A arte de desacelerar o tempo

Ou, novamente, a fotografia

São tantas pessoas nesse mundo, mas ao mesmo tempo são tão poucas.
Vivo aqui em casa horas a fio comigo mesmo. Às vezes minha família, às vezes meus amigos, às vezes o Douglas. Mas acontece que quando saio e pego ônibus — que atravessa vários lugares e onde atravessam várias pessoas — , eu entro em transe ao parar e perceber que existem outras vidas ali. Sabe quando o ônibus para no ponto e ali você percebe outra pessoa que no próximo segundo não verá mais? Então o ônibus continua seguindo, e você também. Mas antes disso, tiro o celular e guardo uma foto.

e leva dor

Cidade grande é barra. Muita gente e pouco barro. A gente se esbarra o tempo todo e fica nisso. Mal, mal nos olhamos. Acho que olhar incomoda. Olhar para fora do seu núcleo, seus conhecidos, seu trabalho, sua vida. Mas não deveria. Na verdade, é uma expansão de vida. É uma pausa nas selfies para retratar um mundo que é sempre maior do que se espera, mais novo do que ontem e mais profundo do que se enxerga.

No meio de tanto movimento, tanta correria e direções diferentes, a fotografia não é apenas uma maneira de congelar o que não se congela, mas de nos fazer desacelerar um pouco o tempo para percebermos, ao olharmos aquela foto, as mais diversas expressões que estavam e estão contidas ali. Assim dá pra meditar sobre algo que mal, mal percebemos: as pessoas (por exemplo).

o joia da vida real

Quando tirei essa foto, de um senhor levando sua filha pra algum lugar dentro deste ônibus, tive um simples sentimento de dó contra as “injustiças” do mundo. Mas depois que parei pra realmente enxergar essa foto, vi que naquele pequeno espaço separado de todos, não só os olhos do homem falam, como também, o joia que a menina se esforça pra fazer usando a outra mão para apoiar o braço. Esse pequeno instante me revelou a contínua força do espírito humano. Um simples momento que tive num dia qualquer, depois de tirada essa foto, me permitiu rever, desacelerar e descobrir novas coisas. (ainda mais pra minha memória de peixe, a fotografia é uma cura).

A fotografia permite um segundo olhar para o mundo, uma segunda chance.

E aí, vai de cada um que olha, seja de dentro ou de fora da foto. O importante é ter a chance de (re)construir seu ponto de vista e, principalmente, de ter um tempo seu pra fazer isso. Por isso, a fotografia não se trata só de aprender a fazer imagens, mas de aprender a fazer suas próprias imagens de mundo. O olhar de cada dia.

A monalisa de todo dia

Valeu!