Essa não é Sandra, mas poderia ser.

Irônia Ironica

I

O pai de Sandra Yamashita foi um homem de muitos trabalhos, todos eles muito braçais, e as mãos — mais os dedos que montavam essas mãos — eram imensas testemunhas do lavoro duro. Mesmo íntimo da profissão de faz-tudo (e se pode imaginar que isso implicaria em todo o conhecimento que há, mas na verdade é muito mais uma memória que fica nas ditas mãos e, se um dia esteve na cabeça, sumiu de lá há muito), um dia suas mãos se esqueceram, pularam um passo importante e, quando se agachou para fazer uma coisa
qualquer, o aço do estilete que não guardara na bainha se enterrou o quanto pôde na sua barriga. O harakiri acidental.

Sandra não tinha os traquejos de faz-tudo. Ganhou alguma coisa do pai, e o mais curioso da sua personalidade herdou também desse episódio trágico e cômico — não tragicômico, vê bem, que o fio do estilete há de cortar as duas coisas bem separadas. Sandra não punha as mãos nos bolsos.

Não é como se ela não tivesse o costume de pôr as mãos nos bolsos (ou o vício: eu mesmo, não tivesse bolsos nas calças, rasgaria buracos pra dependurar as mãos). Desde o episódio, não sabia se assustada com a comicidade de morrer
nessa mistura de aço e idiotice, ou se receosa da tristeza suja de aço e entranhas, não guardava nada no bolso. Mais certo talvez seja dizer que temia a dor, o denominador comum das duas versões que são, sim, uma história, mas não tragicômica. Ou trágica, ou cômica.

II

Kamikaze é o que se chama o piloto de avião japonês que joga seu avião contra o inimigo. O inimigo é aquele que quer nos destruir fisicamente, rasgar nossa carne, escravizar nossas mulheres e nossas crianças, terminar com a tradição e com o orgulho. Tudo bobagem: nossas mulheres e crianças, portanto já
escravas — se meninas, desde sempre. A tradição e o orgulho de ser de um lugar, ilusão, porque é fruto de pura ventura. Sorte. Aleatoriedade. Escravos os seguidores de tradições que não as contestam.

O kamikaze (vento divino) carrega uma espada em seu avião, para que rasgue a própria barriga antes de cair. Talvez pela ideia inebriante de ter o domínio sobre sua vida — pelo menos o domínio de quando ela acabará — mas eu acho que não. Vento divino uma alusão à velocidade, ao imenso deslocamento de ar que quebra vidraças enquanto o avião perde altitude, uma indicação do magnífico de arremedar um meteoroide e se acabar em bólido, explosão,
bum! Mas talvez não. No segundo finalíssimo todos entendem, e o sopro divino é outra coisa. Um sussurro no ouvido, e que vem de dentro: eu sou o inimigo, e o harakiri talvez fosse dar combate a esse vilão gordo de tradições
estúpidas. Nem todas estúpidas, muitas sim. Sandra dona de uma ferragem.

III

Não existe medicina oriental. Existe medicina. Existem orientais que praticam medicina. Existem charlatães que praticam outra coisa. Existe uma miríade infinita de chazinhos, ervas e pedaços de bichos que são consumidos com
esperança. Existe tentativa. Existe placebo. Existe a Sandra, suando frio às 4 da tarde, atrás do balcão da ferragem, uma caganeira pronta pra estragar seu dia, a cara que é um papel de arroz, a mão agarrada num terço de plástico. A sensação de que isso ajuda.

IV

Ikebana é a antiga arte do arranjo de flores, e alguns samurai praticavam-na. Antes, samurai é o nome que se dá ao guerreiro feudal do Japão, antes que o Japão se unificasse. Ainda, samurai significa algo como aquele que serve, e era uma função que se aplicava ao servir dos nobres e, mais do que um emprego, era uma honra. Não era o que se fazia, era o que se era, e de onde só se saía morto. O budismo, melhor, algum budista, possivelmente, trouxe o ikebana para o Japão feudal, e alguns samurai o praticavam, como forma de meditação. A feitura dos arranjos lhes trazendo felicidade incrível, justamente por se opor ao horror da sua labuta cotidiana. O ikebana era o que de melhor aqueles homens podiam fazer. Todo ou quase todo orgulho de ser um samurai advinha da capacidade que se demonstrava de rasgar sem ser rasgado, e é daí que vem o grande prazer das artes marciais todas — e do xadrez também, me parece. Mostrar que se pode atingir sem ser atingido, fazer com que o inimigo, o outro, o estrangeiro, deixe de viver, pare de funcionar e se comportar. Toda arte marcial é destrutiva, objetiva desmontar algo bonito que funciona bem. Mas não o ikebana. O ikebana constrói. Mesmo que haja ainda a grande
vontade salivante de se controlar por completo qualquer sombra de rebeldia caótica dos arranjos, com o ímpeto que têm de sair da conformação na qual foram planejados, o ikebana é construtivo e, por isso, infinitamente superior
às artes marciais.

V

Sandra, samurai que foi de seu pai, herdou o feudo. O suserano morreu — o harakiri acidental — deixou a ferragem, plantou paranóias e cacoetes. Sandra Yamashita, para montar os colares havaianos que procuravam na loja ainda na época do seu pai, corta flores de plástico usando tesoura sem ponta. A ikebana natimorta era proibida pelo antigo senhor: ‘Formatada, ou é isso ou é
menos, se se perdem suas flores’. A suserana Sandra é melhor que foi seu pai. O ikebana de brinquedo geramor, olha quanto casal começa num carnaval com o simples regalo de um colar.

O samurai que teme a espada não teme a tradição. Segue feliz, constrói, sente-se bem, pula carnaval vestindo colar havaiano num bloco chamado Irônia Ironica. Se falar bem rápido, parece japonês.

Ikebana

(29.1.2014)