Tempo, vou te fazer um pedido

Um relato sobre dores sensíveis, mas que passam.

Fonte: weheartit

Eu teria tentado mais uma vez se fosse possível. Talvez, se minha amiga não tivesse insistido tanto para eu dar um pulinho naquela terapeuta que sua amiga do trabalho tinha indicado. Depois de duas idas, duas conversas regadas a lágrimas e lenços Softy’s, eu não retornei a ligação…

O telefone tocou umas três vezes naquela segunda-feira gelada. Eu tremi quando vi o nome dele na tela. Ele nunca me ligava. Se ele nunca ligou antes, por que ligaria agora? No escritório, o relógio não permitia que as 18:00 horas aparecesse nunca. Pensei comigo: “que se foda, eu vou ligar e vou ver o que ele quer”. Mas não liguei porque eu sabia o que ele queria. E não era eu.

Quando me perguntaram o que eu fazia todas as quintas-feiras as 15 horas da tarde, eu disse que ia à terapia. Me chamaram de louca, rindo, enquanto acendiam seus cigarros e em seguida me perguntavam dele. “É por causa dele? Sai dessa menina, ele já deve estar com outra e você ai…”

Eu começava a tremer toda vez que alguém ia me contar algo sobre ele, se viu na rua, se o viu com alguém. Nunca subestime o poder das pessoas de te fazerem mal, colocar o dedo na ferida, pisar de salto no seu dedinho. Por que elas iram fazer isso, e você tem que respirar, e sorrir, como se nada sentisse, “é, eu sei que ele já está namorando de novo”, mas você não sabia, e doí.

Os próximos passos: evitar todos os antigos e novos lugares; não olhar muito em volta; desativar uma duas redes sociais; dizer que sumiu no fim de semana por que estava com a família mas, na verdade, esconder-se embaixo do edredom até o dia lá fora terminar.

Com o sol constante do verão, a cerveja gelada no copo com os amigos e a música que não sai da cabeça, tudo parece um pequeno pesadelo distante, que você insiste em ter.

Às vezes, as risadas de um dia inteiro não anulam a lágrima escorrida ou a náusea permanente ao abrir o Facebook. E você torce pelo amanhã, pra que ele venha e que leve tudo embora.

Até que chega um dia que a sua dor vira poeira — o máximo que ela faz é te dar uma leve rinite, um espirro fraco, uma tosse rouca. As pessoas param de falar, de questionar, o tio para de perguntar por ele, a mãe de tocar no assunto. Se você vê de longe, o coração lembra; a mente sente, mas a mão não congela e a garganta não seca mais.

O difícil de todo começo de fim é a incerteza de que a dor vai passar, pois ela reaparece diversas vezes no caminho, em simples detalhes, em pequenas notificações.

Encostada no muro gelado do escritório, respiro fundo e sinto apenas a dor do tempo, que já não me permite mais sorrir como antes nem correr como antes, mas me permite ser uma versão melhor de mim mesma, com uma dor a menos no coração e uma pontada a mais nas costas.
“Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo…”

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