Ilustração: Rebeca Venturini

Quando machucar faz bem

Quina de mesa, escadas, brincar livremente; para desespero dos pais especialistas afirmam que se machucar faz bem

Seu filho ou filha vai à padaria ou à escola sozinho(a)? Você usa protetor de quina de mesa? Com dois anos você ainda segura na mão dele para andar ou dar a comida na boca? Ao ouvir histórias sobre proteger os próprios filhos, os pais dão risada do que faziam. “Eu comprei uma tesoura de plástico para o Guilherme, mas, no fim, eu que tinha que cortar porque a de plástico, óbvio, não cortava nada”, conta, hoje dando gargalhada, Silmara Spinelli, mãe do Guilherme, 18 anos, e Gabriela, 10. Já Verônica Mendes, mãe do Murilo, 5 anos, e do Otávio, 2, quando o mais velho tinha meses não deixava o pai, Fabiano Terada, dar banho, trocar fralda e até pegar no colo era complicado. Não apenas ele, mas os avós e qualquer outra pessoa: “Eu achava que ninguém sabia fazer, apenas eu. Tinha pavor quando via alguém com ele no colo”, conta.
Cada vez mais as crianças são criadas em redomas de proteção, sem qualquer grau de risco, e recebendo pronto o que elas poderiam fazer, ou mesmo brincar livres sem a interferência de um adulto, dizendo: “Não suba, não faça, não pule, não corra”. Óbvio que o coração dos pais fica apertado, mas há que se levar em conta que limitar demais a autonomia da criança pode gerar repercussões negativas. A psicopedagoga Geórgia Vassimon afirma:

“Ninguém morre com um galo na cabeça. Essas pequenas quedas em que a criança corre e rala o joelho acontecem e são importantes para o aprendizado dela”.

Mensagem errada — O professor da Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa (Portugal), Carlos Neto, vai além: “Quanto menos liberdade para brincar, maior o risco de acidentes”. Isso quer dizer que, quando seu filho pula do sofá para o chão e sai rolando, instintivamente ele aprende a se comportar, e se machucará menos, caso caia de bicicleta quando for mais velho. “Vemos crianças impulsivas e se cuidando pouco porque não têm esse repertório do fazer”, explica Geórgia, mostrando que deixar a criança se expor a um pequeno risco tem tudo a ver com autonomia: “Elas, desde muito pequenas, nunca tiveram essa experiência de tomar cuidado por si só e de organizar as próprias ações”. Carlos Neto, trabalhando com crianças há 48 anos, impressiona-se com a pouca autonomia dada pelos pais aos filhos.

“Crianças saudáveis são as que têm os joelhos esfolados. Brincar não é só jogar com brinquedos, brincar é o corpo estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura”, afirma.

Mas a importância da autonomia e do machucado para o aprendizado vai muito além do aprender a cair. As pesquisas do professor Carlos Neto e a experiência da psicopedagoga Geórgia Vassimon revelam: a criança mais ativa fisicamente tem boa concentração e maior aprendizado escolar. “O desenvolvimento cognitivo está ligado a esses processos que envolvem o aprendizado”, ensina Geórgia. Ela relata que, em seu consultório, é comum encontrar crianças com sete ou oito anos que não sabem amarrar o tênis ou se limpar sozinhas no banheiro: “Quando chega uma criança com problema de alfabetização vou fazendo o percurso e descubro, por exemplo, que os pais ainda dão comida na boca”. 
A psicopedagoga alerta que a falta de autonomia e o facilitar as coisas para as crianças impacta já na juventude: “Para vencer meus desafios, preciso parar, pensar como vou fazer e ter um mínimo de planejamento. Lidar com nossas limitações e superações tem relação com o autocontrole e de saber que dou conta de algo”. Segundo Geórgia, essa questão é muito importante, pois ao fazer as coisas pela criança, sem querer, o adulto passa uma mensagem errada: “Ela o tempo inteiro vai ouvir dos pais que não consegue se vestir, que não consegue comer. Claro que deixar a criança fazer é mais demorado, pois ela vai se sujar com mais facilidade, você tem que estar junto, e isso dá trabalho. As pessoas não querem ter esse trabalho e, o pior, os filhos não se percebem competentes para fazer isso, porque sempre tiveram um adulto ao lado que fez por eles. O impacto no jovem, depois, é enorme. Muitos não dão conta do estudo, das tarefas, de fazer a mala, não conseguem escolher a roupa, esquecem casaco, boné. Parece bobagem, mas a gente cria pessoas que não dão conta das próprias coisas nem de coisa nenhuma, porque sempre tiveram um adulto por perto”.

Exageros desnecessários — Verônica cuidou do Murilo praticamente sozinha, até quando ele tinha um ano, mas a chegada do segundo filho e a rotina de trabalho “salvaram” o menino: “Ou eu deixava alguém fazer por mim ou não aguentaria.” O pai, Fabiano, revela, entre as risadas da Verônica: “Eu tinha mais medo do Murilo se machucar por causa da Verônica, do que por ele mesmo”. A mãe intervém, afirmando: “Tem coisas que são impossíveis de contornar. Quando ele se machucava, no começo eu ficava chateada, mas mesmo você colocando protetor ele sempre acerta onde não tem”. Silmara Spinelli colocava toalhas e cobertores sobre as mesas para proteger as quinas, mas percebe que tanto isso quanto a tesoura de plástico foram exageros desnecessários: “Dava para ter ensinado a cortar com a tesoura normal, mas primeiro filho você sempre erra a mão”. Também usavam protetores de tomada com o filho primogênito, mas, quanto à caçula, o pai, Eduardo Franco da Silva, confessa: “Com a Gabriela não fizemos nada disso”. Mesmo sua mãe se reconhecendo superprotetora, com 12 anos Guilherme ia e voltava da escola sozinho. Nessa idade, ele sofreu o primeiro assalto, quando roubaram seu tênis: “Foi péssimo, mas mesmo assim ele continuou. Até pra isso você precisa aprender a lidar. Era uma demanda dele, e eu achava que era importante. Guilherme tem colega que, até hoje, com 18 anos, não anda de metrô. O que eu quero apenas é que ele informe com quem está e onde está, por questão de segurança”, afirma. 
A psicopedagoga Geórgia alerta:

“Superproteção também é uma forma de negligência, porque negligencia o aprendizado, a possibilidade do outro produzir por si mesmo”.

E, quando seu filho ou filha cair, não caia no terrorismo do não correr, não subir, não fazer. “O papel dos pais e da escola tem que ser a proteção em outro sentido, no de mediar. Se eu vir que ele foi muito afoito para subir numa árvore e acabou caindo, tenho que lhe mostrar que ele pode fazer isso com mais calma, mas nunca proibir. E falar ‘vamos tentar de novo, com mais calma, para ter menos chance de cair?’”, ensine a psicopedagoga. Verônica, hoje muito mais tranquila, confirma: “A gente descobre que o neném não é assim tão frágil quanto parece. Tem que deixá-lo ser feliz, ele precisa aprender a lidar com as frustrações, aprender a cair, levantar e continuar, porque faz parte da vida”.


Reportagem publicada originalmente na Revista Família Cristã — abril 2016.

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