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Uma breve história sobre ser mulher e escolher ciências exatas

Quando eu tinha oito anos, um dos meus rabiscos foi o projeto de uma nave anti-gravidade. O funcionamento, claro, era inocentemente justificado pelas leis de Newton, que eu tinha aprendido espiando nos livros dos meus irmãos mais velhos. No entanto, ainda precisei esperar alguns anos até que a física entrasse no meu currículo escolar, mas o fascínio pelos mistérios da natureza já tinha se instalado muito antes de eu ter capacidade de compreender qualquer formalismo matemático.

Eu tive a sorte de ter pais que me motivaram. Muito jovem eu ganhei livros sobre Newton, Einstein e sobre grandes filósofos, dentre os quais conheci Hipátia de Alexandria, que foi uma das minhas grandes inspirações. A coragem e determinação dessa mulher me marcaram, deixando comigo a ideia do tipo de mulher que eu gostaria de ser (Embora eu preferisse não ser esquartejada em algum ponto da minha vida).

Esse padrão de motivação não mudou, e, à medida que fui avançando nas ciências, fui tendo acesso a mais informação e objetos, como por exemplo, um telescópio. Logo, aos dezesseis anos, eu já tinha certeza que minhas escolhas profissionais girariam em torno de ciências exatas, mas não sabia exatamente como. A verdade é que, se você não tem ninguém no seu círculo de convivência que é cientista, a ideia parece um pouco inalcançável. Talvez não tanto nos dias de hoje, com tanta informação na internet, mas certamente era o caso a quinze anos atrás. Meus pais não tinham como me orientar nesse quesito, e, se havia algo na minha escola que fomentava esse tipo de escolha, eu não soube. Durante um bom tempo pensei em fazer engenharia, mas nos últimos meses antes do vestibular, uma conversa me deu a coragem para encarrar outras possibilidades…

Todos os anos, meu colégio promovia uma feira das profissões, mais ou menos uns seis meses antes do vestibular. Nessa feira, eu visitei algumas tendas das profissões que eu me imaginava seguindo. Basicamente, algumas engenharias, mecatrônica e física. A professora que me recebeu no estande da física, que era a coordenadora do curso na época, foi muito receptiva e me encantou com as possibilidades que o curso poderia me oferecer. Na época, eu não tinha noção que estava me direcionando a um caminho que só para a formação completa me exigiria dez anos de estudo (no mínimo), mas só de ouvir “Na física você pode ser o que quiser”, eu topei. E acabei fazendo vestibular para Física bacharelado na federal.

Eu mal tinha começado a faculdade e já sentia uma enorme necessidade de me camuflar. Até alguns anos atrás, acreditava que isso se devia a minha inadequação social, porém comecei a ler relatos de muitas outras meninas que sentiram algo muito similar (inclusive essa tese aqui!); Uma necessidade de não se fazer percebida. Como se houvesse um pacto tácito de que mulheres não são permitidas naquele ambiente. E com dezessete ou dezoito anos, é muito difícil de se posicionar contra isso.

A verdade é que não há tanto sexismo aberto na academia. Porém, é muito comum observar sinais latentes de que você não é bem vinda, não faz parte daquele ambiente e não merece estar ali.

É muito difícil ser mulher em um local onde a fala “Fulana só passou em tal disciplina porque agradou o professor…” é tão comum. Para mim, demorou mais ou menos até o quinto semestre da faculdade até que eu tivesse coragem de me assumir mulher (por mais ridículo que isso pareça). Eu decidi vestir roupas femininas (sim, eu andava de bermuda, Blusa GG e boné), e parar de tentar me camuflar. Nós, mulheres, éramos a minoria, mas eu estava cansada de me esconder.

Eu queria ser mulher e mostrar que não tinha nenhum demérito nisso.

E assim o fiz. Porém, não foi exatamente fácil. Até terminar o mestrado, eu experimentei: Ser chamada de burra na frente da sala inteira, ser chamada de desequilibrada na frente da sala inteira(porque eu tive uma crise de choro, em um momento de muito estresse), ser repreendida por usar um vestido vermelho (que tinha mangas e era mais ou menos um dedo acima do joelho), ter uma nota menor com as mesmas soluções, dentre várias outras situações que me desmereciam como profissional e, às vezes, como ser humano. É muito comum encontrar pessoas defendo que esse é o ambiente das ciências exatas em geral (o que já é um absurdo!) e que o fato de eu ser mulher não influenciou nada nesses acontecimentos, mas eu, honestamente, duvido. Em resumo, o que eu penso é:

Precisa-se de muita paixão e esforço para fazer ciência. Precisa-se do dobro, se você for mulher.

Findo o mestrado, fui para São Paulo fazer o doutorado. Confesso que, na maior parte do tempo, durante o doutorado, enfrentei poucos episódios de sexismo. Ainda assim, aqui ou ali, meu conhecimento foi avaliado com descrença. Em outros momentos, até que provado o contrário, minha opinião foi ignorada. Cada momento desses te faz voltar para estaca zero e se questionar se vale a pena o esforço, se o melhor não seria só desistir porque claramente você não é capaz e não merece estar ali.

Eu não sei como é a experiência masculina, mas a minha sempre foi que, caso eu quisesse ter a palavra, era preciso romper uma camada rígida e invisível e conquistar o direito à fala. Não me recordo, com clareza, se alguma vez ouvi a pergunta “O que você acha?” ou algo do similar. A abertura, na minha experiência, sempre precisou ser cavada. Nunca veio de graça.

Um dos episódios que me recordo com mais tristeza foi quando tive que engolir seco, ao apresentar meu trabalho, quando a platéia foi lembrada de que aquele era um trabalho de equipe e portanto, era necessário parabenizar meus dois companheiros de trabalho, ambos homens. Em nenhum momento a participação deles havia sido neglicenciada. Em nenhum momento havia sido dito que eu tinha arcado com aquele trabalho sozinha. Porém, naquele momento, no final da minha apresentação (e a ideia do trabalho também era minha, aliás), ainda era preciso lembrar que uma mulher não faz nada sem ajuda de homens, né?

É verdade que você acaba criando um casco. Acaba se acostumando a não deixar que essas coisas te desmotivem, acaba desenvolvendo uma ferocidade que, depois, vão te apontar o dedo na cara e dizer “Você é muito agressiva. Ninguém vai gostar de você assim.” Acredito que mulheres que tentam sair do lugar que lhes foi concedido acabam enfrentando uma enorme resistência, e, também, certa violência. É uma questão de sobrevivência tornar-se, pelo menos, um pouco dura e feroz.

Após terminar o doutorado, consegui uma vaga no exterior. Depois de uma discussão com meu orientador, que me disse que “Eu não estava preparada para sair do país”. Quando eu perguntei o porquê, pois nessa época já tinha aprendido que só com valentia é que eu chegaria onde queria chegar, ele nunca me deu uma justificativa. Eu preferi arriscar, confiar em mim e não me arrependo. Cresci e aprendi muito nesses anos no exterior, e, incrivelmente, estive confrontada com bem menos sexismo aqui, embora que, quando em vez, ainda tenho que tolerar ser ignorada até que alguém descubra minhas credencias, a universidade na qual trabalho e meu ramo de pesquisa.

Hoje, eu tento, o máximo possível, espalhar a ideia de que mulheres são tão capazes quanto homens para as ciências exatas. Eu tenho uma gama de colegas que são ótimas profissionais. Sempre faço questão de conhecer outras mulheres, que estejam em qualquer ponto da carreira, para que estejamos sempre ajudando umas as outras, já que temos o suficiente contra nós. Além disso, é preciso que estejamos sempre atentas ao número enorme de mulheres que no passado foram excelentes cientistas e foram tão somente eclipsadas pela história, contada por quem tem o poder. Das quais, posso citar Rosalind Franklin, Chien Shiung Wu e Jocelyn Bell Burnell. É duro saber que o trabalho de alguém foi completamente ignorado e o reconhecimento, o lindo prêmio Nobel, foi dado a outra pessoa (advinha de qual gênero?). Mas infelizmente, esses casos estão longe de ser casos isolados.

Aparentemente, apenas Marie Curie é uma mulher cientista que se estuda na escola. Todas as outras estão relegadas ao esquecimento. Lembro-me claramente que um dia, no museu da ciência de Londres, enquanto buscava por uma exposição da Ada Lovelace, conversei com um dos funcionários. Ele me perguntou porque eu estava tão interessada nessa exposição*. Eu comentei que era cientista, e que estava interessada em conhecer mais sobre as histórias de mulheres de destaque na ciência. Ele suspirou e falou “É, a gente tenta encontrar mais mulheres que sejam modelo para as crianças, sabe? Ainda é difícil uma mulher ser cientista nesse país.”

É amigo, tenho que concordar, ainda é difícil ser mulher e cientista em muitos países. É por isso que é importante que as meninas tenham modelos** e vozes femininas que as digam “Sim, você pode.” Eu tive grandes mulheres que me inspiraram e me apoiaram durante toda a vida, e agora eu espero que eu possa fazer o mesmo pelas mulheres que estejam querendo iniciar essa jornada.

Ser homem não é pre-requisito pra fazer ciência.

* A exposição mostrava as cartas entre Ada e Charles Babbage, mostrando que não só ela escreveu o “primeiro programa” como foi fundamental para motivar Babbage a construir a máquina diferencial.

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Publicação feita por mulheres. Edital para novas escritoras será aberto em Maio de 2021.

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