Uma menina com dores no peito, representando o Dia Mundial do Lúpus
Uma menina com dores no peito, representando o Dia Mundial do Lúpus
Arte e ilustração: Ravena Mallmann

Conheça o lúpus, uma das doenças tratadas pela hidroxicloroquina

Entenda mais sobre esta doença autoimune e sobre como a falta de hidroxicloroquina pode afetar pessoas que dependem do medicamento

Fernanda Polo
May 10 · 7 min read

A hidroxicloroquina recentemente entrou em evidência devido à sua utilização em testes como potencial tratamento contra o coronavírus, esgotando rapidamente em farmácias por todo o país. No entanto, o medicamento, conhecido como Reuquinol no Brasil, já é utilizado há décadas no tratamento de outras doenças, como o lúpus. Há cerca de 80 doenças autoimunes conhecidas atualmente, e o lúpus é uma das mais importantes e graves.

Lúpus é uma doença inflamatória autoimune — ou seja, que acomete o sistema imunológico, formando anticorpos contra células do próprio organismo, e não somente contra antígenos externos — na qual os anticorpos de uma pessoa passam a atacar órgãos e tecidos saudáveis. Há dois tipos principais de lúpus: Discoide, que acomete apenas a pele; e Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), que também acomete outros órgãos. A doença pode ter períodos de atividade e de remissão, mas ainda não tem cura e exige tratamento. Estima-se que 5 milhões de pessoas sofram com a doença no mundo — 65 mil apenas no Brasil —, e que a cada 10 pessoas atingidas, nove sejam mulheres.

No dia 10 de maio é comemorado o Dia Mundial do Lúpus, também conhecido como dia da conscientização e atenção à pessoa com lúpus. A data integra a programação do Maio Roxo, um mês dedicado à divulgação da doença. Tendo em vista a importância do alerta e da conscientização, conversamos com a Dra. Ilóite Maria Scheibel, reumatologista pediátrica do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) de Porto Alegre, sobre a doença e suas consequências e sobre a hidroxicloroquina.

Uma menina no centro da imagem, com dores, representando os sintomas do lúpus, ao lado das descrições de cada sintoma
Uma menina no centro da imagem, com dores, representando os sintomas do lúpus, ao lado das descrições de cada sintoma
Arte e ilustração: Ravena Mallmann

Dra. Ilóite Maria Scheibel: Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença complexa que ocorre por desregulação do sistema imunológico, em que o organismo produz anticorpos contra células do próprio corpo, podendo causar lesões de pele, rins, pulmões, cérebro e vasos. Absolutamente não é uma doença transmissível.

Dra. Scheibel: Os sinais e sintomas iniciais são variados, e na suspeita utilizamos critérios clínicos e laboratoriais para a confirmação. Geralmente o início apresenta-se com sintomas vagos, como cansaço, febre não diária, dores no corpo, dores articulares, lesões de pele como vermelhidão principalmente no rosto, perda de cabelo.

Dra. Scheibel: Não há uma causa estabelecida, observando-se ser multifatorial, relacionada a fatores genéticos predispondo à doença, fatores ambientais como infecções, cigarro, hormônios e luz ultravioleta, que podem promover ou exacerbar a doença.

Dra. Scheibel: A atividade da doença está relacionada a processo inflamatório que observamos nos exames laboratoriais e a manifestações como edema, cansaço, artrite e alterações renais com perda de proteína, por exemplo. Não há cura, somente tratamento.

Dra. Scheibel: Não há um exame específico, mas uma soma de exames e alterações clínicas. O médico pedirá exames como hemograma, plaquetas, fator antinuclear, exame de urina, entre outros, mas nenhum deles isoladamente dará o diagnóstico.

Dra. Scheibel: O tratamento envolverá vários aspectos, iniciando com mudanças no estilo de vida para uma vida mais saudável, como fazer atividade física, alimentos nutritivos, não fumar, não beber álcool. Evitar sol, que pode reativar a doença. As medicações são de uso continuado, por ser doença crônica, e terão função anti-inflamatória e imunossupressora para diminuir a ação dos anticorpos contra células.

Dra. Scheibel: O tratamento é contínuo em toda a vida. O mínimo de remédios necessários, conforme a gravidade, para que o paciente lúpico tenha uma vida o mais normal possível. É uma doença que apresenta agudizações e, por isto, os pacientes nunca devem abandonar o acompanhamento médico ou cessar as medicações quando estiverem sentindo-se bem.

Dra. Scheibel: Todos os pacientes que apresentam condições de imunossupressão são considerados de risco, pois apresentam as defesas reduzidas para o combate ao vírus e comorbidades que possam advir.

Dra. Scheibel: A hidroxicloroquina é uma medicação de primeira linha no lúpus. Auxilia a diminuir as reativações da doença, as lesões de pele, dores articulares. A falta da medicação foi uma preocupação muito grande neste período. Houve uma total falta de consciência ou conhecimento dos órgãos públicos que permitiram e liberaram informações sem evidência científica. Isto levou muitas pessoas a pensarem em automedicação, num pânico descontrolado, prejudicando pessoas com doença grave que ficaram sem uma medicação comprovadamente eficaz, inclusive na diminuição da mortalidade no lúpus. A falta nas farmácias do Estado, com liberação gratuita frente a processo de solicitação, e nas farmácias particulares prestou um grande desserviço à população com lúpus. E, agora, a exigência de receita especial e compra restrita de uma caixa também prejudicou, pois neste momento de isolamento, da necessidade de as pessoas transitarem menos, tornou-se muito difícil conseguirem consultas somente para a aquisição das receitas.

Dra. Scheibel: A medicação é muito segura na dose preconizada no lúpus. O cuidado maior está no comprometimento oftalmológico após tempo maior de uso, sendo necessária a avaliação anual.

Dra. Scheibel: Não há, até o momento, nenhuma evidência de sua ação como preventivo contra o vírus SARS-COV-2, portanto, não há indicação do seu uso.

Dra. Scheibel: Os pacientes lúpicos tem graus variados de gravidade. Não há restrição à gravidez, desde que ocorra no período em que a doença esteja controlada e com medicações seguras. Há medicações que podem trazer má formação na criança e inclusive aborto e devem ser retiradas quando a gravidez é planejada. Assim, deve haver a combinação com a equipe médica, que definirá com a paciente o momento ideal, para permitir a segurança da criança e da mãe.

Dra. Scheibel: O sol só será desencadeador em predispostos ao lúpus, não na população normal. Nestes, só queimaduras. A exposição ao sol é sempre evitada em todos os pacientes com lúpus, pois é um fator de estimulo à reativação, não só das lesões de pele, como todo o quadro sistêmico. A luz sobre a pele causa lesão celular com aumento de antígenos, não causando alterações maiores em quem não é lúpico, mas nestes, promove liberação de anticorpos que “atacam” células do próprio organismo. Recomenda-se o uso de filtro solar mesmo em dias nublados, pois não é só a exposição direta ao sol que é maléfica, mas aos raios ultravioleta, que se apresentam também nestes dias. Pela suscetibilidade à deficiência de vitamina D, a sua suplementação é indicada.

Dra. Scheibel: Os mais conhecidos são: lúpus é contagioso; quem tem lúpus não pode engravidar; familiares de pacientes com lúpus também o terão.

Dra. Scheibel: Os pacientes devem manter hábitos alimentares saudáveis, de exercícios e aplicação de vacinas: contra a gripe (anualmente), antimeningocócica, antipneumocócica, hepatite A e B e antitetânica. Centros de vacinação do estado como o CRIE estão preparados para a vacinação de pacientes com doenças crônicas autoimunes de forma gratuita.

Dra. Scheibel: Não há restrição desde que tenham uma alimentação saudável.

Dra. Scheibel: A meta no tratamento do lúpus inclui manter o mais normal possível a vida do paciente, evitando efeito colateral das medicações, evitando reativações que possam levar a internações, permitindo que possa estudar, trabalhar, ter lazer, uma família.

Dra. Scheibel: O lúpus em si não mata, mas tem graus de gravidade, conforme os órgãos que acomete, e graus de inflamação, o que pode levar ao óbito. As medicações são usadas também conforme a gravidade, levando a menor ou maior imunossupressão, o que pode facilitar infecções. Não há, ainda, uma medicação ideal ou curativa no lúpus. Os tratamentos atuais possibilitaram diminuir muito a mortalidade nesta doença.

Dra. Scheibel: Não há cuidados que impeçam o seu surgimento. O mais importante é ter uma vida saudável e ficar atento aos primeiros sinais de sua manifestação e procurar auxílio médico, pois o tratamento precoce é sempre um grande aliado.

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Fernanda Polo

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Gaúcha apaixonada por Portugal, estudante de Jornalismo na UFRGS e viciada no Instagram. Amante da escrita.

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