi recentemente lançado em 2016 em nova edição pela Editora Boitempo, Kehl questiona o modo como a clínica psicanalítica lida com os conceitos de mulher, posição feminina e feminilidade. Para isso propõe uma análise do feminino como uma construção discursiva produzida a partir da posição masculina, à qual se espera que as mulheres correspondam, na posição que a psicanálise lacaniana designa como sendo a do “Outro do discurso”.

Em outras palavras, o que nossa sociedade compreende enquanto feminino é, na verdade, um conceito criado a partir da visão masculina sobre as mulheres que durante séculos foram/são excluídas do espaço público e, consequentemente, do campo simbólico onde se estabelece a literatura. O feminino é, portanto, algo marcado pela exclusão; as mulheres são o outro, algo que escapa da normalidade e da neutralidade ditada pela suposta experiência masculina.

“Minha intenção é examinar o campo a partir do qual as mulheres se constituem como sujeitos, de modo a contribuir para ampliá-lo. Isso é o que as mulheres vêm tentando fazer, mesmo antes que as primeiras histéricas tivessem procurado, no consultório de Freud, um lugar onde pudessem se fazer ouvir”.

Em Deslocamentos do feminino, Kehl se apoia na literatura para expor como o período vitoriano em que a psicanálise surge é marcado por movimentos de ruptura e conservação, no qual algo novo tenta emergir ao mesmo tempo em que há uma intensa manutenção de estruturas ultrapassadas. É através dessa ambivalência que as mulheres chegam aos consultórios psicanalíticos infladas por uma vontade de serem ouvidas, uma vontade que, sem um respaldo social e simbólico, transborda para seus corpos em sintomas paralisantes. O que Kehl nos elucida é que tais sintomas nem sempre foram compreendidos pela psicanálise, justamente pelo forte apego a um conceito de feminino que não corresponde totalmente às realidades das mulheres, ainda que atravesse suas experiências.

“Não existe A Mulher, universal transcendente ao conjunto de todas as mulheres. Assim como tampouco existe O Homem — mas essa segunda miragem, sustentada pelo significante fálico, parece encontrar uma ressonância imaginária que o conjunto das mulheres nunca será capaz de produzir. Talvez por isso, mais de cem anos atrás, algumas mulheres tenham fundado com Freud a psicanálise ao se indagarem sobre seu desejo diante daquele médico raro, tentando colocar em palavras a confusão sobre o que é ser mulher”.

O que Kehl chama de ressonância imaginária são as diversas imagens com as quais um homem pode se identificar, isto é, as diferentes possibilidades que estão disponíveis para os homens dentro do espaço social, enquanto as mulheres — daquele período — se encontravam limitadas a um espaço privado, a uma única imagem moldada para ser o respaldo da posição masculina. Um modo de enfrentar essa exclusão foi a literatura. A literatura, como bem colocou Virginia Woolf, é algo que depende de um teto próprio, isto é, uma prática que nasce dentro de um espaço privado mas demanda autonomia.

Essa posição ambivalente era exata ao lugar em que algumas mulheres do século XVII ocupavam: Presas aos limites domésticos, mas dispondo de alguma autonomia — , graças a nova cultura que emergia com o surgimento da burguesia — essas mulheres podiam fazer uso da literatura como uma fuga possível. Ainda que não tivessem uma renda ou um teto próprio, essas mulheres encontravam formas de burlar os limites impostos, como Jane Austen que escondia os papéis, que um dia seriam seus livros, nos tacos do chão de sua casa.

“Entre um parto e outro, entre as saídas e as chegadas dos maridos, entre uma refeição e outra, entre as horas da costura e as cerimônias das visitas, as mulheres vitorianas, mais ainda que os maridos, encontravam tempo para ler, ansiar e sonhar com os mundos fictícios ou reais que lhes chegavam por meio da leitura”.

É assim através de uma pequena brecha que as mulheres começam a povoar o mundo com suas palavras. Não foi preciso uma brusca ruptura das estruturas que sustentavam aquela sociedade, mas apenas a possibilidade de um espaço restrito que foi rapidamente ocupado por uma mobilização intensa.

É evidente que a escrita das mulheres já existia há muito tempo, contudo é neste período que ocorre um movimento que se alastra de tal modo que provoca e evidencia um incômodo marcado pelo surgimento de uma nova expressão: A Literatura Feminina.

O adjetivo aí existe como um complemento urgente, uma limitação imprescindível. É possível que as mulheres façam literatura, mas uma literatura que, naturalmente, ocupa um espaço fora da Literatura Tradicional. O termo literatura feminina só existe porque somos vistas como algo à parte, um grupo que se situa fora dos princípios de universalidade que transcende a materialidade do autor.

A origem desse termo é, sem dúvida, discriminatória, contudo, acredito que é possível, sim, ressiginificá-lo. Pode-se falar do feminino como um gênero literário que se debruça justamente sobre as condições e consequências de ocupar este lugar que é fora da neutralidade universal proposta por uma compreensão ultrapassada da literatura. Em outras palavras, é possível escolher se debruçar sobre a condição feminina, não como uma realidade ou um papel estático e homogêneo, mas como algo marcado pela desigualdade histórica e social.

Nem todas escritoras escrevem sobre ou a partir da experiência de ser mulher, porque nossas criações, de fato, não são definidas por nosso gênero. A Literatura Feminina existe, para além de um nicho limitado, como uma escolha no momento em que algumas escritoras apostam em uma literatura feita por e para mulheres.

Esse é um assunto que provoca um debate necessário, no qual, acredito ser impossível determinar uma conclusão absoluta. Talvez porque movimentar essa conversa, entre escritoras, seja mais relevante do que se concentrar em afirmações ralas e irrefutáveis. Dentro dessa discussão, Deslocamentos do feminino, me fez reformular questões antigas e, mais uma vez, entender que me expressar enquanto mulher é um exercício de fôlego e resistência. Eu também hesito diante do termo “feminino”, porque não quero cair em seus limites, mas talvez só seja possível conquistar um repertório maior de possibilidades quando me autorizar a ser inteiramente quem eu sou: Uma mulher que escreve.

Às vezes tenho receio de ser vista como Feminista, como se essa fosse minha identidade, como se nesse termo coubesse todo um guia de comportamentos e opiniões, como seu eu pudesse ser resumida a um ideal. Enfrento o receio porque inevitavelmente serei reduzida a um ideal por alguém e não há nada que eu possa fazer para evitar isso. Enfrento, porque sei que o que cabe dentro do termo feminismo só será simples para quem quer assumir um olhar reducionista.

Penso o mesmo sobre o termo Literatura Feminina. Ao mesmo tempo que temo ser reduzida a um nicho, sei quais são as interlocutoras que busco. Escrevo sobre mim e eu sou uma mulher. Escrevo para mulheres. Quando escrevo poemas de amor escrevo para mulheres. Quando escrevo sobre livros escrevo para mulheres. Quando escrevo sobre mim escrevo para mulheres. Minha voz realmente não se molda em outros, não alcanço a técnica da neutralidade. É uma falha e uma escolha. Porque é através das palavras, quando escrevo e leio junto às mulheres, que faço o esforço de alongar essa faixa estreita. E é pela conquista de outras perspectivas para enxergar e estar no mundo que é importante ler mais mulheres.


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