Prefiro Bukowski, e odeio Bukoswki.
Acabei de finalizar um livro de Charles Bukowski. Posso, sem sombra de dúvidas, dizer que tenho um profundo repúdio ao autor. Não desconsidero a qualidade literária do que ele escreve, inclusive leio, mas não tenho como não ser crítica em relação ao conteúdo e à quantidade absurda de coisas odiáveis, como estupro, sexismo, violência e destrato às mulheres de maneira geral (pelo menos nessa obra, “Numa fria”). No entanto, ainda leio. Leio porque não é “ruim” e leio porque é real. É real que todas essas coisas grotescas aconteçam e isso me faz permanecer na realidade, ainda que Bukoswki escreva ficção (pelo menos nós dizemos que é ficção).
Sinto muita raiva ao ler Bukoswki (ainda mais quando um monte de homens — e mulheres — o tratam quase como um deus), também sinto raiva quando leio Mario Quintana (que, acredite se quiser, tem uns poeminhas um pouco preconceituosos aqui e ali). Mas nada chega perto da raiva que tenho dos escritores de Instagram. E, principalmente, dos escritores HOMENS que escrevem sobre MULHERES.
Eu perdi as contas de quantos textos vi sobre mulheres sendo compartilhados por mulheres que eram escritos por homens. Uma cambada de homens escrevendo sobre como é lindo ela ser livre, sobre como o jeito dela é doce e maluco, sobre como ela o deixa doido com a maquiagem simples ou até mesmo sem maquiagem, sobre o quanto o sexo é incrível e blá blá blá. Todos homens, todos os homens escrevendo sobre as fantasias de suas playmates favoritas, trazendo à tona no papel a sua imaginação sobre milhares de mulheres e, adivinha, vendendo isso para milhões de mulheres que se identificam, curtem, incentivam e enriquecem esses caras — ou minimamente lhes dão palco.
Outro dia uma amiga me mostrou um canal no youtube de um cara dando várias dicas para mulheres sobre como conquistar os caras. Olha, não sei o quanto isso é problemático. Primeiro, eu realmente sou desacreditada dessas dicas, se dadas por homens, se dadas por mulheres, não gosto; não só porque acredito que “dicas”de maneira geral podem ser deterministas demais a ponto de desconsiderar todas as milhões de nuances que pode haver em uma relação ou na tentativa de uma e também por que apelar para isso é, muitas vezes, quase sempre cair no jogo de fazer “jogos” com outras pessoas, algo que nós tanto criticamos. Inclusive, esse mesmo cara do youtube com MILHARES de seguidores, maioria mulheres, é até mesmo acusado de abuso sexual… Ora, ora…
Porém, mais do que isso, o que mais me preocupa ao ver várias mulheres seguindo estes homens que escrevem basicamente sobre [o que pensam que sabem] nós é isto: parece que continuamente estamos procurando por aceitação masculina e que é muito mais “prazeroso” nos ver sendo definidas tão gentilmente por homens do que por outras mulheres. Isto me lembrou uma parte de um capítulo do clássico “O feminismo é para todo mundo”, da bell hooks (p. 140):
Jamais saberemos quantos milhões de mulheres permanecem em relacionamentos com homens sexistas dominadores simplesmente porque elas não conseguem imaginar uma vida em que possam ser felizes sem homens, estejam elas sexualmente e emocionalmente satisfeitas com os homens em sua vida ou não. Se qualquer mulher sentir que precisa de qualquer coisa além de si para legitimar e validar sua existência, ela já estará abrindo mão de seu poder de se autodefinir, de seu protagonismo.
A validação do outro é uma coisa que todo ser humano busca. Não adianta fugir disso. O problema é não perceber isso, trabalhar isso e continuar sempre procurando no outro uma validação. Este texto me trouxe à tona esse trecho porque no caso de mulheres, o mais perigoso ainda é que quase corremos o risco de procurar validação da nossa existência no que os homens acham de nós e isso pode nos fazer cair em armadilhas sexistas perigosas. Esse parágrafo foi um tapa para mim. Eu mesma ainda me pego vez ou outra tentando buscar no outro masculino essa aprovação. Isso, sinceramente, me deixa bastante embaraçada. E não sei se estou “superinterpretando”, mas a cada vez que vejo um texto simples e ruim no instagram, curtido por mais de 1000 pessoas, sendo 90% do público mulheres e cujo assunto é o quanto somos isso e aquilo, sinceramente, me irrito. Por que me pergunto: por que estamos buscando de homens as frases bonitas para nos definir? Por que não conversamos entre nós? Por que não procuramos na infinidade de escritoras magníficas (da literatura brasileira, inclusive!)? Mas por que mesmo estamos procurando tanto?
Quero deixar claro que não sou contra homens escreverem sobre mulheres. Todo mundo é livre para escrever sobre o que quiser. Mas tenho uma ojeriza profunda de homens que escrevem apenas sobre nós e que viram nisso um grande mercado. Porque, sinceramente, aposto que se vários deles decidissem escrever sobre suas questões não chegariam sequer perto das nojeiras bem escritas de Bukoswki. Nojento, mas real, autêntico. O tipo que leio para poder criticar e não me esquecer que existem vários homens com síndrome de bukowski por aí: cheios de problemas de ordem mental, mal resolvidos, machistas e que acham que sabem alguma coisa sobre o amor e sobre nós.
Parem de ler esses caras, por favor. Parem de assisti-los. Eles não sabem nada sobre nós, o mais perto que eles conseguem é visualizar uma “maniac pixie dream girl”, materializá-las na escrita, e, adianto logo, se conhecessem qualquer mulher que realmente fizesse a linha dessa personagem (que também não gosto, mas sei lá, não duvido que exista alguém que se identifique) sairiam correndo.
Sejamos nosso espelho.
info: na primeira versão deste texto eu citei dois autores famosos no instagram, mas isso não caiu muito bem, então retirei. de qualquer forma, fica aí a crítica da mesma maneira :)

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