Quem cuida do seu lixo?

Fernanda Polo
Apr 28 · 2 min read

O Brasil produz um total de 78,4 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos do Brasil de 2017, 59% desse total vai para aterros sanitários. O restante, que corresponde a 29 milhões de toneladas, é levado para lixões ou aterros controlados. Nesses locais, há trabalhadores envolvidos em diversas etapas do tratamento do lixo.

Em Estrela, a Usina de Tratamento de Lixo do município conta com 38 trabalhadores. Já o aterro sanitário de São Leopoldo, 28. Os mais variados tipos de lixos chegam a esses locais, e os trabalhadores têm de separá-los e efetuar a destinação correta dos materiais, muitas vezes ignorada pela população.

Caminhão de lixo chegando no aterro sanitário.
Caminhão de lixo chegando no aterro sanitário.
Desde novembro de 2011, o município de São Leopoldo possui uma unidade de valorização de resíduos sólidos urbanos. Localizada em uma área de 135 hectares, utiliza 60 para a destinação de resíduos e o restante como área de preservação ambiental. Com uma capacidade total de 5 milhões de toneladas e uma vida útil de 20 anos, o aterro atende à demanda de resíduos gerados na região da Bacia do Rio dos Sinos.
Ozi da Silva Esparemberger, funcionário do aterro sanitário.
Ozi da Silva Esparemberger, funcionário do aterro sanitário.
Ozi da Silva Esparemberger trabalha com o lixo há 16 anos. Atualmente, ele faz a pesagem de caminhões que entram e saem do aterro sanitário de São Leopoldo, onde trabalha. Segundo ele, passam pelo aterro cerca de mil toneladas de lixo por dia, e boa parte não é separada da forma correta antes de chegar lá. Também trabalhou em uma cooperativa de reciclagem por dois anos. Depois, foi responsável pela drenagem e cobertura do lixo e passava horas em contato com os resíduos. Agora, mais distante do lixo, Ozi ainda vê esse trabalho como algo essencial: “Se não fossemos nós, quem ia fazer esse trabalho?”, questiona.
Os canos que levam o biogás e a torre onde ele é queimado no aterro sanitário.
Os canos que levam o biogás e a torre onde ele é queimado no aterro sanitário.
Em São Leopoldo, o chorume é coletado e vai para lagoas, onde recebe as substâncias necessárias para o seu tratamento. Além do chorume, o lixo decomposto produz biogás, uma mistura composta principalmente dos gases metano e carbônico. A fim de amenizar os danos provocados pelo gás, há um projeto para transformá-lo em energia útil. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica, a produção de energia elétrica a partir do biogás de aterros sanitários cresceu 14% em 2017. Na foto, os canos que levam o biogás e a torre onde ele é queimado.
Valmir dos Santos, porteiro do aterro sanitário.
Valmir dos Santos, porteiro do aterro sanitário.
Para Valmir dos Santos, porteiro do aterro sanitário de São Leopoldo, foi complicado suportar o cheiro do lixo e do chorume no início do trabalho. “Eu não conseguia me alimentar, depois foi passando, fui me acostumando”, conta. Segundo Valmir, o grande problema é quando chove ou venta, porque o cheiro é “quase insuportável”. Valmir controla a entrada e saída de caminhões do aterro, que vêm de 60 municípios do Rio Grande do Sul.
Caminhão chegando no aterro sanitário com um colchão.
Caminhão chegando no aterro sanitário com um colchão.
Segundo o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana, 88,5% do lixo é destinado de maneira correta na região Sul do país. Na foto, um caminhão trazendo diversos resíduos, entre eles um colchão, para o aterro sanitário de São Leopoldo, que é autorizado a aceitar apenas resíduos de classe dois, ou seja, resultantes da atividade doméstica e comercial dos centros urbanos. Os trabalhadores estão acostumados a ver esse tipo de situação.
Esteira onde o lixo que chega à Usina de Tratamento de Lixo de Estrela é separado.
Esteira onde o lixo que chega à Usina de Tratamento de Lixo de Estrela é separado.
O lixo que chega para ser separado na Usina de Tratamento de Lixo (UTL) de Estrela é colocado em esteiras. O material passa pela esteira, e os primeiros da linha abrem as sacolas. Cada um separa e larga o material dentro de um dos bags. Cada tipo de produto vai dentro de um bag diferente e cada funcionário seleciona um tipo de material. Após a separação, o lixo vai para a prensa, onde é prensado para depois ir a leilão. “Sabe o que deveria acontecer? Cada munícipe deveria vir um dia aqui na beira da esteira e ficar aqui. Aí eles iriam pensar muito bem e valorizar”, defende José Sulzbach, coordenador da UTL.
Valmi Maria Gregory, funcionária da Usina de Tratamento de Lixo de Estrela.
Valmi Maria Gregory, funcionária da Usina de Tratamento de Lixo de Estrela.
Valmi Maria Gregory trabalha na UTL de Estrela há 16 anos e pretende se aposentar lá. “Eu adoro meu serviço”, ressalta. Os problemas mais recorrentes de descarte inadequado são seringas e animais mortos. A coisa mais inusitada que já encontrou na UTL foi um útero humano. “Tivemos que parar um tempo para eles verificarem. Aquela foi a coisa mais chocante que teve.” Para ela, o trabalho de recolhimento e separação do lixo é de extrema importância para a sociedade, bem como o de reciclagem, pois torna os materiais úteis novamente ao transformá-los em outras matérias-primas.
Blocos de lixo reciclável composto por cadeiras, garrafas e outros resíduos.
Blocos de lixo reciclável composto por cadeiras, garrafas e outros resíduos.
Os lixos chegam à UTL divididos em secos e orgânicos. Os materiais secos são classificados, separados e prensados em grupos, tornando-se fardos de materiais recicláveis. Esses fardos são leiloados pela Prefeitura para empresas. Os leilões ocorrem trimestralmente. Após serem adquiridos, os materiais são reutilizados. Entre os produtos procurados estão PET, PVC, shampoo, vinagre, plásticos, papelão, jornais, latas e diversos outros materiais.
Material veterinário descartado de maneira irregular na Usina de Tratamento de Lixo de Estrela.
Material veterinário descartado de maneira irregular na Usina de Tratamento de Lixo de Estrela.
Agulhas, seringas e até mesmo materiais veterinários são comumente descartados de maneira inadequada na UTL. “Imagina tu meter a mão nisso aqui, qual é a luva que vai resistir? E muitas e muitas vezes já aconteceu de pessoas ficarem com uma agulha atolada na mão, aí tu tem que sair correndo para fazer exames para lá e para cá”, lamenta Sulzbach. Esses problemas, além de colocarem em risco a saúde dos trabalhadores, acabam tornando-se imensos gastos para os municípios, que poderiam ser evitados com o descarte correto pela população.
Urubus repousam no topo da célula de rejeitos, à procura de restos para se alimentarem.
Urubus repousam no topo da célula de rejeitos, à procura de restos para se alimentarem.
Urubus repousam no topo da célula de rejeitos, à procura de restos para se alimentarem. Os rejeitos, lixos secos que não são aproveitados após a separação, são depositados no solo e aterrados. As células, colocadas sobre geomantas, são fechadas e cobertas com terra e vegetação baixa, como gramíneas, e não podem nunca mais ser abertas. Em seguida, novas células com geomantas são preparadas. A UTL de Estrela é um aterro controlado, onde os rejeitos são cobertos com camadas de terra e pedra.
Fernanda Polo

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Gaúcha apaixonada por Portugal, estudante de Jornalismo na UFRGS e viciada no Instagram. Amante da escrita.

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Feature é uma publicação de conteúdo jornalístico com reportagens especiais sobre cultura, cidadania, saúde, literatura e assuntos internacionais.

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