Joker ou como o banheiro é o lugar de exercício diário de nossa existência,

*Este texto foi escrito às tantas do mês de outubro, num domingo, fim de tarde, quase boca da noite, embalado por doses de Frank Sinatra. Aumente o volume, levante a poeira e vamos dançar a dança dos bobos. That’s life.
**Texto originalmente publicado na minha página pessoal do Facebook e dedicado aos iniciados na trama do filme; fiz algumas pequenas alterações, para o bem.
Já pararam para contar quantas cenas de banheiro há no filme? Eu contei. E eu não estou aqui tratando exclusivamente da cena linda e improvisada de Arthur Fleck (interpretado por Joaquin Phoenix) dançando no banheiro do metrô — depois volto à ela. Bom, não é nenhuma novidade o apelo de filmes sombrios ao banheiro como locação de significância na história de suas tramas, vide, Psicose, O Iluminado, Poltergeist, etc.
O que interessa em Joker, é que se formos seguir a jornada do herói, ali, “Happy” (como Arthur é apelidado por sua mãe) aceitou o convite à aventura/comédia de sua vida, de ser ele mesmo, de que ele existe, afinal… Banheiros são essa espécie de umbral para outro tempo/espaço, um lugar de passagem, de rituais, onde obedecemos aos chamados mais básicos de nossa existência humana: o corpo.
Eu assisti ao filme apenas uma vez. Sendo assim, salvo algum engano, me ajudem nesta contagem, sim?
I. Arthur e Penny no banheiro de casa (ritual de purificação);
II. Arthur dança no banheiro público do metrô (ritual de liberação) ;
III. Penny se tranca no banheiro de casa (segredos guardados devem permanecer escondidos);
IV. Arthur confronta Thomas Wayne no banheiro do cinema (lugar de encontro);
V. Arthur pinta o cabelo de verde no banheiro de casa (ritual de transmutação);
I.
Acho que a primeira cena de que me lembro ter notado isso foi numa em que Arthur banhava sua mãe. Eis o primeiro elemento simbólico e concreto do banheiro: a limpeza.
Nos livramos no banheiro — de diversas maneiras — dos nossos excessos humanos, do que o nosso corpo despreza e valida, assim, que não nos servem mais na vida. Todo dia, de certa forma, trocamos de pele. Nos descamamos e somos outras pessoas — isso soa um paralelo quando Heráclito diz “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”.
Eu não sou a mesma pessoa toda vez que me lanço às águas que caem do chuveiro. É a dialética pura da descamação de nossas peles que todo o dia largamos ralo abaixo, enfim, nos purificamos e tudo começa outra vez. Arthur ajuda a sua mãe a se lavar. Ele agencia a purificação de outro ser, tão fragilizado quanto ele — aparentemente. Essa cena do banho ritual fúnebre já nos preparava para o que viria mais a frente no filme.

II.
Banheiro público, lugar fétido, de uso comum aos transeuntes — ali o descarte dos excessos do corpo é levado à potência.
Mas é como numa piada, numa piada sutil em que o corpo de Arthur dança e parece flanar naquela superfície suja. Braços e pernas orquestram a dança iniciática do Joker. Ele acabara de assassinar três sujeitos no metrô, cometeu um crime monstruoso, como diria Foucault. Por quais motivos? Qual a história de si a ser contada às autoridades? Enfim, isso é material para outro texto.
Voltemos um pouco na história; Arthur entra naquele banheiro do metrô ao procurar um lugar para se esconder, fecha a porta bruscamente, as suas duas mãos selam aquela passagem para o “mundo real”. Li por aí que esta cena foi feita ao acaso da interpretação de Joaquin Phoenix. O diretor, Todd Phillips, perdeu o controle de seu protagonista durante a gravação, graças ao acaso e competência do ator, ainda bem.
Temos aí o esboço do Coringa — o enquadramento está apenas nos pés dele, o restante do corpo está suspenso no fora de quadro. Esses pés serpenteiam numa superfície sem o peso do restante do corpo, o mínimo necessário para sustentar a si mesmo está posto ali. Mesmo preso à sua condição de bidimensionalidade, Arthur flutua no plano. Ele supera por míseros instantes o medo de estar e de ser, como mais tarde ele diria “eu não tenho mais nada a perder”. Ele executa essa mesma dança fora de casa, nas escadarias e no palco, ele traça o caminho progressivo do palhaço, braços abertos para o show, como a música diz “That’s life!”
O que mais encontramos num banheiro, além dos mecanismos de descarte dos excessos? Tento responder: o espelho — acessório imprescindível a qualquer banheiro que o valha — ou nós mesmos. Ali podemos liberar a verdade ou a encenação da verdade, a dança da verdade, e por que não, a dança da vitória? Da dança dos pés, o plano ascende para o espelho e vemos o reflexo de Arthur. Eis o momento de liberação do Joker que habita aquele corpo e alma. No banheiro podemos fabular quem quisermos ser, incluso, nós mesmos.
É bela a cena dele interpretando como deveria se apresentar no programa de tv apresentado por Murray Franklin (interpretado por Robert De Niro). Fazemos isso no banheiro, na sala, no quarto, encenamos nossas possíveis ações no mundo. Ficcionalizamos o real de nossas vidas. Como diria Eduardo Coutinho — sempre ele! — , eu estou mais interessada nas fabulações e nas mentiras que as pessoas contam de si mesmas.

III.
Quando Arthur lê a carta de sua mãe endereçada a Thomas Wayne, ele surta. A verdade posta à prova. Corta o plano e já estamos divididos pelas paredes do banheiro e do corredor. Penny trancou-se no banheiro com medo da represália do filho. Esse ato de autopreservação ser feita no banheiro é muito comum a todos nós e no cinema. Lembremos de novo de “O Iluminado” e sua fatídica cena do machado na porta ou daquela cena tragicômica do primeiro filme de Jurassic Park, onde um sujeito se esconde num banheiro quando é atacado pelo T-rex, num ato fracassado e inútil, o coitado chega a fechar a porta do cubículo onde está. Esse pequeno ato em si significa tanta coisa. É óbvio que fechar uma reles porta não vai salvá-lo da morte certa, mas quem é que liga pra isso? O instinto do esconderijo fala mais alto.
Por que nos escondemos no banheiro ao primeiro sinal de perigo? Se você quer chorar e não quer que ninguém veja, você corre para o banheiro. Liga o chuveiro, o ruído do atrito da água com o chão trata de abafar o seu pranto e ali você cria uma atmosfera que cobre seus atos. Penny Fleck, provavelmente, também quis negar a verdade — nunca saberemos se Arthur foi ou não adotado, mas, de toda forma, eu sempre desconfio de um homem poderoso como Thomas Wayne que chama uma mulher de louca. Vocês não?
IV.
Falando no sujeito, olha o banheiro, mais uma vez, sendo palco de encontros. Arthur segue Thomas Wayne até o banheiro do cinema. Primeiro, ele confronta a mãe na intimidade do banheiro de casa, depois o seu suposto pai no banheiro público, mas requintado do cinema.
Temos aqui as duas dimensões do íntimo e do comum em questão. Em casa temos mais acesso, temos mais liberdade e controle. No público, é preciso planejar nossos passos, Arthur até se disfarça para ter acesso mais fácil ao banheiro do cinema. De novo o mundo dos espelhos aparece nos enquadramentos. Não há muito o que falar sobre isso, mas não deixa de ser curioso que o filme escolheu justo esse momento de descarte do excesso e de limpeza (mictório e pia) de Thomas Wayne para expor o encontro entre dois personagens conflituosos.
Aliás, eu não tenho certeza se ele lavou as mãos, homens fazem isso, né? Estou presumindo pelas minhas lembranças que ele era, ao menos, um homem asseado.
V.
Chegando nos atos finais do filme, Arthur ou como ele mesmo quer ser chamado agora, Joker, pinta o seu cabelo de verde. Ele já usava uma peruca da mesma cor no início do filme. A transformação refletida no espelho do banheiro público da estação de metrô se vê consumada no espelho do banheiro de casa: Joker encarnado e encenado.

***
Este é um pequeno e singelo esboço, um recorte, cheio de pontas soltas e devires.
Fortaleza, 13 de outubro de 2019, numa tarde de domingo.
Kamilla Medeiros,

