timing is dancing

E se o amor for embora, olhe a felicidade d’ele ir. E vele pela sua.

Ei, menina, levanta dessa cama.

Anda, lava esse rosto, sente o sol batendo na cara.

Ei, menina, quantos dias faz que você está deitada, chorando?

Vamos, menina, ainda há espaço em branco na vida. O que foi preenchido é tão precioso quanto o que se há de preencher.

Menina, viva para si. Estamos todos de passagem: e não é melhor que passemos por nós?

Olhe bem, menininha: você, deitada nessa cama de lençóis azuis, achando que não existe mais mundo. Preciso contar-lhe algo: eu acredito que quando você termina com alguém, algo que foi devastadoramente bom, você não deixa de amar aquela pessoa. Talvez, em um milhão de formas você ainda a ame — não dá para arrancar de si as sementes plantadas por outro alguém.

O amor não é egoísta e, por isso, nada do que fica significa que o sentimento de amor acaba naquela única vivência extraordinária que acometeu um dia da sua vida.

Como saber se você ama alguém? É impossível transcrevê-la. Os momentos são particulares demais, a intimidade consigo e com o outro é cara demais. Existe uma sintonia inigualável. Não é possível “superar” uma pessoa; mas amor não é dependência. Caso sinta-se presa em alguém, você carece de amor próprio.

Quando existe algo por alguém, genuíno, singelo, não existe esquecer, superar. É recomeçar. É começar. Conhecer outras vivências em outras nuances de si.

Esteja sempre consigo antes de estar com alguém. Somos seres que passam. Relacionamentos maravilhosos que só acrescentam existem. Relacionamentos abusivos que destroem pessoas existem. Ambos podem acabar, ambos podem deixar-te nessa posição fetal em cima do lençol azul. Levante agora, menina.

Não te peço que não sinta as dores de um amor que acabou: sinta-as em toda a sua completude. Com seu coração e sua alma, sinta a partida de quem se foi. Mas lembre-se: é tempo de cuidar de si. Das coisas bobas até as coisas grandes, é preciso que alguém tome conta dessa menininha e a única pessoa que está contigo por todo o dia é o corpo que sutilmente levanta para lavar o rosto.

Coloca a cara no sol e respira. Está doendo, mas cuidar de si é o único remédio. Respira uma, duas ou três vezes. Dez, se for preciso. Respiração é essa coisa involuntária maravilhosa que existe, embora a gente não queira ou não perceba: traços da vida que pulsa. Tenha calma. O mundo não vai se resolver em um instante.

Todos os momentos bons estarão aí ainda. Que bom que estejam! Imagina se toda a vivência existiu para não deixar nada de bom para trás? Olhe para esses momentos, fique feliz por cada um deles e, depois, guarde-os com carinho. Deseja que a outra pessoa seja feliz onde quer que esteja, e deixa o pensamento com o vento. Amor que dói é amor que é segurado, agarrado para que fique por perto.

Deixa o amor ao vento.

E se o amor for embora, olhe a felicidade d’ele ir. E vele pela sua. Faça sua rotina de pele, esteja maravilhosa, alimente sua cabeça com conhecimentos inimagináveis — seja; viva; pertença a você. Aprenda a amar aquele detalhe odiado do seu corpo que você só não mudou porque ele gostava. Ame-se imperativamente.

Não se preocupe, esta é a coisa menos egoísta a se fazer agora: se amar tira a carga das pessoas de te amar por você. Demore para escolher suas roupas, fique de pijama quando achar que deve. Cuide de você como se cuidasse de qualquer outra pessoa: no geral, somos mais duros conosco do que com qualquer outra.

O problema da mulher é a falta de amor (próprio). Deixe-o ir e não espera que ele volta. Você tem você. Isso tem que bastar.

Ninguém será sua última fonte de amor. Ninguém será a única pessoa a te sustentar. Olhe para o sol, sinta o rosto degelar: a realidade pode não ser tão simples, mas se uma pessoa pode ser responsável por todo o seu mundo, todas as suas vitórias, todas as suas mudanças… Essa pessoa não está fora de ti.

Esteja sempre consigo antes de estar com alguém — essa é a única certeza que eu tenho sobre o amor. Você nunca vai se livrar das sementes que foram plantadas em você, mas cultivá-las para que floresçam é dever seu. Cada flor que espalhas no mundo é sua responsabilidade. Finais são ruins, no senso comum. Mas, se você tem a si acaba por entender que as pessoas são do universo — ou delas mesmas.

E não há “superação” ou “esquecimento”. Existe alguém que te trouxe coisas e que partiu, mas que deixou uma mulher que sabe sentir-se triste e que também sabe cuidar de si, e por isso inundou-se de gratidão pelos momentos passados e felicidade pelos que estão por vir. Uma mulher que não precisa mendigar amor. Conviva com teus fantasmas, os ame. Permita que sejam felizes para que, sem o peso de carregar a felicidade alheia nos ombros, tu possas permitir-se ser feliz.

Não aceite que sua vida seja de ninguém, menininha. Sei que agora dói. Está tudo bem doer. Logo passa. Porque a vida é sua. O corpo é seu. E quem cuida de ti é você. Com calma no coração, a alma se aquieta. Com paz e gratidão, os caminhos se acertam.

Aos momentos felizes que passam, acompanhada ou só, agradeça em sussurro brando. Aos que vem, saiba que tens uma companheira fiel.


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