Cinema e o terror: por que gostamos de sentir medo?

Por Ivan Monteiro

O gênero de terror vive de fases. Seu grande estouro foi catapultado por O Exorcista, em 1973, que além de fazer quase meio bilhão nas bilheterias mundiais, ainda conquistou a crítica, sendo indicado para 10 Oscars. A consagração de um filme controverso, polêmico, levou a indústria para novos caminhos, fazendo seus mentores olharem com respeito as histórias que podiam assustar, mas com qualidade. Com a variação de contextos na sociedade, o terror também assimilou momentos em que refletiam os tormentos gerais de cada um. Com a globalização e terrorismo, vieram as produções de zumbis, por exemplo.

Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, já dava sinais claros na sua obra Psicose que ao flertar com o trágico, a mistura da tensão e do horror, poderia fazer plateias não apenas se chocarem, mas se divertirem também. “O único modo que encontrei para me livrar dos meus medos foi fazer filmes sobre eles”, disse uma vez. Todavia, existem diferenças entre o terror e o suspense.

Clássico ‘O Exorcista’ levou 10 indicações ao Oscar.

Apesar de tanto o suspense quanto o terror lidarem com as sensações do medo, é no susto e no pavor que o terror se sobressai. Um suspense é movido pela tensão, como um bom thriller. Enquanto isso, o terror evoca cenas assustadoras mesclando com a ilusão da calmaria, mas sempre se preparando para um nova onda intensa de pavor.

Na ciência, o medo, a ansiedade e o estresse são importantes sensações para o homem se defender de perigos. São em momentos de histeria ou de assombramento que fazemos escolhas impulsivas buscando a nossa sobrevivência. É como um reflexo.

Quando o cérebro percebe uma ameaça, o sistema do medo é acionado e prepara todo organismo para o pior. Ele libera neuro-hormônios e neurotransmissores para defender o corpo. A Dopamina, endorfina e adrenalina são jogadas no sangue e a reação surge.

Por outro lado, quando os níveis da dopamina estão altos, é possível também sentir uma sensação de prazer e calma. Como um anestésico. Por isso tantos personagens aterrorizados em uma história de cinema, simplesmente, ficam parados e morrem atacados.

Invocação do Mal: novo clássico do terror.

Nesse meio período de tensão, o espectador que assiste a um filme sente esse prazer assustador. Ao mesmo tempo, busca refúgio, junto com o protagonista, e tenta encontrar uma forma de se safar. O heróis dos filmes de terror nem sempre sobrevivem no final, mas conseguem desvendar com proeza o grande mistério do perigo.

A catarse coletiva, ao fim de uma sessão de terror, também é um dos motivos nobres que fazem tantas pessoas se interessarem pelo gênero. Nada como a sensação de alívio que a subida dos créditos proporcionam após uma tortura de 90 minutos.

Aristóteles defendia que a tragédia proporcionada pelo medo, era capaz de fornecer uma das melhores catarses nas histórias. “A dor que sentimos quando antecipamos a presença do mal”, disse ao separar os gêneros em seu tratado “Poética”.

Enquanto o cinema de terror reencontrou o público no início dos anos 2000 com o estilo sádico de Jogos Mortais, hoje o terror sobrenatural é que toma conta das bilheterias. Filmes como Atividade Paranormal e Invocação do Mal deram um novo gás ao estilo.

O curioso do cinema de terror é que não importa bem o assunto, seja do estilo sádico, slasher, sobrenatural, apocalipse zumbi, entre outros, que seu orçamento nunca precisa ser inflado — como um blockbuster cheio de efeitos especiais — e isso é sempre um investimento com chances de retorno muito bons.

Jogos Mortais: custou 1.2 milhão e faturou mais de 100 milhões nas bilheterias.

Em um momento em que a indústria busca uma nova forma de atrair a atenção do público, o investimento no terror tem se mostrado a melhor estratégia. Basta comparar a bilheteria e o custo de um filme como Capitão América: Guerra Civil e Invocação do Mal. Apesar do primeiro ter batido 1 bilhão de dólares nas bilheterias pelo planeta inteiro, custou 250 milhões para ser produzido- e isso sem contabilizar o marketing milionário para vendê-lo. Já o segundo fez 320 milhões tendo custado apenas 20 milhões. Ao comparar com outro clássico, O Sexto Sentido fez mais de 600 milhões e custou apenas 40 milhões! Ou seja, é relativamente muito mais rentável que produções de custo inflado.

Na nova onda de sangue do terror, não faltam opções para todos os gostos, enquanto os clássicos continuam vivos na memória de todos. O que se leva dessa história é a seguinte: não invente de olhar para trás enquanto assiste uma dessas deliciosas produções.