Precisamos falar sobre sinopses

Elas são pequenas, mas seus efeitos podem ser explosivos

O gênero sinopse é um daqueles problemas que a gente nem imagina que existe. Pense, por exemplo, em quantas vezes você deixou de assistir a algum filme — seja na Netflix ou nas saudosas locadoras — , porque leu algumas linhas que não te convenceram. Sem falar que, quando você finalmente consegue passar pelas sinopses, fica com a impressão de que quem as escreveu, mal assistiu ao trailer do filme.

Obviamente, existem ótimas sinopses espalhadas por aí. Por outro lado, basta um passeio pela Netflix para se deparar com textos muitas vezes cômicos, à la Sessão da tarde, e que mais parecem variações do mesmo tema.

“Assista a esse vídeo e morra. Pode até haver uma salvação, mas será que você aguenta?” — sinopse de “O Chamado” pela Netflix.
vai, Brenda

Lost in translation

Felizmente, filme e sinopse não são a mesma coisa. Por sua vez, o trabalho da sinopse em sintetizar um filme não é fácil, já que há muito mais elementos neste do que poucas linhas conseguem conter. De certo modo, deparamo-nos com a velha história da tradução — e, nesse caso, mesclada à adaptação. O que a sinopse gera, por mais que se remeta ao filme, já é outra coisa — como um texto traduzido não é totalmente fiel ao texto original. Ainda mais quando, para metaforizar um pouco, tenta-se passar um elefante por um buraco de fechadura. O problema é que, infelizmente, filme e sinopse não chegam nem a formar um par.


Esqueceram de mim

Quando se pesquisa por sinopses de filmes, logo se percebe um gênero não muito levado a sério. Além da comicidade nos resultados dessa busca, nota-se que esses textos não são assinados e parecem não ter critérios recorrentes em sua produção — o que por si só não é ruim, mas revelam aspectos fantasmagóricos e descompromissados que, por vezes, comprometem os filmes.

Apesar de não se tratar da obra em si, as sinopses são seus garotos propaganda. Esses pequenos textos funcionam como porta de acesso aos filmes. Aqui, não importa quão ótimos esses sejam, se as sinopses não permitirem uma vista mais fiel à película, o espectador nem entra.


O silêncio dos inocentes

Além de afastar ou atrair os espectadores, a escolha por este ou aquele substantivo, adjetivo ou sentença nas sinopses pode conduzir a interpretações prontas antes mesmo que o filme comece. Vejamos a sinopse de Sob a pele dada pela Netflix:

“Uma sedutora alienígena perambula pelas ruas em busca de atrair homens inocentes para uma armadilha mortal”.

Quem assistiu ao filme provavelmente concorda que ambos os termos grifados limitam a experiência desse longa-metragem. Aqui, optar pelos termos alienígena e inocentes é uma saída fácil, mas muito pouco cuidadosa. Abaixo, podemos ver outra sinopse para o mesmo filme no site do IMDb:

“Uma jovem mulher misteriosa seduz homens solitários nas noites da Escócia. No entanto, eventos a levam para o início de um processo de autodescoberta”. (em tradução livre do inglês)

Já, aqui, uma simples mudança por termos mais abertos consegue produzir o efeito que o filme propõe ao abordar o desconhecido. Além disso, o uso de palavras como eventos e autodescoberta chama atenção para o filme sem que ocorram os temidos spoilers.


Cantando na chuva

Felizmente, os filmes não são de fato suas sinopses. E, mesmo que fossem, sem dúvida ainda existem sinopses que prezam pelos seus filmes. Entretanto, quando você tiver que encarar uma sinopse daquelas, já sabe o que fazer:

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