Passou do Limite

Uma tragédia cultural e educacional, o funk ostentação interpretado por crianças abusa de palavrões, menosprezo às mulheres e letras com conotações sexuais


O bonde passou / A novinha observou / Viu o Mc Gui / Nesse daí eu vou que vou.” Talvez você já tenha ouvido esse refrão de um dos expoentes do chamado funk ostentação, Mc Gui. Se nunca ouviu, é capaz que seu filho ou filha conheça. Faça um teste: leia estas linhas para eles e veja a reação. Quando o Mc Gui se lançou com a música O Bonde Passou, ele tinha apenas 14 anos. E como ele há muitos. São rapazes, e algumas moças, muitos ainda sem idade para fazer o que cantam. Ou você acha que uma letra como “Vai desse jeito gostoso menina / Quando toca essa no baile já era, / Ela entra na vibe, entra no clima” condiz com um garoto de 12 anos? Bem, o restante da letra é impublicável. Assim como Vem Piriquita, um dos sucessos de Mc Pedrinho.

Os videoclipes desse novo funk ostentação (novo, em todos os sentidos) estão no YouTube e chegam a ter mais de 20 milhões de visualizações. Para dar uma ideia do que isso significa, as últimas semanas da novela Império, da Rede Globo, maior audiência do Brasil, atingiu uma média de 35 pontos, o que equivale a 2,275 milhões de televisores ligados. Mesmo se levarmos em conta que, para cada televisor, quatro pessoas estivessem assistindo à novela, teríamos pouco menos de 10 milhões de pessoas.

Imagem: YouTube.

Trabalho infantil — O caso de Pedro Maia Tempester, nome do Mc Pedrinho, ficou mais conhecido no País pela proibição de seu show que ocorreria em Fortaleza (CE), em janeiro de 2015. Informado pelos conselhos tutelares que haveria uma apresentação de Pedrinho, o promotor de Justiça Luciano Tonet entrou com uma ação civil pública para a juíza da Vara da Infância e Juventude proibir o show. Os produtores e a mãe do garoto chegaram a conversar com o promotor, que explicou que tanto o horário quanto o local não eram compatíveis para uma criança de 12 anos se apresentar. Além disso, as músicas com letras de teor sexual, menosprezo às mulheres e palavrões não poderiam jamais ser cantadas por ele.
O promotor foi além: emitiu um ofício para o Ministério Público (MP) de São Paulo, estado onde Pedro mora, para analisar o tipo de educação que os pais estão dando ao menino. Ou se estes estavam apenas se aproveitando do seu sucesso. O Ministério Público do Trabalho (MPT) também abriu procedimento para averiguar se os shows se enquadram como trabalho infantil. Até o fechamento desta reportagem, o caso no MPT ainda se desenrolava. O MP de São Paulo não respondeu a nenhum e-mail de nossa reportagem e não retornou as ligações.

Fazendo escola — Após a proibição, o produtor do garoto afirmou que os shows extenuantes com horários indevidos não ocorrerão mais, e as letras com palavrões e teor sexual seriam “amenizadas”. Mas poucos dias após, Mc Pedrinho lançava, em sua página oficial do Facebook, o novo hit “amenizado”: Geometria da Putaria. O pior é que parece fazer o gosto de seus fãs. A página do garoto é intensa, com postagens diárias. Em muitas delas, Pedrinho aparece com camisetas estampadas com referências à folha de maconha, ao lado da mãe, de amigos e em gravações. Tudo comentado, curtido e compartilhado pelos mais de 1 milhão de fãs do garoto na página. Para piorar, Pedrinho não está sozinho, mas ao lado de outros similares, como Mc Brinquedo, Mc Enzo, Mc Pikachu…
Na internet já é possível encontrar diversos meninos cantando músicas com letras impublicáveis. Cabe ressaltar: todos acompanhados de ações de marcas comerciais e produtos próprios como bonés, camisetas e cadernos. O gênero faz escola, pois há também uma leva de vídeos de fãs fazendo suas próprias músicas e postando na internet: são crianças de 8, 9 e 10 anos com pouca roupa, dançando músicas de conteúdo impróprio, reforçando conceitos como submissão da mulher e erotização infantil.

Imagem do YouTube de videoclip de Mc Gui: champanhe na mão, corrente de ouro de metralhadora e muitas mulheres. Realmente bem típico para um menor de idade.

O valor do ter — Todos esses Mc´s acompanharam o fenômeno do funk ostentação, que, como o nome diz, usa as batidas do funk brasileiro e abusa de temas envolvendo consumo e riqueza material. Tanto nas letras quanto nos videoclipes, os cantores vestem roupas de marcas famosas, usam muitas correntes e relógios de ouro (ou imitando ouro) ao lado de carros como Ferraris, Camaros e Lamborghinis, e bebem champanhe “do bom” ao redor de muitas mulheres.
Criado em 2008, em São Paulo, o funk ostentação surgiu como um contraponto ao funk carioca, com temática relacionada a uma vida de sofrimento e criminalidade. Em entrevista ao programa De Frente com Gabi, de Marília Gabriela, transmitido pelo SBT, Mc Guimê destacou que o seu tipo de música aponta um caminho para o pobre chegar lá. “A pessoa humilde vê o artista do funk ostentação se dando bem sem entrar na criminalidade”, afirmou. É verdade que o funk ostentação “tradicional” não costuma ter palavrões e é cantado por gente maior de idade. Porém, apesar de não possuir letras explícitas faz referências sexuais implícitas, e passa a ideia de que é mais importante ter do que ser.

Fiscalização — No caso dos menores de idade, a rotina extenuante de apresentações, que chegam a 20 por fim de semana, prejudica os estudos.

“Eu já fiquei dois dias sem dormir por causa dos shows”,

reconheceu Mc Gui, em entrevista em 2013, e também afirmou ter perdido o ano no colégio. O ritmo, em si, não é um problema.

Em 2012, um garoto de 9 anos, Bruninho, lançou “Arrocha que Ela Gosta”, uma música sertaneja com conteúdo e apelo sexual. Com o aval dos pais, o garoto lançou outras canções com o mesmo teor e se apresentou em programas de televisão.
O sucesso e o dinheiro podem seduzir crianças e adultos, mas a um preço alto. Laís Fontenelle, psicóloga do Instituto Alana, organização da sociedade civil que, através de projetos, garante condições para a vivência plena da infância, afirma que a criança está no processo de construção de seus valores, da personalidade, e é inadequado expô-las a esse tipo de situação e conteúdo:

“As letras exaltam a cultura do consumo, na qual você é aceito pelo que tem. E mais do que isso, ainda possui os apelos com conotações sexuais”.

Ela ressalta a importância da atuação de diversos órgãos como conselhos tutelares, varas da infância e juventude, sem se esquecer do papel maior da família, primeira a educar e dar limites.
O promotor de justiça Luciano Tonet possui opinião semelhante. “A sociedade deve começar a discutir esses pontos para podermos atuar do jeito esperado. Ministérios públicos e a Ordem dos Advogados do Brasil podem mover ações civis públicas, assim como as pastorais e as Igrejas. Essas entidades devem se manifestar levando a informação para as pessoas agirem com legitimidade. O sistema todo precisa funcionar junto: famílias, assistência social, escolas e secretarias de educação”, aponta. Hoje em dia, páginas como YouTube e Facebook, entre outras, possuem botões e mecanismos de denúncia, mas ainda é pouco. Para Laís Fontenelle, “cabe à sociedade civil fiscalizar para ver se o mercado está fazendo a sua parte”.


Reportagem publicada originalmente na Revista Família Cristã — abril de 2015.

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