Paterson:

poesia e o tempo cotidiano

Water falls from the bright air
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors
with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain — “Water falls”, poema de “Paterson”

Cinco meses após sua estreia em Cannes, o mais novo longa do cineasta Jim Jarmusch desembarca no Brasil. Em Paterson, acompanhamos as observações e reflexões mundanas do personagem-título (Adam Driver), um motorista de ônibus que transforma os eventos do seu cotidiano em poesia.

O interessante deste longa é a quebra de uma estrutura clássica de narrativa. Em vez de irmos simplesmente de A até B, observamos o que acontece no meio através de uma linha simples e cotidiana. O rodar de máquinas de lavar roupa, pintar cortinas, fazer cupcakes, paixões obsessivas e também tranquilas, conversas durante uma viagem de ônibus, caixas de fósforo: tudo é impulso para a arte. Paterson nos mostra que antes mesmo de se escrever poesia, é preciso tê-la em seu meio. Isso quer dizer também que o próprio filme se inscreve sob um modo poético através dessa narrativa, que nos remete muito mais ao verso do que a uma prosa contínua. Assim como as poesias do personagem voltam sua atenção ao mínimo, a palavra não rebuscada, aos sons comuns; Jim Jarmusch também paira sob uma imagem e um tempo — aspectos esses já do cinema — em seu minimalismo e lucidez.

Pensando, então, nas imagens como palavras e os versos como o ritmo do filme, vejamos que as repetidas cenas em espaços comuns — trabalho, casa, bar e caminhadas —, a fotografia em suas cores pastéis e o ritmo cíclico dos dias da semana criam uma atmosfera que, apesar de indicar expectativas de que algo fure o ordinário, constantemente se volta para si e revela uma potência inerente à uma vida interna, que torna desnecessária a busca por algo a mais — como procurar publicar um livro e ser conhecido. É nesses espaços mais comuns e introspectivos que emerge também, vez ou outra, punctum que parece vir de um espaço divino. Por exemplo, a cena em que, após ouvir uma desconhecida ler uma poesia sobre cachoeiras, o personagem avista sua namorada colocar uma pintura de uma cachoeira na parede. Portanto, é como se o diretor dissesse que, através da poesia e do mínimo das coisas, torna-se possível vislumbrar com profundidade a própria vida e o que há por detrás dela.

Apesar desse traço possivelmente divino, Paterson não deixa de se voltar majoritariamente para o ordinário. O fato do personagem ter o mesmo nome da cidade onde mora e da linha de ônibus que dirige, só nos ajuda a entender o quão comum o protagonista é, e que, ao contrário do que possa parecer, Paterson não é um gênio preso em sua rotina, mas simplesmente mais um que vive o mesmo dia, todos os dias. Dias que são preenchidos por essa latência chamada poesia.

Em tempos nos quais estamos convencidos de que tudo corre na velocidade da luz, Paterson nos lembra de que ainda existe, como no poema Water Falls, um fluxo que se assemelha mais ao ciclo das chuvas do que a de um movimento insano, como aquele.

Por Marco Melo e Matheus Carvalho

Fique com algumas poesias que são escritas pelo personagem ao longo do filme:

Love Poem

We have plenty of matches in our house
We keep them on hand always
Currently our favourite brand
Is Ohio Blue Tip
Though we used to prefer Diamond Brand
That was before we discovered
Ohio Blue Tip matches
They are excellently packaged
Sturdy little boxes
With dark and light blue and white labels
With words lettered
In the shape of a megaphone
As if to say even louder to the world
Here is the most beautiful match in the world
It’s one-and-a-half-inch soft pine stem
Capped by a grainy dark purple head
So sober and furious and stubbornly ready
To burst into flame
Lighting, perhaps the cigarette of the woman you love
For the first time
And it was never really the same after that

All this will we give you
That is what you gave me
I become the cigarette and you the match
Or I the match and you the cigarette
Blazing with kisses that smoulder towards heaven

Another One

When you’re a child you learn there are three dimensions
Height, width and depth
Like a shoebox
Then later you hear there’s a fourth dimension
Time
Hmm
Then some say there can be five, six, seven…

I knock off work
Have a beer at the bar
I look down at the glass and feel glad

Poem

I’m in the house
It’s nice out
Warm
Sun on cold snow
First day of spring
Or last day of winter

My legs run up the stairs
And out the door
My top half here writing


Dica cinéfila: Escute também o ótimo Podcast do Cinematório sobre “Paterson”