Traslado

No dia 17 de Julho do ano de 2007 eu embarquei para o que seria a minha primeira viagem de avião. Havia passado no vestibular, se haviam acumulado milhas do cartão de crédito do meu pai e acabei ganhando de presente uma viagem ao Canadá, viagem que faria com ele. Meses antes do embarque ele se pôs a planejar rotas, passeios e a reservar metodicamente os albergues nos quais nos hospedaríamos, tarefa da qual sei que tira enorme prazer. Conheceríamos o que devem conhecer os turistas, mas mais. Desse planejamento guardo as máximas — que usei em viagens posteriores — de que se deve conhecer o que se consegue, que dormir em demasia e ter preguiça são desperdício e só devem ser feitos em casa e, principalmente, que se deve ancorar as dúvidas da seguinte forma: ao se decidir se se vai ou não em determinado local, deve-se imagina um interlocutor que, tendo feito a mesma viagem, pergunta, casualmente — “foste em tal lugar?”. A resposta deve ser ‘sim’.

O plano inicial envolvia cruzar o território canadense de leste a oeste em um carro alugado mas, no final das contas e dos planejamentos, decidimos conhecer a costa leste, viajar de avião até a costa oeste e também destrinchá-la. Um coast to coast que cortaria fora o recheio, mas nos daria o dobro de costa e mais tempo para esmiuçá-la.

No aeroporto de Porto Alegre, depois da ansiedade e da confusão da revista, nos dirigimos ao salão de embarque, o qual dividíamos com pessoas que iriam para o mesmo nosso destino inicial — São Paulo — mas que viajariam por outra companhia aérea. Lembro de reconhecer alguns rostos, em especial de um rapaz que estudava no mesmo colégio que eu. Embarcamos, afivelamos o cinto e todo o resto. Lembro bem da sensação da aceleração intensa do avião e o que pensei, que foi a mesma coisa que pensei em todos os vôos que fiz desde então: hoje é um bom dia para morrer. Aconteceu, não sei de onde veio — e agora sempre me vem — mas quando a máquina se põe muito rápida e tudo vibra e a velocidade se torna inescapável por qualquer outro truque mental, me pego com um sorriso alucinado na boca, entro num transe breve, catastrófico, penso que vou morrer, perco esperanças e o medo e falo, de mim para mim, dentro da minha cabeça, hoje é um bom dia para morrer. Nunca acontece.

Chegamos em São Paulo dentro do tempo estimado. Pousamos em Congonhas e, para quem nunca teve a oportunidade de fazer isso, além da recomendação de que não o experimente, cabe uma explicação: em meio a uma abundância de prédios bastante altos, o aeroporto se mostra como uma pequena ilha. Um buraco, seria uma comparação melhor. Enquanto o avião desce a sua descida abrupta, se enxergam os prédios do lado e, sem esforço, se enxergam os seus moradores. Os prédios são muito próximos ao aeroporto, a cidade não respeitou os limites da aeronáutica, ou o aeroporto veio se plantar bem onde não deveria, não sei quem chegou primeiro.

Mas pousamos. Pegamos um transfer até o aeroporto de Guarulhos, de onde partiria, aí sim, nosso voo rumo a Toronto. Não conheço, até o dia de hoje, a cidade de São Paulo. Só a experimentei de dentro de um ônibus, em duas ocasiões diferentes, ambas cheias de angústia. Uma outra vez, alguns anos depois, vi um carcará sobrevoando o Tietê, e senti muita pena daquele bicho e daquele rio morto. O trânsito é um cordão infinito de carros em um fluxo que parece que vai se coagulando, e a cidade me pareceu mais cinza do que diz a música aquela. Dessa vez, a previsão de chegada no aeroporto seguinte era de duas horas, por isso nossa pressa e o combinado do contato com o restante da nossa família somente antes de pegar nosso último voo.

Dentro do ônibus de traslado que nos alcançou a notícia. O outro avião que partiu de Porto Alegre, da companhia TAM, havia sofrido um pequeno acidente. Da forma como todas as notícias trágicas (me) chegam, no começo não parecia muito, mas fora. O piloto não conseguira frear ou arremeter, que é o nome que dão para a tentativa emergencial de levantar voo novamente após um pouso frustrado. O avião havia passado de rasante por sobre duas pistas da avenida Washington Luís e colidira contra um prédio da própria empresa. Todos a bordo morreram no acidente, que totalizou 199 pessoas, incluindo 12 que estavam no solo. É tido, até o dia de hoje, como o maior desastre da aviação brasileira.

Atônitos com a notícia, sem aparelhos celulares conosco, não tivemos o tino nem de pedi-lo emprestado para algum dos outros passageiros de dentro do ônibus. Quando chegamos ao nosso destino, mais de uma hora depois de saber a notícia, corremos a nos comunicar com os que estavam em Porto Alegre e que não sabiam direito se estávamos bem.

Algum tempo depois fiquei sabendo que a angústia dos que ficaram em casa, vendo a cobertura do acidente na televisão e sem conseguir se comunicar conosco, tinha razões maiores. Durante os trâmites da viagem, no planejamento e no desenho e, claro, na hora de fazer as contas, se cogitou fortemente que eu fosse naquele voo para São Paulo. Já havia uma passagem paga pelas milhas — pela companhia que fomos, de fato. Mas a segunda, a que me caberia, sairia bem mais barata se fosse comprada naquele voo. O voo que caiu. Se cogitou que eu fosse naquele e, se houvessem me perguntado, eu teria optado pelo voo barato, não há dúvida. A unica coisa que me colocou no avião que eu estava foi, justamente, a minha falta de experiência prévia com aviões e a insistência da minha mãe, que não me queria sozinho nessa primeira vez.

O rapaz que era do meu colégio, um que usava óculos, moreno e atarracado, eu nunca soube seu nome. Lembro de vê-lo de relance pelos corredores, mas nunca nem falei com ele. Lembro de fazer buscas mirabolantes, tentar descobrir seu nome, investigar pelo caminho inverso, partindo das listas de fatalidades do acidente, mas nunca o achei. Era um rosto conhecido e mais nada, mas seguido cruzo caminhos com um rapaz em Porto Alegre que se parece muito com aquele. Nunca vou lhe atacar perguntando se era ele naquele dia, se de repente não pôde embarcar. Nunca vou lhe perguntar e prefiro não saber.

O autor no Canadá. 2007