Star Wars: Episódio VIII — Os Últimos Jedi e a representatividade feminina


Atenção: esse texto contém spoilers!


Eu sou muito, muito fã de Star Wars. Do tipo que assiste todos os filmes periodicamenre desde criança, lê livros, tem tatuagem da starbird da Aliança e faz cosplay de piloto de X-Wing.

Prontinha pra voar

Além disso, eu também sou formada em engenharia. E, por seis anos, fui engenheira de processos industriais em uma das maiores companhias produtoras de bens de consumo do mundo. Durante os quatro primeiros, minha função era especificar e comprar equipamentos e depois contratar e gerenciar as obras de instalação. Durante os dois últimos, fui uma das sete pessoas do mundo responsáveis por criar soluções de engenharia para um tipo de produto da empresa que é feito em unidades em todos os continentes. Em termos práticos, uma menina de vinte e tantos anos, 1,56m e cara de criança que validava tecnicamente a aquisição de máquinas e serviços com custos de até sete dígitos, passava dias no chão de fábrica gerenciando equipes de soldadores, montadores e eletricistas e participava de conferências globais pra tomar decisões que impactavam diretamente dezenas de fábricas.

Esse histórico pode até não fazer de mim a pessoa mais validada do mundo pra falar sobre o último episódio de Star Wars, mas certamente me dá a experiência pra falar sobre machismo, apagamento, subestimação da mulher em posições técnicas ou de liderança e sobre o esforço diário que cada uma de nós precisa fazer pra ser ouvida e levada em consideração. E é por isso mesmo que saí da pré-estreia de Star Wars: Episódio VIII — Os Últimos Jedi determinada a escrever esse texto: uma reflexão sobre como uma grande produção é, sim, capaz de propagar o feminismo em termos que conversem com o público-alvo.

E isso é um desafio e tanto no caso de Star Wars, uma das maiores franquias da história do cinema. Franquia esta que é também intergeracional, o que torna o grupo de espectadores bem diverso em termos de idade, contexto social e repertório cultural. E é por isso que eu acho que o Episódio VIII acertou ao ser um filme feminista que o é “por acaso”. Não um filme militante ou focado na questão — o que é totalmente válido e necessário no cinema de hoje— , mas sim um filme que educa enquanto entretém, o que condiz com sua posição de blockbuster consagrado.

Nos últimos anos, Star Wars já vem dando boas lições de representatividade feminina fazendo o mínimo, se não o básico bem feito: personagens femininas complexas e diversas (General Organa, Rey, Jyn, Hera, Sabine, Phasma, Ahsoka, Maz Kanata entre outras) que não são sexualizadas ou utilizadas apenas como artifícios de roteiro para jornadas masculinas. Mas o Episódio VIII deu um passo além e, além de espalhar mulheres secundárias como pilotos (inclusive líderes de esquadrão), mecânicas e oficiais, mostrou na prática como o machismo é perpetuado em uma sociedade que ainda não sabe lidar com mulheres que ousam assumir posições culturalmente lidas como masculinas.

E a lição ainda é dada em duas camadas: uma mais superficial e até meio cômica, centrada na personagem de Rose Tico, e uma mais profunda, desenhada na subtrama do motim orquestrado por Poe Dameron. Em ambos os casos, o machismo que se vê não é o machismo violento ou escancarado que, felizmente, se torna cada vez mais desaprovado por boa parte da população — mas sim o machismo de todo dia que constantemente é justificado como “falta de costume”, “cultura”, “criação”, “brincadeira”, “mal-entendido” ou outro eufemismo qualquer acompanhado de um sorrisinho amarelo.

No caso de Rose, é esse o machismo que se vê em uma sequência breve em que a mecânica tenta explicar os detalhes técnicos do plano de desativação do rastreador do destróier de Snoke enquanto é interrompida por Finn, que depois faz um carão de incredulidade quando percebe que ambos estão falando a mesma coisa. Depois, Finn interrompe Rose de novo enquanto contam o plano para Poe, que quase ignora a presença da moça na sala — embora a ideia do plano tenha sido toda dela. São cenas tão curtas, efetivas e didáticas quanto a cena em que Finn tenta segurar Rey pela mão durante uma fuga no Episódio VII e é empurrado pra longe.

Mas foi a trama do motim que me deixou mais satisfeita: a história traz uma representação tão verossímil do machismo encarado por mulheres em posições lidas como masculinas que senti que o filme era feito pra mim. Porque Almirante Holdo é competente, confiável e apta (inclusive por ser a sucessora oficial da respeitada General Organa na linha de comando), mas Poe a enxerga como hesitante, prepotente e até covarde. Ela é questionada, tenta argumentar e é inclusive mal vista quando tenta impor a superioridade hierárquica que lhe cabe.

E o trunfo maior é que o filme é construído de modo a colocar a audiência do lado de Poe antes de revelar que o plano de evacuação fazia todo o sentido e o cara, apesar da boa vontade, havia se precipitado. Vale dizer que o piloto tem inclusive uma cena de “chilique” cujo significado até passa batido na hora, mas que depois se mostra uma bela provocação: não são as mulheres que são histéricas e desequilibradas quando são contrariadas?

Feliz ou infelizmente, eu nunca comandei uma frota de naves rebeldes, mas já vivi situações muito similares às vividas pela Almirante Holdo. Em maior ou menor nível, já fui questionada por decisões que foram acatadas sem problema quando vindas de homens (notaram que ninguém no filme questiona as cagadas do Hux ou as decisões emocionais do próprio Kylo?) Já fui desacreditada à despeito do meu curriculum e do meu histórico, só por ser mulher. Já fui interrompida enquanto tentava discutir algum aspecto técnico do meu trabalho. Já fui silenciada. Já deixei de receber créditos por sucessos. Já fui chamada de histérica. Já tive o meu próprio trabalho explicado pra mim por homens que achavam que tinham mais conhecimento só por serem homens. E, acima de tudo, já desisti de discutir quando percebi que a conversa não ia levar a nada (quem nunca revirou os olhos e abriu mão de dar uma opinião a homens que não estavam interessados nas palavras de uma mulher?)

Almirante Holdo representa todas nós

Assisti o filme uma segunda vez enquanto escrevia esse texto e, depois de conversar com amigas e amigos, cheguei à conclusão que essa representatividade tão acertada não é por acaso. Parece “por acaso”, sim, mas esse que é a jogada: parecer casual enquanto o passo é astuto e pré-meditado, reflexo de uma equipe cheia de mulheres em posição de liderança: além das várias mulheres na lista de produtores e co-produtores do filme, é Kathleen Kennedy que ocupa a presidência da Lucasfilm.

Sim, ainda há o que melhorar no quesito da representatividade feminina e em tantos outros. Mas esse texto é um texto de comemoração: quão vitorioso é sair de um filme de space opera, um gênero historicamente masculino, com a sensação de que o roteiro falava diretamente comigo? Quão sensacional é estar na pré-estreia lotada de um dos filmes com maior investimento e bilheteria do ano e ver a sala lotada explodir em palmas de reconhecimento a uma personagem feminina desacreditada durante boa parte da história?

Há algum tempo já não se discute mais que as mulheres podem ocupar o lugar que bem entendem na galáxia. Mas Star Wars: Episódio VIII — Os Últimos Jedi veio pra mostrar que a Força também está com as minas.


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