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        <title><![CDATA[Stories by diário de bordo da banalidade on Medium]]></title>
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            <title>Stories by diário de bordo da banalidade on Medium</title>
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            <title><![CDATA[o dromedário pedagógico]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 17 May 2026 01:21:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-05-17T01:21:02.087Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Existe, em toda escola, uma criatura que desafia a pedagogia contemporânea. Não estou falando do aluno bagunceiro clássico. O bagunceiro tradicional ainda possui uma certa honestidade intelectual. Ele corre, grita, joga bolinha de papel e aceita com dignidade o próprio caos. Há coerência nele. Uma ética da destruição.</p><p>O problema verdadeiro é outro. O problema é o dromedário pedagógico.</p><p>O dromedário pedagógico geralmente ocupa a terceira fileira. Nem muito perto do quadro, para não correr o risco de aprender involuntariamente, nem muito longe, porque adolescentes também gostam de visibilidade estratégica.</p><p>Ele mastiga chiclete com uma cadência quase filosófica. Não mastiga como quem come. Mastiga como quem julga. Cada movimento da mandíbula parece uma avaliação institucional do teu desempenho profissional.</p><p>Tu explicando a formação das monarquias nacionais e ele:</p><p><em>nhac… nhac… nhac…</em></p><p>Olhar fixo. Parcialmente entediado. Parcialmente decepcionado com a humanidade. Às vezes ele nem fala nada. O que é pior. Porque o silêncio do adolescente é sempre acusatório. Parece que tu interrompeu alguma reflexão profunda sobre a existência humana quando começou a explicar o mercantilismo.</p><p>O dromedário pedagógico possui habilidades específicas. Consegue mascar o mesmo chiclete por quatro períodos seguidos. Há pesquisas arqueológicas menos impressionantes em termos de preservação material.</p><p>Também domina a arte de responder chamada sem alterar a expressão facial.</p><p>— <em>Fulana</em>?</p><p>— Presente.</p><p><em>nhac.</em></p><p>Como se estivesse confirmando presença num velório emocional.</p><p>Há ainda o olhar. O olhar do dromedário pedagógico não é agressivo. Seria mais fácil se fosse. Ele apenas transmite uma espécie de cansaço prematuro. Um adolescente de catorze anos com a expressão de quem já renegociou financiamento imobiliário.</p><p>Tu tenta fazer uma aula dinâmica. Mapa mental. Debate. Curiosidade histórica. Vídeo. Atividade em grupo.</p><p>E ele continua ali.</p><p>Mastigando.</p><p>Imóvel.</p><p>Como uma esfinge criada pelo MEC para testar a saúde mental do professor.</p><p>Outro dia perguntei:</p><p>— Alguém sabe por que Luís XIV dizia “O Estado sou eu”?</p><p>O dromedário me olhou lentamente.</p><p>Mastigou mais duas vezes.</p><p>E respondeu:</p><p>— Porque ele era egocêntrico.</p><p>Voltou ao silêncio.</p><p>A turma ficou em choque.</p><p>Eu também.</p><p>Porque estava certo.</p><p>O dromedário pedagógico raramente erra. Esse é um dos seus mecanismos de defesa. Ele participa pouco, mas quando participa, humilha pedagogicamente o resto da sala com uma observação curta e correta.</p><p>É como se estivesse dizendo:</p><p>“Eu poderia aprender. Apenas escolhi sofrer de maneira diferente.”</p><p>Existe também o ritual do estojo. O dromedário nunca pega o material com pressa. Tudo nele acontece numa velocidade cerimonial. Abrir o caderno parece uma decisão tomada após longa análise diplomática.</p><p>Enquanto isso, o professor envelhece em tempo real.</p><p>Mas há um momento em que a máscara cai.</p><p>Normalmente perto do fim da aula. Quando a criatura esquece por alguns segundos de sustentar a própria pose existencialista.</p><p>Ri de alguma bobagem. Comenta algo com o colega. Pergunta uma coisa sincera.</p><p>E ali aparece o adolescente real, escondido sob toneladas de tédio performático e chiclete de hortelã.</p><p>É rápido.</p><p>Logo ele recompõe a expressão de funcionário público aposentado em 1997.</p><p>Mas o professor vê.</p><p>E continua indo para a aula no dia seguinte justamente por causa disso.</p><p>Porque ensinar adolescentes é, em parte, trabalhar diariamente tentando convencer pequenos dromedários emocionais de que o mundo talvez ainda tenha alguma graça.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/480/0*72llUxXieS0qssNc" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=36108087399d" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[América S.A.: breve ensaio sobre um monopólio semântico (com notas de rodapé imaginárias)]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 13 Feb 2026 01:35:08 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-13T01:35:08.067Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que alguém diz “a América decidiu”, eu fico curioso para saber qual delas. A do Ártico? A do Caribe? A do churrasco de domingo? Um pedaço imenso de mundo que começa lá no gelo canadense e termina onde o vento patagônico resolve ensaiar tango. Mas, na prática, virou marca registrada.</p><p>América™.</p><p>Você liga a televisão e alguém diz “os interesses da América”. Nunca é o interesse do Uruguai. Nem do México. Nem da Bolívia. É sempre aquela América específica, com bandeira estrelada e orçamento militar suficiente para financiar três luas.</p><p>É um caso clássico de monopólio semântico. Tomaram a palavra e deixaram o resto do continente com o troco.</p><p>A questão é linguística. É histórica. E, como todo bom problema histórico, começou com um mapa.</p><p>Em 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller resolveu batizar o “Novo Mundo” com o nome de Américo Vespúcio. Pronto: nasceu “América”. Era para designar o continente inteiro — inteiro mesmo, do norte ao sul, sem condomínio fechado. O nome, portanto, já nasceu plural. Mas a geografia, como sabemos, não costuma resistir muito tempo à política.</p><p>No século XVIII, surge um país chamado Estados Unidos da América. Nome longo, ambicioso e, convenhamos, estrategicamente elegante. Não eram apenas estados. Eram estados “da América”. Como quem diz: somos parte dela, mas também somos ela. Um detalhe sintático que renderia uma tese de doutorado.</p><p>Benedict Anderson, aquele que escreveu <em>Comunidades Imaginadas</em>, explica que nação é invenção coletiva sustentada por símbolos, narrativas e jornais. Pois bem: a palavra “America” virou um desses símbolos poderosos. Aos poucos, foi sendo usada internamente para designar identidade. E externamente, exportada como sinônimo de um país específico.</p><p>Enquanto isso, no sul do continente, Simón Bolívar falava em “Nuestra América”. Décadas depois, José Martí escreveria justamente um ensaio com esse título — <em>Nuestra América</em> (1891) — defendendo que a América Latina precisava pensar-se a partir de si mesma, e não como eco europeu ou sombra do norte. Martí já percebia o risco do monopólio simbólico.</p><p>Anos depois, Eduardo Galeano em <em>As Veias Abertas da América Latina</em> daria outro passo: mostraria que o problema não era apenas quem usava o nome, mas quem explorava o território. Para Galeano, “América” era um corpo histórico marcado por fluxos de extração — ouro, prata, açúcar, petróleo — sempre saindo. A palavra, aliás, ficava.</p><p>E então vem a cultura. Hollywood, Guerra Fria, plano Marshall, Coca-Cola. O século XX transformou “America” numa marca global. Como diria Hobsbawm, o século das ideologias foi também o século das imagens. A bandeira estrelada passou a representar não apenas um país, mas um modelo civilizatório.</p><p>Aqui entra a parte verissimiana da coisa: ninguém acordou um dia e assinou “Lei do Monopólio da Palavra América”. Não houve decreto. Houve repetição. E repetição é método histórico mais eficaz do que decreto.</p><p>Antonio Gramsci chamaria isso de hegemonia cultural: quando uma visão de mundo se torna tão dominante que deixa de parecer opinião e passa a parecer natureza. No caso, “América” deixou de soar como continente e passou a soar como país — não por decreto solene, mas por repetição paciente. E repetição, quando vem acompanhada de cinema, música, guerra e fast food, acaba parecendo geografia.</p><p>No Brasil, aprendemos desde cedo que somos sul-americanos. Nunca apenas americanos. É como se tivéssemos aceitado uma nota de rodapé continental. E aceitamos com certa elegância tropical.</p><p>Mas eis que, de tempos em tempos, surge uma fissura. Um artista que canta em espanhol num palco global. Um professor de história que insiste em explicar para seus alunos que o continente é um só — dividido por convenções, não por essência.</p><p>O monopólio semântico começa a tremer.</p><p>Do ponto de vista científico, a questão é clara: nomes são instrumentos de poder. A história da cartografia, como mostra J.B. Harley, nunca foi neutra. Mapas são discursos. E palavras também.</p><p>Quando um país se apropria do nome do continente, está centralizando o significado.</p><p>Mas — e aqui volto ao Verissimo que mora em mim — talvez a melhor resposta não seja brigar pela palavra com raiva. Talvez seja usá-la com calma. Dizer, tranquilamente:</p><p>“Sou americano. Brasileiro, latino, sul, mas americano.”</p><p>Sem gritar. Apenas afirmando.</p><p>Porque, no fim, a palavra é grande demais para caber numa só bandeira.</p><p>E a gramática, quando bem utilizada, é uma forma discreta de resistência.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/1*8hwJC0_3w0NNrQLbuMvH2w.png" /><figcaption>TORRES GARCÍA, Joaquín. <em>América Invertida</em>. 1943. Desenho. Montevidéu.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f2dc6a907d79" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[a impressora e o pacto civilizatório]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 13 Feb 2026 00:46:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-13T00:46:00.296Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Existe uma teoria pouco discutida na academia, talvez por medo, de que a impressora foi criada para testar o caráter humano.</p><p>No início ela parece dócil. Fica ali, discreta, ao lado do computador, como quem diz: “estou aqui para servir”. Você compra tinta original, papel de boa gramatura, fala com ela em tom respeitoso. Até dá um nome. A minha já se chamou Silvana Scanner.</p><p>O problema começa quando você realmente precisa dela.</p><p>Não quando quer imprimir uma receita de bolo. Não. A impressora sabe a diferença entre “quero” e “preciso”. Ela tem sensores emocionais. Quando é um contrato importante, ou um plano de aula que você vai usar em cinco minutos com a turma 72 — aquela que já entra perguntando se vale nota — , a impressora desperta.</p><p>Primeiro, ela faz um barulho teatral. Algo entre um bocejo metálico e uma britadeira com sinusite. Depois, uma mensagem surge na tela:<em>“Erro desconhecido.”</em></p><p>Desconhecido por quem? Porque ela sabe muito bem o que está fazendo.</p><p>Você respira fundo. Reinicia. Ela responde com outra frase enigmática:</p><blockquote><em>“</em>Cartucho ausente<em>.”</em></blockquote><p>O cartucho está lá. Você vê o cartucho. Ela também vê o cartucho. Mas, naquele momento, a verdade é relativa. Einstein tentou nos avisar.</p><p>A impressora é a única máquina que exige fé. Você não a entende. Você apenas acredita que, se apertar “imprimir” com suficiente pureza de coração, algo acontecerá.</p><p>Mas a impressora não trabalha com pureza. Ela trabalha com humilhação gradual.</p><p>Há o momento em que ela decide imprimir apenas metade da folha. Ou imprime tudo em hieróglifos. Ou resolve que o preto, hoje, será um cinza existencialista.</p><p>E então vem o golpe final:</p><blockquote><em>“</em>Nível de tinta baixo.<em>”</em></blockquote><p>Baixo? Ontem você comprou o cartucho. Ele custou o equivalente a uma pequena propriedade rural no interior. Você quase parcelou em doze vezes.</p><p>A tinta da impressora evapora por princípios quânticos. Cientistas suspeitam que parte dela seja desviada para uma dimensão paralela onde impressoras vivem felizes e imprimem sem falhas. Lá, certamente, os contratos saem completos.</p><p>Há também a fase passivo-agressiva. Você manda imprimir dez páginas. Ela imprime nove. A décima fica presa no limbo interno, aquecendo lentamente, como se estivesse reconsiderando a própria existência.</p><p>Você abre a tampa.</p><p>Ela trava.</p><p>Você fecha.</p><p>Ela faz silêncio.</p><p>Você aperta novamente.</p><p>Ela cospe três folhas em branco, como quem diz: “aprenda a não duvidar de mim”.</p><p>No fundo, a impressora é um lembrete de que o ser humano não controla tudo. Inventamos satélites, inteligência artificial, conseguimos calcular a idade do universo — mas não conseguimos fazer uma impressora funcionar sem tensão psicológica.</p><p>Talvez seja saudável.</p><p>A impressora nos mantém humildes.</p><p>Ela nos obriga a praticar respiração profunda, autocontrole e, eventualmente, vocabulário criativo.</p><p>E no dia em que ela finalmente imprime tudo, perfeito, alinhado, com tinta firme e sem manchas, você olha para ela com suspeita.</p><p>Porque sabe.</p><p>Algo grande está por vir.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/630/1*HDW2O5QKpdd_SNvzXzzjnQ.jpeg" /><figcaption>Office Space (1999)<br> Dir. Mike Judge</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=021b03b0a847" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[breve tratado sobre elefantes, óleo e dignidade]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 02 Jan 2026 03:52:52 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-02T03:52:52.825Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Cheguei à massagem tântrica sem saber exatamente o que buscava. O que, pensando bem, já é um estado espiritual bastante avançado. Eu não procurava iluminação, expansão da consciência ou alinhamento de chakras. Eu só queria resolver uma questão simples do corpo humano moderno sem a culpa moral que acompanha certos endereços e sem precisar fingir intimidade com alguém que me chamaria de “amor” por contrato.</p><p>Queria paz. Um alívio honesto. Um encerramento digno.</p><p>O local ajudava a confundir. Logo na chegada, fui recebido por uma combinação arquitetônica que misturava clínica, templo e loja de decoração indiana do shopping. Elefantes budistas por todos os lados, me observando como se soubessem exatamente o motivo da minha presença, e discordassem educadamente.</p><p>Depois, uma conversa. Sempre há uma conversa. Perguntaram o que eu buscava. Pensei em responder “um desfecho”, mas optei por algo mais neutro, como “relaxamento”. É incrível como essa palavra serve para quase tudo.</p><p>Quando me vi deitado, entendi que a proposta era outra. Óleo apareceu. Não em quantidade simbólica, mas em volume industrial. Óleo em quantidade suficiente para lubrificar um pequeno navio mercante. Meu corpo deixou de ser um organismo e passou a ser uma superfície de atrito negativo. Se alguém me soprasse, eu deslizava até o estacionamento. Eu não estava numa maca — estava oficialmente homologado como brinquedo aquático. Um tobogã introspectivo. O Acqua Lokos do autoconhecimento.</p><p>A terapeuta falava de energia. Eu pensava na física. Nada se perde, tudo escorre.</p><p>O silêncio era constrangedor no sentido mais filosófico da palavra. Não havia diálogo, só o som da fonte e dos meus pensamentos tentando manter alguma dignidade enquanto meu corpo seguia seu próprio projeto de engenharia hidráulica. Em certos momentos, eu já não sabia se aquilo era ritual ancestral ou uma solução gourmetizada para um desejo muito básico que ganhou incenso, mantra e recibo.</p><p>Tudo feito com respeito. Respeito demais, inclusive. Um respeito que te obriga a encarar a si mesmo, suas escolhas e o elefante budista que claramente está te julgando com serenidade.</p><p>Saí dali leve. Não espiritualmente transformado, mas resolvido. Devidamente vestido e com a estranha sensação de que tinha participado de algo que não sei se conto ou se deixo arquivado na categoria “experiências que pareceram uma boa ideia na hora”.</p><p>Aprendi que a maturidade não está em saber o que se quer, está em saber o que se quer evitar. E, naquele dia, evitei culpa, conversa fiada e sentimentos pós-créditos.</p><p>No fim das contas, não busquei iluminação. Busquei silêncio interior. E encontrei óleo. Muito óleo. Mas também um tipo curioso de paz.</p><p>Talvez seja isso o tal do tantra. Ou talvez seja só a prova de que o ser humano é capaz de criar uma narrativa complexa, espiritual e cheia de elefantes para justificar algo simples: querer ficar bem consigo mesmo, ainda que escorregando.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=e19523592b44" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[o método científico do adiamento]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 07 Nov 2025 02:27:06 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-07T02:27:06.305Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Dizem que a procrastinação é o ladrão do tempo. Discordo. Se fosse, já teria levado o meu embora. O que eu vejo é ela sentada no sofá, de pantufas, tomando café e dizendo: “calma, Leonardo, ainda dá tempo.”</p><p>E dá. Sempre dá. É impressionante como o tempo se estica quando o desespero começa. Às 23h59, o mundo inteiro parece cooperar: a internet fica mais rápida, as ideias surgem, até o corretor ortográfico se torna solidário. Um milagre cotidiano digno de registro etnográfico.</p><p>Como professor, eu até tento dar o exemplo. Mas meus alunos sabem. Eles sentem o cheiro do desespero de última hora, o mesmo que ronda a sala dos professores quando o sistema pede o plano de aula “até o meio-dia”. Eu, que falo tanto sobre o tempo histórico, continuo sendo refém do tempo cronológico.</p><p>A procrastinação, no entanto, tem seu charme. É uma forma de pesquisa aplicada. Antes de escrever qualquer coisa, eu preciso investigar todas as alternativas possíveis que não envolvam escrever. E nesse processo, descubro coisas fascinantes: que preciso reorganizar minha estante, lavar a louça, assistir a um vídeo sobre a Idade do Bronze e, se sobrar tempo, mergulhar em um artigo de 1987 que não tem nada a ver com o tema, mas parece promissor.</p><p>No mestrado, ela ganhou status de método. Eu a chamo de <em>abordagem indutiva do caos</em>. Funciona assim: quanto mais o prazo se aproxima, mais o cérebro decide revisitar conceitos teóricos que ninguém pediu. O texto pode não ficar pronto, mas a bibliografia cresce de forma exuberante.</p><p>Costumo pensar que, se a procrastinação fosse disciplina, eu teria doutorado. Com pós-doc na arte de enrolar e título honorário em <em>depois eu vejo isso</em>.</p><p>Freire falava em “inéditos viáveis”. A procrastinação é isso: o inédito que sempre fica viável… amanhã. E amanhã, claro, é o melhor dia para tudo: dieta, academia, revisão bibliográfica e aquele e-mail que deveria ter sido enviado semana passada.</p><p>Mas há algo bonito nesse adiamento. Ele me lembra que nem tudo precisa acontecer agora. Que pensar também é trabalho, mesmo que feito entre um café e um suspiro. Que a vida acadêmica é uma eterna negociação entre vontade e prazo, e que, no fundo, escrever é sempre um ato de coragem adiada.</p><p>E se não for, tudo bem. Eu escrevo sobre isso mais tarde.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c9d0e18b9df3" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[mentiras de janeiro]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 11 Oct 2025 04:31:57 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-10-11T04:31:57.133Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>O vô Rubão só ia à praia em janeiro.<br>Dizia que era o único mês em que o mar aceitava visita de pobre sem fazer cara feia. Nos outros, o mar ficava metido, salgado demais, frio demais, cheio de gente de sunga cara e opinião sobre política.</p><p>Janeiro, pra ele, era o mês da anistia: perdoava o sol, a areia quente e até os turistas. “Deus inventou janeiro pra gente se enganar de novo”, dizia, ajeitando o boné e me chamando pra caminhar.</p><p>Eu era guri e acreditava em tudo.<br>Acordava cedo, ainda sonolento, e lá estava o velho, de bermuda, descalço, com aquele ar de quem já discutiu pessoalmente com o Criador sobre o formato das nuvens.</p><p>A caminhada era sagrada.<br>Rubão dizia que fazia bem pra circulação, mas eu sabia que era pra reclamar melhor.<br>Reclamava do vento, do preço da água de coco, da juventude e do mundo em geral.<br>Reclamava com tanta paixão que parecia agradecer.</p><p>Entre uma queixa e outra, vinha a aula de mentiras.<br>Segundo ele, já tinha sido salva-vidas em Tramandaí, juiz de campeonato de vôlei e autor da ideia original do biquíni, roubada pela França.<br>Quando eu duvidava, ele ofendia o mar:<br> — Não acredita, pergunta pra ele!<br> E ficava esperando a onda confirmar.</p><p>Às vezes, o mar obedecia.<br>Batia mais forte, como quem dizia “é verdade, conheci o Rubão”.<br>Eu ria, e o velho disfarçava o orgulho com outro resmungo.</p><p>Tinha também as histórias filosóficas.<br>“Maré é a respiração do mundo”, dizia.<br>Ou então: “Quem não sabe desapegar nunca vai andar descalço direito.”<br>Falava sério, mas piscava, pra ninguém achar que ele estava ficando sensível.</p><p>No fim da caminhada, comprávamos pastel e Guaraná em garrafa de vidro.<br>Rubão sempre dizia que aquele era o verdadeiro sabor do verão.<br> — Janeiro é o único mês que ainda tem gosto de infância — afirmava, lambendo o açúcar do canto da boca.</p><p>E tinha razão.<br>Janeiro era o mês em que o tempo parava pra ouvir as bobagens dele.<br>O resto do ano, a vida corria e o mar dormia.<br>Mas em janeiro, o Rubão voltava pra acordar as ondas e me lembrar que o riso também é herança.</p><p>Hoje, quando o calendário vira, volto pra mesma praia.<br>O mar continua mentindo pra mim, como aprendeu com ele.<br>E toda vez que a onda me molha o pé, parece dizer:<br> — Janeiro chegou, guri. O velho já tá te esperando pra reclamar do sol.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=4419e3f0edc0" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[manifesto sanitário do proletariado]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 11 Sep 2025 01:57:01 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-02T03:55:29.974Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>No tempo da farmácia eu descobri que Marx não precisava ter escrito <em>O Capital</em>. Bastava passar um dia atrás do balcão e outro dentro do banheiro.</p><p>Era assim: escala 6x1, jornada de oito horas, salário minguado. Mas havia uma brecha revolucionária na porcelana: dez minutos de exílio, cronômetro interno regulado pela natureza, papel higiênico como bandeira de luta.</p><p>Vamos às contas, porque toda vingança proletária se mede em números. Dez minutos por dia. Em seis dias de trabalho, são sessenta minutos. Uma hora exata de cagada. Por semana. Em um mês, quatro horas. Num ano, quarenta e oito horas. Dois dias inteiros de expediente pagos só para eu contemplar azulejos e pensar mal do patrão.</p><p>Multiplique por cinco anos de farmácia e temos dez dias corridos de defecação remunerada. Dez dias! Ou seja: enquanto eles contavam comprimidos e calculavam metas, eu acumulava férias intestinais clandestinas.</p><p>O patrão achava que me explorava; mal sabia que a revolução corria pelas minhas entranhas. Era o mais próximo que cheguei de uma greve: silenciosa, diária e aromática. O banheiro virou minha Internacional Comunista. Cada descarga era um manifesto.</p><p>Se Marx tivesse me conhecido, teria acrescentado um capítulo inteiro: “Sobre a plusvalia fecal”. Porque não era apenas tempo roubado do patrão. Era tempo devolvido ao trabalhador em sua forma mais íntima, mais humana, mais aliviada.</p><p>Hoje, olhando para trás, vejo que não foi só uma cagada remunerada. Foram dez dias de resistência, de contra-hegemonia sanitária. E, no fundo, foi a prova de que até o proletariado mais esmagado encontra uma forma de sentar, relaxar e vingar-se.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=724c1877c280" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[título]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 10 Sep 2025 02:13:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-02T03:55:50.568Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Sempre achei que os títulos dos meus trabalhos eram mais importantes que o próprio conteúdo. Não porque eu quisesse enganar os leitores, mas porque era ali, nas primeiras palavras, que eu conseguia me enganar melhor. Dizia para mim mesmo: “se tem <em>nas entrelinhas de um horizonte</em>, já valeu a pena escrever o resto”.</p><p>Era meu bordão acadêmico. Uns têm cacoete de coçar a barba, outros de citar Foucault. Eu tinha esse: enfiar um horizonte em qualquer título, mesmo quando o assunto era tão árido quanto a ata de um congresso.</p><p>Pois no doutorado não coube. O título, caprichosamente sério, resolveu estacionar em “Entre mãos e vitrines”. De repente, fiquei sem meu horizonte. Como quem chega num bar e descobre que o garçom aposentou a piada de sempre.</p><p>Não é que eu não goste de mãos e vitrines. São até imagens bonitas. As mãos seguram, fazem, moldam. As vitrines exibem, preservam, dão aquele ar de importância. Mas, convenhamos, não têm a mesma poesia de um horizonte cheio de entrelinhas.</p><p>E, no fim das contas, é só um projeto. Talvez nem seja aprovado. Faltam as entrelinhas, falta o horizonte… e quem sabe é justamente aí que ele tropeça. Mas pelo menos a vitrine ficou bonita.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=445e8e526848" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[A pleura e o número 2 (ou: por que eu nunca fiz cocô na escola)]]></title>
            <link>https://medium.com/@leonardollss/a-pleura-e-o-n%C3%BAmero-2-ou-por-que-eu-nunca-fiz-coc%C3%B4-na-escola-b8191269d1a8?source=rss-a83decd23d04------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 02 Sep 2025 01:44:31 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-02T04:02:52.771Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3>a pleura e o número 2 (<em>ou: por que eu nunca fiz cocô na escola</em>)</h3><p>Tem gente que guarda segredos cabeludos da adolescência.<br> Eu guardo outro tipo de coisa: eu nunca fiz o número dois na escola. Nunca. Nenhuma vez. Zero evacuações educacionais.</p><p>Aos sete anos, desenvolvi uma espécie de pacto corporal com meu intestino: você segura firme até as 17h e eu prometo que, em casa, terá dignidade, papel macio e, principalmente, privacidade.<br> Era um contrato baseado em pavor.</p><p>Porque o banheiro da escola, convenhamos, nunca foi um lugar para necessidades reais. Era um espaço social. Um ponto de encontro, espionagem, fofoca e julgamento. O ato de cagar, ali, era uma exposição pública. E eu sempre fui tímido — tanto com palavras quanto com fezes.</p><p>A primeira vez que senti vontade foi no 4º ano. Uma vontade inegociável. Daquelas que o corpo manda com a urgência de um telegrama. Eu suava frio. Mas em vez de levantar a mão e pedir licença, tomei a decisão mais nobre que minha mente infantil permitia:<br> fingi uma crise pulmonar.</p><p>E assim nasceu meu teatro.</p><p>Meses antes, uma médica disse que eu “tinha algo na pleura”. Eu não entendi direito o que era pleura, mas adorei a palavra. Soava grave, sofisticada, quase poética. Usei como escudo. Quando me perguntavam por que eu estava pálido ou suando no canto da sala, eu suspirava com ar dramático e dizia:<br> — É a pleura. Tá inflamando.</p><p>A pleura virou desculpa pra tudo.<br> Na aula de Educação Física? Pleura.<br> Na fila da merenda? Pleura.<br> Na hora do recreio? Surtos pleurais.</p><p>Só que eu fui além.<br> Transformei a pleura num passe livre pra sair da escola.</p><p>Bastava um desconforto intestinal e lá ia eu até a secretaria, com olhos caídos, a mão no peito e a frase ensaiada:<br> — Tô com dor na pleura. É crônico.</p><p>Minutos depois, meu pai chegava de carro. Já sabia.<br> Nem perguntava.<br> Só olhava pelo retrovisor e dizia:<br> — De novo a pleura?</p><p>E eu assentia, com cara de quem carrega uma doença rara e incompreendida.<br> Ele fingia acreditar. Eu fingia que estava tudo bem.<br> A cumplicidade entre pai e filho, ali, era maior que qualquer prontuário médico.</p><p>Uma vez, a coordenadora me perguntou se eu já tinha levado laudo médico. Eu disse que estava sendo monitorado pela equipe de pneumologia de confiança da minha avó.<br> Ela não questionou. A pleura impõe respeito.</p><p>Passei anos me esquivando do banheiro escolar com a elegância de um ninja intestinal. Aprendi técnicas avançadas de controle corporal. Meditava em silêncio. Prendia o ar. Mentalizava pedras no fundo do rio. O importante era resistir.<br> Cagar na escola era perder.<br> E eu nasci pra vencer.</p><p>Na adolescência, o jogo ficou mais complexo. A vergonha era ainda maior, e o banheiro masculino parecia um campo de guerra acústica. Entrar ali e deixar um som escapar era o equivalente a destruir sua reputação social. Então, a pleura voltou com força.<br> Crônica.<br> Incurável.<br> Forte nos dias frios.</p><p>Mas aí veio a graduação. A Unisinos. O curso de História.</p><p>E um dia, entre uma aula de Teoria da História e outra sobre Feudalismo, encontrei o banheiro. Um bloco afastado, pouco movimentado. Um templo sanitário. Grande. Discreto. Equipado. Com porta que tranca direito e até dispenser automático de sabonete — que aliás, parecia mais moderno do que muita estrutura curricular.</p><p>Entrei.<br>Tranquei.<br>Sentei.</p><p>E naquele instante, em que o corpo e a alma finalmente encontraram repouso, eu entendi o que Hobsbawm quis dizer com <em>“rupturas e continuidades”</em>.</p><p>Ali, na Unisinos, fiz meu verdadeiro rito de passagem.<br> Ali, fiz História. Literalmente.</p><p>Hoje, olho pra trás com orgulho.<br> Não por ter segurado.<br> Mas por ter mantido minha dignidade intestinal intacta até que a vida me presenteasse com um banheiro digno da minha história.<br> E por ter feito da minha condição fictícia um escudo poético.</p><p>Porque, no fim das contas, todo mundo inventa uma pleura pra proteger suas vergonhas.<br> A diferença é que eu transformei a minha… numa crônica.<br> E, sinceramente, foi um alívio.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b8191269d1a8" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[gestar ou gerir? eis a questão]]></title>
            <link>https://medium.com/@leonardollss/gestar-ou-gerir-eis-a-quest%C3%A3o-c7d096e7f62b?source=rss-a83decd23d04------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[diário de bordo da banalidade]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 03 May 2025 18:29:57 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-02T03:56:35.845Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Era para ser sério. Era para ser acadêmico. Era para ser <em>gestão</em>. Mas o corretor, esse pequeno sabotador travestido de ajudante, decidiu que não. Assim, no meio do texto, onde eu explicava, com toda a pompa possível, a necessidade de políticas inclusivas para o manejo do patrimônio arqueológico, surgiu, sem cerimônia, a frase:</p><p>“<strong>É urgente pensarmos a gestação do patrimônio arqueológico.</strong>”</p><p>Sim. Gestação.</p><p>De repente, meu artigo não era mais sobre preservação de sítios e artefatos. Era sobre o patrimônio grávido. Barrigudinho. Talvez enjoado.</p><p>Comecei a rir sozinho. Imaginei o arqueólogo, de luvas, ouvindo com atenção o coraçãozinho de um fragmento cerâmico. Ou o curador do museu preparando o chá de fraldas para receber novos exemplares de pontas de projéteis. E o mais bizarro: a possibilidade de discutir, com seriedade, o período gestacional das pinturas rupestres. “Entre o terceiro e quarto mês já é possível ver as primeiras figuras de animais e mãos humanas…”</p><p>Pensei no orientador lendo aquilo. Pensei na banca. Pensei, principalmente, no verbete que isso viraria nos anais da pós-graduação: <em>“Aluno propõe revolucionária abordagem prenatal do patrimônio arqueológico.”</em></p><p>Corrigi, claro. Substituí o “gestação” pelo discreto e inofensivo “gestão”. Mas já era tarde. A imagem estava feita. O patrimônio arqueológico, até aquele momento silencioso e sedimentado, agora chorava de madrugada e precisava ser ninado.</p><p>E como todo erro honesto, ficou ali, ecoando. Hoje, toda vez que escrevo sobre <em>gestão</em>, olho duas vezes. E confesso que, no fundo, sinto saudades daquela breve fase em que meu patrimônio arqueológico não precisava de curadoria, só de mamadeira e carinho.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*wie1u3eTsl3kJVMq19G6yQ.png" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c7d096e7f62b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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