Uma experiência batizada ‘Dunkirk’
Sensorial, novo drama de Christopher Nolan demarca um feito na filmografia do diretor ao fazer da narrativa de guerra uma corrida contra o tempo

Sentei naquela enorme sala de cinema com duas confissões em mente. Soube que, assim que precisasse escrever algo sobre Dunkirk (2017), o novo filme de Christopher Nolan, deveria admitir esses segredos com quem fosse ler minha avaliação — questão de respeito e honestidade.
Primeiro: sou um nolanzete e não consigo fazer críticas fáceis aos filmes do Nolan. Sou um daqueles que preferem não reconhecer os erros do terceiro ato de Interestelar (Interstelar, 2014) para aproveitar a essência do filme e, ao fim, classificá-lo como um dos meus favoritos.
Segundo: aprecio a capacidade de enganação da sétima arte. Gosto de acreditar que o que se passa na tela de cinema é real, e que, como a realidade, pode me afetar dos modos mais inesperados possíveis.
Com essas duas revelações, a Dunkirk: uma experiência construída em contrastes.
Magistralmente dirigido e composto, o novo drama de Nolan resgata a Segunda Guerra Mundial sem o heroísmo forçado de muitos filmes que adaptam a época. Por sua vez, Dunkirk representa a corrida desenfreada de seres humanos que simplesmente querem voltar para casa — despojados de toda a esperança sob a iminência constante de um fatal bombardeio alemão.

O filme apresenta a conquista da Operação Dínamo, histórico momento de orgulho e inspiração para os britânicos. Isolada na praia de Dunquerque, o único porto francês em posse dos Aliados durante a invasão nazista de 1940, a Força Expedicionária Britânica aguarda um resgate para permanecer viva. Navios que partiam da cidade inglesa de Dover, que, sob o bombardeio de aeronaves alemãs, atravessariam o Canal da Mancha para transportar os cerca de 340 mil soldados na praia.
Basicamente, uma corrida contra o tempo para a sobrevivência humana. Pois, traumatizado por uma das mais terríveis experiências da humanidade, nem todo homem de Dunkirk almeja ser um herói: para ele, ser um sobrevivente já basta.
O tempo, tão caro aos filmes de Nolan, novamente adquire uma feição material em Dunkirk. O som dos cliques de relógio demarcados em diversos momentos da trilha sonora reivindica exatamente aquilo que é matéria-prima do diretor: a corrida contra o tempo para a evacuação urgente dos soldados, a narrativa que quebra a linearidade e só depois admite sua ousadia e a montagem paralela que organiza as peças do quebra-cabeça e agoniza o espectador em vários clímax de aflição.

Dunkirk é sobre barulho e sobre silêncio. A narrativa preza pela ausência de diálogos e exagera pela forte presença do som.
A imersão proporcionada pela mixagem dele (potencializada pelos recursos de uma sala IMAX, nunca antes tão bem utilizada — segundo a opinião desse pobre cinéfilo) coloca o público no centro da guerra, na mira das metralhadoras, sendo bombardeado, ferido e morto como qualquer outro personagem no filme. Não foram poucas as pessoas que vi levando as mãos aos ouvidos, ou desviando o olhar da tela como que tentando escapar do frenesi criado pela narrativa.
Em vão.
Não há dupla mais imbatível no cinema de massa contemporâneo (autoral) do que a formada por Christopher Nolan e Hans Zimmer. O compositor, aquela especial figurinha repetida no álbum de Nolan, envolve toda a tensão do filme numa outra camada de profundidade do sentido: uma trilha sonora concisa, mas que preenche.

Pois Dunkirk é sobre agonia e alívio. Juntando os veteranos Mark Rylance, Cillian Murphy e Tom Hardy com os novatos Fionn Whitehead e Harry Styles (sim, Harry Styles), é um filme que merece ser assistido em tela grande (e em IMAX, junto meu coro ao clamor do diretor). É obrigatório sentir suas pernas tremendo a cada ronco de avião e seu coração na boca enquanto a narrativa se desenrola sem longos respiros.
Mas, acredito que acima de tudo, Dunkirk é sobre heroísmo. Sobre uma singela homenagem de um diretor a seu país e às pessoas que fazem parte dele. Patriotismo britânico, talvez, mas não da forma imperialista que estamos acostumados a ver nas produções do hemisfério norte. Somos quase que gentilmente convidados a sentar, apreciar e fazer parte dessa experiência.

