Por que temos que caber no que não cabe na gente?

Os meus pezinhos 43/44 JAMAIS entrariam aí

Outro dia estava eu olhando a minha timeline do Facebook bem distraída quando me deparei com esse post na página Não Sou Exposição, que é de longe uma das minhas favoritas nessa rede social cada vez mais esvaziada de conteúdo relevante.

Para quem não puder clicar vai aí o resuminho: de uns tempos para cá um procedimento estético conhecido como “Cirurgia Cinderela” vem se tornando muito popular entre as mocinhas que nunca amaram os seus pezinhos. A ideia é basicamente encurtar e “endireitar” (atenção às aspas, por favor) os dedos cortando-os, serrando os seus ossos e em alguns casos colocando alguns ganchos para prendê-los. Remover calosidades e tirar o “excesso” (olha elas aí, outra vez) de gordura dos dedões são possibilidades a serem combinadas, mas o principal objetivo da operação é permitir que as pacientes calcem sapatos de números menores depois que se recuperarem.

Esse tipo de prática mutiladora não é exatamente uma novidade trazida pela modernidade. Como a Paco do Não Sou Exposição bem lembrou a China impôs às suas mulheres por todo um milênio os “Pés de Lótus”, um costume que as obrigava a ter seus dedos quebrados e os seus pés atados, com o objetivo de que assim eles parecessem menores do que realmente eram. O pensamento vigente era o de que uma jovem que tivesse os pés atados não apenas se encaixava no padrão estético daquela sociedade, mas também tinha tudo para ser uma ótima esposa, porque assim se provaria extremamente submissa.

Os pés de uma paciente depois da controversa “Cirurgia Cinderela”

Esse é um tema um pouco delicado para mim, porque eu tenho 1,80 m de altura e calço 43/44. Além disso, nasci com a síndrome de Klippel-Trenaunay, que não só carimbou um belíssimo hemangioma bem no meio da testa, como também fez com que meu pé direito seja 2 cm mais comprido e mais largo que o esquerdo.

Eu não vou negar (“que sou louco por você, tô maluco pra te ver… Eu não vou negaaaaar”) que por muito tempo os meus pés me incomodaram e foram motivo de vergonha. Aos dez anos eu já calçava 40 e tinha quase 1,70 m, então eu era simplesmente muito grande para ser uma menina como todas as outras. As minhas coleguinhas eram sempre muito menores e também muito mais delicadas, o que na minha cabeça significava (e acredito que é o que pensa a esmagadora maioria) que elas eram muito mais bonitas e muito mais femininas do que eu jamais seria algum dia.

Demorou muito tempo para que eu parasse de associar beleza e feminilidade a tudo que parece frágil. Não que eu não quisesse desconstruir isso dentro de mim, mas a sociedade me dizia o tempo todo que era assim mesmo e eu que me conformasse! Você já reparou que quase todas as marcas e lojas de sapato feminino só oferecem numeração até 39? Na minha adolescência e início da vida adulta isso significou ter como opção de calçado somente tênis, porque afinal de contas era o que cabia em mim e eu não podia andar descalça, né?

Há dois anos eu tive a felicidade de conhecer a Odete Lis, uma marca que trabalha com calçados femininos de numeração grande há mais de 30 anos, tendo duas lojas no interior de São Paulo e também vendendo online. Logo de primeira adquiri dois pares e agradeci horrores às meninas que me atenderam, porque era a primeira vez depois de mais de uma década e meia que eu estava tendo a chance de usar sapatos femininos que cabiam em mim e que também eram bonitos (não uma coisa ou a outra, como costumava ser). Lembro de caminhar na rua pela primeira vez com uma sandália rasteira que comprei lá e me sentir de fato emocionada ao olhar para os meus pés, que estavam enfim descobertos, enfim leves e enfim libertos!

Os milenares “Pés de Lótus”

Sei que existem outros e-commerces com essa temática, como a Calçados Eurico, por exemplo. Tenho ciência também que é possível encontrar lojas físicas que ofereçam numeração ampla para calçados femininos em algumas metrópoles, mas ainda assim a oferta é muito pequena se considerarmos o tamanho da demanda. Sempre vai ter o empreendedor pioneiro que aposta naquele nicho abandonado e consegue crescer, mas acredito que não hajam mais opções justamente porque a ideia de que mulheres possam calçar mais de 39 é vista como completamente absurda dentro da nossa sociedade!

Se social e culturalmente é entendido que é esteticamente desagradável e pouco submisso uma mulher ter pés grandes então para que a grande indústria de calçados vai investir tempo, energia e dinheiro em atender a essas pessoas? As sasquatch fêmeas que se apertem em sapatos de números menores, que cacem desesperadamente lojas de números maiores ou que comecem a poupança para retalhar os dedos! Simples assim!

No conto original de Cinderela as filhas de sua madrasta fizeram de tudo para que o sapatinho de ouro (sim, na história dos Irmãos Grimm é de ouro, não de cristal) coubesse nelas, apelando inclusive para a automutilação. A mais velha cortou o dedão que não entrava de jeito nenhum e a mais nova um pedaço do calcanhar, que também não cabia como deveria. A mãe das duas disse para elas a mesma frase enquanto lhes entregava uma faca: “Corte fora, quando você for rainha terá que andar muito pouco a pé!”. No final, elas não conseguiram o que desejavam e ainda terminaram cegas (mas aí já tô dando spoiler demais)!

“Eu vou fazer isso caber!”, afirma a irmã má da Cinderela! Quantas vezes já não vivenciamos a mesmíssima situação?

É assim nos contos de fadas e também na vida real: nós mulheres sempre temos que sofrer para entrar em algum padrão absurdo, que serve a propósitos que raramente consideram as nossas necessidades e o nosso bem estar. Temos que ser pequenas porque homens não gostam de mulheres grandes, temos que calçar pouco porque do contrário o príncipe não vai nos querer, temos que ser o que não somos para poder sobreviver em uma sociedade que não quer que existamos de fato!

O que podemos fazer? Desconstruir e resistir, dia após dia e incansavelmente, mesmo que estejamos verdadeiramente exaustas de tudo isso que nos é imposto o tempo todo. Enaltecer o amor pela mulher que cada uma de nós é também ajuda muito, com certeza! O que permite que o mercado nos desconsidere e nos empurre para uma adaptação forçada é que a sociedade nos ensina desde cedo que não podemos nos querer e nos aceitar como realmente somos! Se damos um basta a esse círculo de ódio que só afeta a nós mesmas eles saberão mais cedo ou mais tarde que não nos tem mais nas mãos, que são eles que precisam nos atender e não o contrário!

Adoremos todas as partes que nos formam, inclusive aquelas que teimam em nos dizer que não são boas o suficiente e que não servem! É assim e somente assim que poderemos ser reais! É dessa forma que poderemos de fato nos pertencer e de quebra mostrar ao mundo todo que não somos nós que temos que nos adaptar aos seus desmandos, e sim o contrário!

Abaixo segue uma foto dos meus pés chatos, cada um com as suas próprias medidas e ambos calçando 43/44! Por quê? Porque foram eles que me trouxeram até aqui! Porque foram eles que me permitiram caminhar nesses quase 28 anos de vida! Porque sem eles eu não teria chegado a lugar nenhum e eu sou profundamente grata, sim! Grata e, sobretudo, livre!


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