Fotografar, uma meditação

A meditação de cada olhar

Desde quando comecei a meditar do modo tradicional, sempre me sentei no chão, num espaço tranquilo, livre de distrações — uma música budista ali, um manto bonito aqui. No início, eu não sabia que, na verdade, esse modo tradicional não existe pra valer. A gente se apaixona pela ideia oriental, exterior e exótica da coisa. Mas, vemos mais a frente, que isso tudo é só um pontapé inicial. O que é ótimo, já que pouquíssimos de nós teremos a chance de abandonar tudo e se mandar pro Himalaia.

Isso tudo pra dizer que a meditação não é essa coisa intocável e fora do cotidiano quanto parece. Pelo contrário. Comigo foi assim: o modo tradicional me fez perceber com o tempo que a meditação vai vestindo outras vestes, ajustando as nossas formas, porque não se trata de uma prática pela prática. E, sim, um estado de ser. Isso se transforma, vai e vem, acontece e deixa de acontecer. Acho que a própria palavra meditação nos afasta dela mesma, acabamos a vendo como um conceito muito bem delimitado quando, na verdade, nem um conceito é.

Abrindo um parênteses: é mais difícil do que parece escrever sobre coisas simples como essa sem correr o risco de encaixotar isso que se chama de meditação em algum outro conceito. Enfim, a intenção é só refletir um pouco sobre nossas experiências humanas. E aí vai a que estou tendo:

Várias pequenas coisas me fazem pensar que a fotografia, por exemplo, está sendo pra mim um tipo de meditação. Quem sabe você também perceba que tem mil coisas que te já te fazem um(a) “mestre” em meditação sem nem estar sabendo.

Na fotografia, ao meu ver, existem dois momentos de meditação: quando se fotografa e quando se revê o que foi fotografado. Os dois me emergem num instante de atenção gostosa, na qual consigo estabelecer uma conexão sincera entre eu e o meu espaço — tanto externo quanto interno. No primeiro momento, uma consciência surge e parte do mundo ao meu redor ganha contornos mais significantes. Sem precisar pensar muito a respeito, fotografo isso. No segundo instante, quando sento e observo as fotografias, essa consciência parece tomar forma e consigo observar no meu tempo uma realidade bem maior daquilo que sempre vejo.

A meditação parece seguir o mesmo caminho mental: essa luz de consciência, essa ligação entre eu e o meu espaço sem grandes barreiras e incômodos, esses raros instantes em que me sinto dentro de mim e não dois passos ao lado.

Um estado em que não faz sentido estabelecer fragmentos do nosso ser em corpo, mente e alma. Simplesmente flui uma coisa única. Tudo está presente num presente sem passado ou futuro. Não é à toa que a fotografia prolonga o presente eternamente.

como seu rio flui?

Valeu! (Namastê)