Macbeth, de Justin Kurzel

uma obra que bebe de uma fonte inesgotável

de Marcos Alves

Muito se conhece sobre Shakespeare. Autor, poeta e dramaturgo renascentista — hoje em dia, visto como um dos maiores autores da história, tendo produzido textos de valor inimaginável. Se há um campo onde o autor mais brilha e é lembrado até hoje, esse com certeza é o da dramaturgia. Peças que passam por tragédias, comédias, crônicas históricas e romances, conferem-lhe essa posição de respeito. Através dos anos, vemos que as obras do autor vêm sido reinventadas, principalmente, no campo da sétima arte. Já tivemos releituras feitas por Godard, Akira Kurosawa e tantos outros. Nessa breve análise, focarei a obra Macbeth, de Justin Kurzel, lançada em 2015.

Macbeth, de certa forma, trata sobre o enlouquecimento de um homem e sua corrupção moral. Há diversas formas de interpretar esse acontecimento. Podemos pensar que, assim como o filósofo Rousseau dizia, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Essa visão é um ponto válido para se ver o filme; por outro lado, acredito que a de Bakunin, um teórico anarquista do século XIX, seja mais precisa. Uma de suas teorias diz que “nada é mais perigoso para a moralidade pessoal de um homem do que o hábito de comandar. O melhor homem, o mais inteligente, desinteressado, generoso, puro, irá certamente ser corrompido por este encargo. Dois sentimentos inerentes ao poder nunca falham ao produzir esta desmoralização; eles são: o desprezo às massas e a supervalorização dos méritos pessoais.”

O filme, por sua vez, conta com a atuação poderosa de Michael Fassbender como Macbeth, que acredito figurar entre um de seus melhores trabalhos. O ator consegue transpor na tela a insanidade da personagem, criada pela atração pelo poder e pela culpa que essa atração lhe causa. Fassbender demonstra isso de uma forma bela, não se perdendo à forma shakesperiana utilizada na película. Aqui, a fotografia é outro elemento que corrobora para que a atuação demonstre tais características. No que diz respeito a essa fotografia, é sublime como cada frame se assemelha a uma pintura — uma escolha estética que ajuda a delinear uma maior dramaticidade ao longa e consegue deixar mais vivo tanto o cenário quanto a subjetividade dos personagens ali exibidos. Além disso, o texto casa bem com essa escolha visual e o trabalho de câmera de Adam Arkapaw.

Uma das críticas mais frequentes ao filme se encontra na utilização da linguagem de Shakespeare no filme, que não tenta traduzir ou modernizar o texto. Assim, agracia-nos com poderosas frases como: “So foul and fair a day I have not seen”. Ou seja, diálogos abstratos e arcaicos, mas que dão um toque especial à obra e também homenageiam a peça da qual é adaptada. Apesar de não ser um diálogo fácil e que, sem uma legenda, é provável se perder entre as frases, há todo um toque mantido que nos faz perceber que Shakespeare nunca será datado e sempre será possível adaptá-lo de uma forma única.

Além da atuação de Fassbender, não devemos nos esquecer do trabalho de Marion Cotillard, que atua como a esposa de Macbeth. A atriz consegue complexificar todas as características da personagem de uma forma única nesta mise-en-scène. E é válido ressaltar que, além de tudo, o diretor, Justin Kurzel, dá um toque próprio e único a essa obra adaptada de Shakespeare, que merece sempre uma visita nova.