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        <title><![CDATA[Stories by Mario Luis Grangeia on Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Stories by Mario Luis Grangeia on Medium]]></description>
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            <title>Stories by Mario Luis Grangeia on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Saga portuguesa em ponto centenário]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 09 Jul 2019 03:01:01 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-07-09T03:01:01.247Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/669/1*11oYXYLyiuXcVNU0kryqNA.jpeg" /><figcaption>Padaria na esquina movimentada: comércio de Ipanema em funcionamento há mais tempo (fotos do autor)</figcaption></figure><h4>Imigrante preserva raízes de padaria que atendeu Tom e Vinicius</h4><p>Instalada na esquina diante da Igreja N. Senhora da Paz e da praça de mesmo nome, a Padaria Ipanema foi aberta por portugueses em 1918, quando a vizinhança só tinha as primeiras casas e uma praia pouco frequentada. Numa parede da loja, se vê uma foto grande de 1920 com o ponto comercial e a igreja voltados à R. Visconde de Pirajá (então R. 20 de Novembro). A foto é fonte de orgulho para o sócio da padaria Severino Martins Alves, português septuagenário fixado no Rio de Janeiro — e naquele mesmo comércio — desde 1956, quando chegou ao Brasil com 14 anos: “Tem a igreja do lado de cá e uma casinha baixinha é a padaria com uma chaminé”, descreveria, sentado numa mesa do estabelecimento.</p><p>Ao sair da freguesia de Vila da Veiga (Distrito de Braga), onde estudou até o quarto ano primário, para embarcar rumo ao Rio de Janeiro, Alves seguia os passos do tio Abel, à época dono da Padaria Ipanema, e da irmã Maria da Conceição, caixa no estabelecimento vinda em 1953. Dois irmãos deles imigrariam em 1958, em demonstração de que o trabalho na panificação era considerado promissor na família. Perguntado da emoção ao deixar Lisboa, no navio Anna C.,<a href="#sdfootnote1sym">1</a> Alves repetiria três vezes sua resposta (“muitas saudades, muitas saudades, muitas saudades”) para não deixar a menor dúvida.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/761/1*bar-M_7PxvlRGAdUwhD5yA.jpeg" /><figcaption>Severino Alves: desde 1956 no Rio de Janeiro e na Padaria Ipanema (ou Confeitaria Ipanema, na fachada atual)</figcaption></figure><p>Na Ipanema, Alves começou como assistente e chegou a mestre-padeiro numa fase em que os funcionários dormiam lá (“vinha a padaria na frente e a moradia nos fundos, quartos para a gente morar”) e os entregadores da loja abasteciam restaurantes, botequins e hotéis, enquanto outros levavam pães em carrocinhas para vender a moradores e pagavam no fim do dia. Alves diz com orgulho ter sido o pioneiro da cidade a produzir pães de forma — não demoraria a ser copiado.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/853/1*DVTovF13KzAYMfAkbBPiYA.jpeg" /><figcaption>1a igreja do bairro, com padaria já aberta (à esq.): registro de 1920 na parede da loja</figcaption></figure><p>A loja marcou tantos ipanemenses que um lojista tradicional do bairro lembraria que seu pai, na infância, conseguiu que a Ipanema vendesse pão antes da hora permitida à época — regra inimaginável hoje — para ele não ir para a escola com fome.<a href="#sdfootnote2sym">2</a> A padaria se tornou o comércio ativo há mais tempo no bairro, famoso mundo afora pela “Garota de Ipanema”. Os compositores Vinicius de Moraes e Tom Jobim, aliás, podiam ser vistos entre os balcões nos anos 1960. Diz-se que a padaria chegou a ser o ponto onde o presidente Castelo Branco comprava sua bisnaga quando estava na antiga capital.<a href="#sdfootnote3sym">3</a></p><p>Alves exercita a memória ao recordar conterrâneos donos de padarias no Rio e lamenta fechamentos recentes. Embora não lhe faltasse clientela, sua padaria foi anunciante de um programa de rádio da comunidade lusa nas tardes de sábado — aliás, outra padaria de portugueses, a Bragança, que existia em Botafogo, teve o primeiro jingle das rádios brasileiras.<a href="#sdfootnote4sym">4</a></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*oriINnSW4dw2O7GYbyWiDQ.jpeg" /><figcaption>Moradores e visitantes do bairro nos balcões: Severino Alves, septuagenário, faz questão de ir abrir loja às 5h30</figcaption></figure><p>Apesar da idade avançada, Alves não larga a rotina de abrir a loja para os clientes, às 5h30, e deixá-la às 16h. Quando sai de férias, privilegia Portugal, onde hoje uma filha mora no Porto, mas mantém sociedade em restaurante no Leblon. Apesar da veia comercial dela, não vislumbra as gerações seguintes da família ou os sobrinhos no comando da Ipanema: “Ninguém quer. Isso aqui é difícil, é trabalho de segunda a segunda.” Foi essa dedicação que fez da loja uma tradição.</p><p><em>Severino Martins Alves (Padaria Ipanema) foi entrevistado em abril de 2017, aos 75 anos; fotos deste texto foram feitas pelo autor em 08/07/19</em></p><p><a href="#sdfootnote1anc">1</a> <em>Anna C. </em>é citado como <a href="http://www.pressclub.com.br/pk/noticia.asp?id=14&amp;idn=8061">primeiro navio a atravessar o Atlântico no pós-guerra</a><br><a href="#sdfootnote2anc">2</a> Relato comentado no post “Ipanema” do blog <em>Saudades do Rio</em> (v. <a href="http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2017/02/ipanema.html?showComment=1487110550455#c381169059757697153">menção</a>)<br><a href="#sdfootnote3anc">3</a> Clientes célebres citados no <em>Jornal do Brasil</em> de 17/12/86 (v. <a href="http://memoria.bn.br/pdf/030015/per030015_1986_00253.pdf">Cidade, p. 8</a>)<br><a href="#sdfootnote4anc">4</a> O jingle foi criado por Antônio Nássara em 1932 (veja <a href="http://radios.ebc.com.br/todas-vozes/edicao/2014-07/primeira-propaganda-em-forma-de-musica-no-radio-brasileiro">história</a> e ouça <a href="https://www.youtube.com/watch?v=yFiPA5WFZ2I">jingle</a>)</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c4b18371091b" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/sonho-e-p%C3%A3o/saga-portuguesa-em-ponto-centenario-c4b18371091b">Saga portuguesa em ponto centenário</a> was originally published in <a href="https://medium.com/sonho-e-p%C3%A3o">Sonho e pão: sagas da imigração portuguesa no Brasil</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[9 atributos do jeito borderline de ser]]></title>
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            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
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            <category><![CDATA[saúde-mental]]></category>
            <category><![CDATA[psicologia]]></category>
            <category><![CDATA[t02neworder]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 25 Apr 2019 18:01:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-04-25T18:01:00.878Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/600/1*yvf_BbhAoK0cK-BD98jfag.jpeg" /><figcaption>Mais de 4 milhões de pessoas teriam personalidade borderline no Brasil (imagem: <a href="http://draanabeatriz.com.br/portfolio/distimia/">reprodução</a>)</figcaption></figure><h4><em>Livro de psiquiatra discute personalidade de 2% da população</em></h4><p>Dias atrás, ouvi um taxista se queixar da última conta na farmácia: “Mais de 400 reais de remédio!” O preço alto se devia à medicação da enteada, com 18 anos e “mal de borderline”. Os remédios evitariam ataques dela contra a mãe.</p><p>Meu interesse por essa personalidade já me fez ler sobre ela enquanto criava a protagonista de um romance. Nesta <a href="https://medium.com/neworder/tagged/t02neworder">temporada Saúde Mental</a> de New Order, achei útil revisitar ideias da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva em <strong><em>Corações descontrolados: ciúmes, raiva, impulsividade</em></strong><em> — o jeito borderline de ser</em> (Fontanar/Objetiva), relançado em 2018 como <strong><em>Mentes que amam demais</em></strong><em>.</em></p><p>Cerca de 2% das pessoas são borderlines, segundo a Associação de Psiquiatria Americana (APA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). É o caso de 10% dos pacientes ambulatoriais e 20% dos internados em busca de tratamento de saúde mental. Haveria <strong>mais de 4 milhões de casos no Brasil</strong>. Há quem diga que a fração de borders seria de 5,9% das pessoas, <a href="https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2018/04/16/borderline-a-doenca-que-faz-10-dos-diagnosticados-cometerem-suicidio.htm">não fosse o subdiagnóstico</a>.</p><p>Amy Winehouse, Marilyn Monroe, Tony Curtis, Janis Joplin e Elizabeth Taylor tiveram, na leitura de Ana Beatriz Barbosa Silva, um suposto funcionamento dessa personalidade borderline, marcada pela severa instabilidade de humor.</p><blockquote><strong>Tudo é <em>muito</em>, e muito ainda é pouco para quem é assim</strong>. [na Introdução]</blockquote><blockquote>Os <em>borders </em>(vamos chamá-los assim) são tão intensos que a vida com eles pode ser tudo, menos tranquila. Há um excesso em tudo que dizem e fazem, no <strong>mais puro estilo exagerado de sentir, pensar e agir</strong>. Eles sempre marcam a vida das pessoas com quem convivem, especialmente se essa convivência for íntima. No quesito emoções fortes, os borders são imbatíveis. [no Capítulo 1]</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/400/1*uiUJo3aIae70EguzEVR2DA.jpeg" /><figcaption>Javier Bardem, Penélope Cruz e Scarlett Johansson: TPB na ficção</figcaption></figure><p>Você reconheceria alguém borderline no filme <em>Vicky Cristina Barcelona, </em>de Woody Allen? Como notou a autora do livro ora resenhado, Penélope Cruz deu vida a uma fotógrafa e pintora com esse transtorno. Para quem quiser ir além nesse diagnóstico, sugiro checar um <a href="http://draanabeatriz.com.br/portfolio/vick-cristina-barcelona/">texto</a> bacana da médica.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/883/1*3doSiVtBpCBEeym76b-HwQ.png" /></figure><p>Classificar personalidades costuma ser um desafio. E o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tem interseções com outras facetas, o que dificulta classificá-lo ainda mais. Ana Beatriz Barbosa Silva elaborou com Lya Ximenez um diagrama que ilustra essa visão.</p><p><strong>A APA identifica nove critérios para diagnosticar os borders</strong>. A classificação exige a presença de cinco traços, por pelo menos um ano, em contextos distintos.</p><h3><strong>1. Esforços frenéticos para evitar abandono real ou imaginário</strong></h3><p>Pessoas borderlines costumam viver “no limite”. Um border, segundo a autora, vive <strong>o tempo todo no limite do desespero afetivo frente à possibilidade do abandono e da rejeição, em situações reais ou imaginárias</strong>, saídas de uma mente ávida de identidade que, em geral, é a do outro, seu objeto afetivo.</p><blockquote>Pessoas borders costumam ruminar incessantemente sobre a possibilidade de uma possível separação. Elas se esforçam, de forma vigorosa, a fim de evitar o abandono e, com isso, exigem afeto e amor continuadamente. Tal característica costuma gerar alterações profundas na autoimagem, sentimentos depressivos ou hostis, ansiedade e angústia.</blockquote><h3>2. Relações instáveis e intensas, alternando entre extremos de idealização e desvalorização</h3><p>O convívio com borders costuma ser <strong>descrito pelos mais íntimos como um eterno “pisar em ovos”</strong>, como realça Ana Beatriz Barbosa Silva, para quem a Maria Helena de <em>Vicky Cristina Barcelona</em> retrata bem essa disfunção. Bastante ciumenta, não conseguia viver sem Juan (Javier Bardem), sua conexão com a vida real. Mesmo com tantas brigas, escândalos e até tentativas de matá-lo…</p><blockquote>Para os borders não há meio-termo quando se trata de relacionamentos interpessoais; vivem em eterna dicotomia afetiva, que oscila o tempo todo entre dois polos: amam ou odeiam, idolatram ou abominam, conforme se julgam protegidos ou rejeitados pelas pessoas de seu convívio. Esse idolatrar e posterior odiar e desconfiar permeiam todos os relacionamentos dos borderlines, tornando a convivência frequente com eles algo absolutamente instável, desgastante e, muitas vezes, adoecedor.</blockquote><h3><strong>3. Alteração da identidade: instabilidade acentuada e persistente da autoimagem ou do sentimento de si</strong></h3><p>Outra disfunção cognitiva (na maneira de pensar) se dá na autoimagem mais instável. Para essa autora, borders podem variar de uma autopercepção como “o máximo” até “um zé-ninguém”, incapazes de realizações. <strong>As autoimagens são extremadas, inseguras e voláteis, sem muita percepção de quem realmente são e como se mostram</strong>. Fernando Pessoa fez versos ilustrativos:</p><blockquote>Nem nunca, propriamente reparei,<br>Se na verdade sinto o que sinto. Eu<br>Serei tal qual pareço em mim? Serei<br>Tal qual me julgo verdadeiramente?<br>Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,<br>Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.<br><em>(“Quando olho para mim não me percebo” — Álvaro de Campos)</em></blockquote><h3>4. Impulsividade com potenciais prejuízos à pessoa</h3><p>Exemplos de áreas com potencial autodestrutivo seriam os <strong>gastos, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, compulsão alimentar</strong>. Para diagnosticar o TPB, a APA fixa a impulsividade em pelo menos duas áreas. A impulsividade, que começa na adolescência ou início da fase adulta e ainda persiste de outras formas por tempo indefinido, é manifestável na busca por vigiar e controlar seus parceiros e contribui para carreiras bastante flutuantes.</p><blockquote>As pessoas borders apresentam uma hiperatividade nessa central emocional e, por conta disso, estão sempre gerando um número exacerbado de emoções com intensidades também elevadas. Essas emoções acabam produzindo impulsos que são conduzidos diretamente ao córtex pré-frontal, para serem moduladas de forma quantitativa e qualitativa. E é exatamente nesse processo que os borders começam a “capotar”, pois o sistema de freio, composto pelos seus córtex pré-frontais, são hipofuncionantes; ou seja, eles freiam menos os impulsos emocionais do que deveriam. O resultado é uma impulsividade exacerbada, tal qual um carro em alta velocidade, que a qualquer hora pode provocar um grave acidente e com consequências desastrosas tanto para o motorista quanto para as diversas pessoas ao redor.</blockquote><h3>5. Comportamentos, gestos ou ameaças suicidas recorrentes ou comportamentos de automutilação</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/300/1*CLrpwDp-Yw8o9ORMGBUggw.jpeg" /></figure><p>A autora ilustra o caso com a personagem de Winona Ryder no filme <em>Garota, interrompida</em>, baseado no livro em que Susanna Kaysen narra sua internação num hospital psiquiátrico durante dois anos. Diagnosticada como borderline, ela conheceu meninas com vários transtornos psiquiátricos, se identificou e se apaixonou por uma psicopata, tentou fugas e presenciou uma das colegas se suicidar.</p><blockquote>Sabia como era querer morrer, como você tenta se ajustar e não consegue, como você se fere por fora tentando matar o que se tem por dentro. <em>(Susanna Kaysen, citada por Ana Beatriz Barbosa Silva, sobre ter presenciado um suicídio)</em></blockquote><h3>6. Instabilidade afetiva (ligada à grande reatividade do estado de humor)</h3><p>Ilustram essa instabilidade os <strong>episódios de disforia intensa, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando horas (e só raramente mais de alguns dias)</strong>. Para a médica-escritora, a instabilidade afetiva talvez seja o mais visível dos sintomas do TPB e pode explicar expressões usuais como “fulano é de lua, nunca se sabe como ele estará”, referidas a certos colegas, amigos e parentes.</p><blockquote>A instabilidade afetiva desses indivíduos deriva da hiper-reatividade que apresentam no seu estado de humor. Seus acessos de raiva e/ou fúria os remetem a um estado de intensa agitação física e psíquica e são sempre desencadeados por sentimentos de rejeição, abandono ou frustração. Em função disso, os borders costumam se sentir exaustos e deprimidos logo após o cessar dos ataques.</blockquote><h3>7. Sentimentos crônicos de vazio</h3><p>Como os borders vivem constantemente no limite máximo de suas emoções, quando suas mentes não estão em meio a fortes tempestades, eles <strong>tendem a experimentar uma sensação de que a vida não tem graça; é tediosa ou um grande vazio</strong>. Segundo Ana Beatriz Barbosa Silva, pacientes até afirmam que, nesse momento, experimentam a morte em vida, pois seria como se não existissem (se intensos e frequentes, tais sentimentos podem levar a situações de risco e ao uso de drogas). Outros versos de Fernando Pessoa ilustram bem:</p><blockquote>Não sei sentir, não sei ser humano, conviver<br>De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.<br>Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,<br>Ter um lugar na vida, ter um destino, entre os homens,<br>Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta<br>Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,<br>Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim…<br>Sentir tudo de todas as maneiras,<br>Viver tudo de todos os lados,<br>Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis<br>e ao mesmo tempo…<br><em>(“Passagem das horas” — Álvaro de Campos)</em></blockquote><h3>8. Raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlá-la</h3><p>Demonstrações frequentes de irritação, raiva constante ou lutas corporais recorrentes seriam exemplos dessa ira inapropriada e intensa, desencadeada por frustrações ou decepções. O descontrole emocional nestas horas, segundo a autora, pode surpreender as pessoas ao redor. A ira pode se apresentar como gritos, ofensas e até mesmo tentativas de suicídio.</p><blockquote>Durante os ataques de descontrole essas pessoas acabam fazendo coisas que normalmente não fariam, como bater, morder, vandalizar a propriedade dos outros, bater com o carro de propósito, trancar-se no quarto ou no banheiro. Em casos mais graves, podem se jogar na frente de carros em movimento, ingerir remédios em excesso, agredir as pessoas ao redor com objetos cortantes, tentar suicídio e até homicídio, o que põe em risco a própria vida e a de seus familiares. Essas atitudes tomadas durante os ataques de ira e/ou fúria nunca são planejadas, pois estão fora de controle. No entanto, a manipulação que os borders podem fazer, como por exemplo ameaças, geralmente é algo calculado e tem o objetivo claro de obter um benefício imediato.</blockquote><h3>9. Ideias paranoides (transitórias, ligadas ao estresse ou graves sintomas dissociativos)</h3><p>Tal disfunção costuma ocorrer em situações de estresse agudo ou prolongado. Os borders podem, segundo a autora, ter <strong>delírios de que são perseguidos, de que há um complô contra eles ou há gente em diversos ambientes falando mal deles</strong>. Na despersonalização ou nos sintomas dissociativos, há a sensação de a pessoa não ser mais ela. Sobre essa ideação paranoide, Ana Beatriz diz:</p><blockquote>Muitas [pessoas] descrevem como uma espécie de “incorporação mental”; ou seja, de que outra pessoa teria se apossado de suas mentes por um espaço de tempo (que em geral é curto), obrigando-as a conviver com ideias, pensamentos e emoções que lhes são estranhas e incômodas.</blockquote><p>No fim do livro, Ana Beatriz Barbosa Silva dá 12 dicas de filmes afins ao tema:</p><ul><li>A fantástica fábrica de chocolate</li><li>Atração fatal</li><li>Borderline: além dos limites</li><li>Garota, interrompida</li><li>Gia: fama e destruição</li><li>Mulheres à beira de um ataque de nervos</li><li>O fabuloso destino de Amélie Poulain</li><li>Sete dias com Marilyn</li><li>Shame</li><li>Taxi Driver</li><li>Um grande garoto</li><li>Vicky Cristina Barcelona</li></ul><blockquote>Um alerta que o autor deste texto compartilha com a médica-escritora:<strong> não caia no erro de “diagnosticar” quem apresentar atributos citados acima</strong>.</blockquote><blockquote>Afinal, o TPB só se caracterizaria pela “<em>presença de um conjunto bem-delineado de sintomas e o padrão de frequência, intensidade e temporalidade com que eles estão presentes no cotidiano desses indivíduos. Ser border é muito mais do que </em>parecer <em>border. Também não podemos esquecer que muitas características dessa personalidade, tão complexa, são difíceis de serem identificadas e, principalmente, de serem diferenciadas de outros transtornos mentais</em>”. É isso aí!</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=fefffb51426e" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/neworder/9-atributos-do-jeito-borderline-de-ser-fefffb51426e">9 atributos do jeito borderline de ser</a> was originally published in <a href="https://medium.com/neworder">NEW ORDER</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Três certezas e uma dúvida sobre a música]]></title>
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            <category><![CDATA[cultura]]></category>
            <category><![CDATA[arte]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <category><![CDATA[música]]></category>
            <category><![CDATA[educação]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 05 Dec 2018 13:01:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-12-05T13:01:00.997Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*2YTYqP1zbAbNFMUBbfOfjQ.jpeg" /><figcaption>Hugo Pilger, Rodrigo Maranhão, Lenine e Leo Gandelman: jam session em escola carioca (Andrea Testoni/<a href="http://www.edem.g12.br/parangoledem">Edem</a>)</figcaption></figure><h4><em>Reflexões de debate com músicos-pais de família</em></h4><p>Todo pai ou mãe já deve ter se perguntado o que deixará aos filhos. Respondo mais idealista do que materialista: julgo que a melhor herança para Lila, de 20 meses, seria o gosto pelas artes.</p><p>Soei pretensioso? Ok, afinal, tal riqueza depende mais dela. Mas por que não estimular?</p><p>Uma recente mesa redonda na escola de Lila reavivou minha dúvida sobre o papel dos pais nas relações de seus filhos com as artes. O tema na Edem era <em>“O que é música boa?”</em>, mas essa questão, a meu ver, levou à outra. Saí convicto de que <strong>deixar filhos perto das artes não é um direito, mas dever dos pais. O que os filhos farão? Aí já é direito deles. </strong>(Espero estar contribuindo não só expondo Lila a rádios e CDs, mas levando sempre às rodas de bebês do musicoterapeuta Luis Aragão, fora suas aulas de musicalização na escola…)</p><h3>1. “<strong><em>É a música que nos escolhe”</em></strong></h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Aqqsv_E7zjx45YJlKzqRog.jpeg" /><figcaption>Crescer com música influencia muito, mas não tudo (foto: <a href="https://pixabay.com/pt/guitarra-m%C3%BAsicas-homem-jogar-869217/">Ryan McGuire/Pixabay</a>)</figcaption></figure><p>Cheguei àquele debate atraído menos pelo tema-título do que pelos envolvidos: <a href="http://www.lenine.com.br/">Lenine</a>, <a href="http://www.leogandelman.com.br/">Leo Gandelman</a>, <a href="https://open.spotify.com/artist/04r6DFJdJcb3qx9IPidegH?autoplay=true&amp;v=A">Rodrigo Maranhão</a> e <a href="https://www.hugopilger.com/">Hugo Pilger</a>, mediados pelo professor de música <a href="https://soundcloud.com/gdestord/">Gustavo Destord</a>. Vê-se por suas vidas que crescer perto da música influencia muito (o saxofonista Gandelman, p. ex., é filho de maestro e professora de piano). Mas não influencia tudo… Pilger se tornou violoncelista ao se encantar com o cello de um professor, que retribuiu seu entusiasmo com uma bolsa para estudar o instrumento. “Concordo que não é a gente que escolhe a música; ela nos escolhe”, disse. “Mas nem todos têm condições ou estão no lugar certo para receber aquele chamado.”</p><p><strong><em>A música passa de geração como empresas familiares, mas não é cultivada sem esforço.</em></strong></p><p>Lenine, os irmãos e os pais tocavam repertórios uns dos outros e esse rodízio de cadernos o fez crescer eclético, o que não foi valorizado por um ex-professor seu no conservatório, que o repreendeu por tocar música popular. “Minha relação com a academia foi frustrante, não encontrei pares e fui tolhido por um quadrúpede”, lamentou Lenine, para quem sua demora em ter retorno da música poderia ter afastado os filhos dessa arte. Da plateia, seu filho João admitiu que a saga do pai o fez evitar a carreira até não conseguir mais se ver fora dela. (Gandelman foi outro que tentou fugir da música, pela fotografia, mas também não resistiu.)</p><p>“Filho, gosto de você porque nunca me ouviu.” Esse mea-culpa foi ouvido pelo cavaquinista Rodrigo Maranhão na voz do pai, que via a profissão do filho como hobby. Músico amador, seu pai quis criar bloco de Carnaval quando Rodrigo tinha 11 anos. Mas foi este que ganharia fama ao comandar multidões com o bloco Bangalafumenga em seguidos Carnavais cariocas.</p><p>Cá comigo, lembrei de meu pai que, menino em Bom Conselho (PE), passava pela casa de uma professora de piano e adorava aquele som, mas se resignava por seus pais não poderem pagar aulas. Quando pôde, matriculou a filha no piano para oferecer o que lhe fora privado.</p><h3>2. “<strong>Música boa é a que a gente gosta”</strong></h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*7LJkySjbcKTRW4VfABRReg.jpeg" /><figcaption>Lenine, Gandelman e seus instrumentos não só de trabalho (foto no <a href="http://www.edem.g12.br/parangoledem">Parangoledem</a>)</figcaption></figure><p>Só curtimos o que conhecemos — aliás, o ignorado é sempre um depreciado. Daí a resposta ligeira dada à questão inicial do debate (“o que é música boa?”) por Judy Galper, diretora da Edem: “música boa é a que a gente gosta”. Essa definição, que debatedores tomaram como irrefutável e — na piada de um deles — perfeita para exaurir o debate, tangenciou algo crucial.</p><p><strong>Uma música pode soar melhor dependendo da hora e de cada um</strong>. Parece óbvio, mas os artistas no palco deram provas inegáveis. Lenine citou redações de crianças de Recife sobre “Leão do norte”, que ouviram cada qual a seu modo, e contou do pecuarista de São Carlos que disse que a produção leiteira subiu 18% com as ordenhas ao som de seu hit “Paciência” (“é música boa para as vacas”, se divertiu o autor). Para Lenine, a música é boa e relevante sempre.</p><p>Música boa para alunos de cavaquinho de Rodrigo Maranhão apresentarem ao fim do curso pode até ser funk. Mesmo que à revelia de outros docentes, Maranhão incentivava essa escolha. “Temos de respeitar o que a música faz na vida das pessoas”, diria, certeiro. E Pilger citaria Ernst Fischer que, no livro “A necessidade da arte”, notou que não haveria arte se o homem fosse resolvido. Depois, lembrou que músicas marcam instantes e remeteu à balada de Elton John que tocava no rádio ao ser retirado de um acidente de carro.</p><p>Semanas atrás, Lila foi pela primeira vez ao teatro, assistir a um musical do Chapeuzinho Vermelho com ritmos nordestinos, e ficou enfeitiçada pelo que via, mas sobretudo pelo que ouvia. Tanto que sem decodificar a trama, o que é natural, batia palmas justo quando o lobo corria atrás da menina ou de sua avó. Torcia pelo lobo? Não, aplaudia a música que realçava as cenas.</p><h3>3. “<strong>Não existe fronteira na música”</strong></h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*oUuVqAeNrPQJKR5atdxL6Q.jpeg" /><figcaption>Música, um substantivo inadjetivável para artistas como Lenine (<a href="https://pixabay.com/pt/fones-de-ouvido-fone-de-ouvido-%C3%A1udio-690685/">Free-Photos</a>)</figcaption></figure><p>“Não há divisão, mas atitudes diferentes.” Leo Gandelman introduziu assim o debate sobre a indistinção — consensual entre os debatedores — entre música popular e erudita. Para ouvidos leigos como os do autor deste texto, haveria bifurcações onde os quatro — ou cinco, se incluído o mediador Gustavo Destord — contemplavam tão somente convergências.</p><p>Dizendo-se contra adjetivar a palavra “música”, Lenine foi taxativo: “não vejo diferenças entre música popular e erudita”. Maranhão emendou mais adiante: “não ensinar cavaquinho ou violão de sete cordas na faculdade é mentalidade de terceiro mundo”. Pilger foi além na crítica: “o bom professor é aquele que não estraga o aluno”.</p><p>A palavra voltou para Gandelman, que concluiu: “o limite da música, pra mim, é o próprio músico”. Em seguida, citou as diferenças nas escolas de música, como clássica e jazz. “Isso está nas escolas e nas atitudes de quem faz e quem ouve”. Deu ali uma <strong>declaração que cada artista fez questão de repetir em sequência ao microfone: “não existe fronteira na música”</strong>.</p><p>No bate-papo sobre meu livro “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática” (Civilização Brasileira) na festa literária de Petrópolis deste ano, respondi sobre o percurso de Cazuza e suscitei a ideia de que, não fosse o convite para ser vocalista do Barão Vermelho, ele não teria sido roqueiro, haja vista sua carreira solo. Na hora, me pareceu um insight razoável. Repassando aqui o debate visto no Parangoledem, me pergunto se isso realmente importa.</p><h3><strong>4. Até onde a música é capaz de ir?</strong></h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*On2aPzPZh9p0d3iLWqNgtw.jpeg" /><figcaption>Pilger e Maranhão: não há fronteiras na música. E limites? (Andrea Testoni/<a href="http://www.edem.g12.br/parangoledem">Edem</a>)</figcaption></figure><p>Na mesa redonda assistida por mais de 80 alunos, pais e professores, bem poucos de nós do público interviemos, talvez pelo anseio geral de ouvir logo a <em>jam session </em>que viria depois (e com improvisos que foram de obras daqueles artistas a Villa-Lobos, num requinte sem par). Uma participante indicou a todos o documentário “Alive inside”, sobre o <strong>uso da música no combate à perda de memória. Eis um exemplo tocante da música como transformação</strong>.</p><p>Repercutindo indagações que nutri desde o início do papo, sondei os músicos sobre como foi para eles verem os filhos entrarem em contato com a música. Disseram-se cautelosos com a expectativa que pudessem (ou possam) ter sobre a presença dela na vida de cada um, mas houve quem, como Leo Gandelman, não escondesse o prazer de ver um filho explorar a arte que também é sua. João Cavalcanti, filho de Lenine, aproveitou para dar o testemunho que já citei sobre como evitou (em vão) não trilhar esse rumo. Pilger foi o mais direto: mais vale os filhos terem acesso à música e fazerem o que quiserem.</p><p>Quanto aos valores terapêutico e identitário da música, Cavalcanti costurou os dois ao narrar como a música propiciou um escape para sua avó paterna quando ficou viúva e, já senil, fez menção de recordar melodias de outrora por mais alheia que estivesse à perda do marido (as referências aqui me vêm da memória e espero não cometer imprecisão ao recuperar essa narrativa).</p><p>Fato é que se viu na ocasião um fio condutor para outros tempos sem perdas — na família ou na capacidade cognitiva. Um milagre talvez despontasse ali. Se não foi milagre, pode ter outro nome. Quiçá coincidência, quiçá mistério ou, simplesmente, música.</p><p><em>Quanto ao valor documentário da música, apresento reflexão sobre como o rock brasileiro se entrelaça ao país dos anos 1980/90 no capítulo “Pátria amada, não idolatrada” do recém-lançado volume 5 da coleção “Brasil Republicano” (org. Jorge Ferreira e Lucília de Almeida Neves Delgado, Civilização Brasileira). Para quem curte ler sobre história do Brasil ou nossa música, fica o convite à leitura.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=a151e99b7365" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/neworder/tres-certezas-e-uma-duvida-sobre-a-musica-a151e99b7365">Três certezas e uma dúvida sobre a música</a> was originally published in <a href="https://medium.com/neworder">NEW ORDER</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Da lama dos candidatos à dos eleitores]]></title>
            <link>https://medium.com/neworder/da-lama-dos-candidatos-a-dos-eleitores-7406c8038474?source=rss-9ee2a138958a------2</link>
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            <category><![CDATA[sociedade]]></category>
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            <category><![CDATA[política]]></category>
            <category><![CDATA[brasil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 17 Sep 2018 13:03:12 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-09-17T13:06:22.768Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*v9SKupNzpGnqiOI96kSb5Q.jpeg" /><figcaption>(foto: Michael Gaida/<a href="https://pixabay.com/pt/impress%C3%A3o-de-sapato-%C3%BAnico-3482282/">Pixabay</a>)</figcaption></figure><h4>Notícias falsas evidenciam vale-tudo pelo voto</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/640/1*4lnDtsOr9LwqpDAXF0t3FA.jpeg" /><figcaption>UOL perguntou a marqueteiros: <a href="https://tvuol.uol.com.br/video/da-para-vender-politicos-como-sabao-em-po-marqueteiros-famosos-respondem-04020D983372C0915326">“Dá pra vender políticos como sabão em pó?”</a></figcaption></figure><p>Saiu de moda dizer que a propaganda eleitoral vende candidatos como sabão em pó: tratados como produtos em embalagens coloridas e as ideias no segundo plano (marqueteiros políticos indicam que <a href="https://mais.uol.com.br/static/uolplayer/index.html?mediaId=15209314">a imagem faz sentido</a>). Em vez das campanhas-sabão, vivemos hoje campanhas-lama, frente a tanta sujeira de candidatos e, pasmem, eleitores. A moda extraoficial recente, aqui e no exterior, são as notícias falsas (ou mentiras com cara de notícia). Eis uma tendência ligada a outra também grave: o apego a crendices, que põe políticos e eleitores numa só lama.</p><h3><strong>Minorias obscurantistas influentes</strong></h3><p>Cresce no Brasil o obscurantismo que se vê, por exemplo, no debate do aquecimento global. A negação da crise climática, uma recusa à ciência, foi estudada em países de língua inglesa e se viu que só uma minoria nega a mudança climática (5% a 8% nos EUA, Reino Unido e Austrália). Porém, ela “pode ser influente em lançar dúvidas sobre a ciência, espalhando desinformação e impedindo o progresso nas políticas climáticas”, <a href="https://www.psychology.org.au/About-Us/What-we-do/advocacy/Advocacy-social-issues/Environment-climate-change-psychology/Resources-for-Psychologists-and-others-advocating/The-psychology-of-climate-change-denial">afirmou a Sociedade Australiana de Psicologia</a>.</p><p>O <strong>perverso efeito multiplicador de quem nega ciências e fatos</strong> pode gerar estragos até mais localizados e imediatos do que os negadores da crise climática. Nestas eleições presidenciais, há quem lance dúvidas, mesmo sem embasamento mínimo, <a href="http://www.redetv.uol.com.br/jornalismo/eleicoes2018/videos/eleicoes-2018/cabo-daciolo-acusa-e-provado-que-ha-fraude-nas-urnas-eletronicas">contra as urnas eletrônicas</a> ou até livro que não teve distribuição na rede escolar, mas é <a href="https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/livro-exibido-por-bolsonaro-no-jornal-nacional-nunca-foi-comprado-pelo-mec/">atacado como se tivesse sido distribuído</a>. Embora a acusação seja mentirosa, isso não impediu que ela fosse tão compartilhada. E pior: é só um dos tantos exemplos de inverdades que candidatos e eleitores propalam a sete ventos.</p><p>Um risco nada distante é os resultados das eleições de outubro serem afetados, tal como em eleições recentes em outras democracias, pelo que uns chamam de “política da pós-verdade”. Não que mentiras sejam novidades em campanhas eleitorais, óbvio, mas as novas tecnologias multiplicaram as possibilidades de elas se alastrarem.</p><h3><strong>Notícias podem ser como frutas</strong></h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/640/1*P-NiXMHeWpdx07-62J7LtA.jpeg" /><figcaption>(foto: uroburos/<a href="https://pixabay.com/pt/morangos-frutas-maduras-502650/">Pixabay</a>)</figcaption></figure><p>Tempos atrás, um amigo jornalista no Globo perguntou a um senador sobre a estratégia de sua campanha de disparar SMSs horas antes da votação para espalhar a postura pró-aborto de sua adversária e líder nas pesquisas de intenção de votos (embora fosse uma vinculação verídica, era injusto sugerir que a adversária usaria o cargo em defesa da causa). O senador alegou que se usam todas as armas a mão. Taí um político que disse uma verdade… Mas fez trabalho sujo.</p><p>Hoje, a lama eleitoral é maior porque os próprios eleitores, via redes sociais e grupos de Wapp, podem distribuir mentiras. <strong>Uma coisa é confiar no parente Fulano ou amigo Beltrano, outra é confiar na notícia feita por Sicrano e compartilhada pelos outros dois.</strong> Daí a importância de serviços jornalísticos de checagem, como os <a href="https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/12/16/Como-funcionar%C3%A1-o-sistema-de-checagem-de-not%C3%ADcias-falsas-do-Facebook">contratados pelo Facebook</a>. Mas nada nos dispensa de ver a procedência e qualidade de notícias que consumimos e compartilhamos.</p><p>Enfim, basta fazer com notícias sobre candidatos — e outras –, o que se faz ao comprar frutas e legumes na feira. Ninguém leva pra casa o primeiro morango ou tomate que vê pela frente; antes, olha-os por inteiro atrás de imperfeições e, se isso acontecer, deixa de lado de imediato. Se todos nós descartássemos notícias com algum tipo de mácula ou origem duvidosa, a lama seria menor.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=7406c8038474" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/neworder/da-lama-dos-candidatos-a-dos-eleitores-7406c8038474">Da lama dos candidatos à dos eleitores</a> was originally published in <a href="https://medium.com/neworder">NEW ORDER</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Baixando âncora após três continentes]]></title>
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            <category><![CDATA[imigrantes]]></category>
            <category><![CDATA[natal]]></category>
            <category><![CDATA[portugal]]></category>
            <category><![CDATA[historia-de-vida]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 16 Aug 2018 12:34:24 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-07-09T00:51:01.819Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4>Confeiteiro português encontra em Natal seu porto seguro</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/600/1*uAAVQt0JQzVsU3X3Lz60qQ.jpeg" /><figcaption>Miguel Gimenes imigrou no Brasil após trabalhar em outros cinco países</figcaption></figure><p>Portugal, Angola, Suíça, Espanha, Inglaterra… e Brasil. O confeiteiro português Miguel Gimenes já trocou muito de endereço, mas nunca se viu como imigrante. O dono da padaria Doce Portugal, com três filiais em Natal, não se identfca com o rótulo por ter em mente a imagem clássica do imigrante (alguém que se aventura num país estrangeiro sem garanta de prosperar). No seu caso, cada troca de país foi antecedida por propostas de trabalho que ele aceitou após muita avaliação.</p><p>Após ter vivido em Lisboa, em três das nove ilhas dos Açores, Luanda, Lausanne, Huelva e Londres, pesou ofertas de trabalho em Portugal, Suíça, Curitiba, Salvador… mas acabou optando por Natal, onde a oportunidade profssional acabou não o atendendo como desejava, mas, mesmo assim, foi ficando por um bom e um mau motvo. Este foi a falta de dinheiro para uma passagem de avião para sair da cidade. O bom motivo foi o convívio com a namorada com quem acabou casando.</p><p>Em conversa com Keylla no verão antes da Copa de 2014, Miguel fez um alerta: “Olha só, a gente tem que fazer qualquer coisa… Sem dinheiro, nunca vamos conseguir sair daqui”. Aquela convicção o fez comprar um bom forno e fogão e passar a fazer doces em casa. Sem carro, buscava a clientela a pé entre vários hotéis dessa cidade turística. Logo começou a fornecer doces a três hotéis locais. Só com sua disposição física — sem máquina alguma –, fazia pastéis de nata, croissants, sonhos etc.</p><p>Meses depois, acabou se tornando dono de padaria por acaso. Seu amigo Vagner, dono de um restaurante nascido no Ceará, quis investir nesse outro ramo, mas, com o tempo, viu que a padaria aberta não era sua praia. Miguel foi sondado a assumir o ponto, não tinha condição de pagar o aluguel, mas o amigo insistu e ele ficou sócio daquela padaria até poder chamá-la de sua.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*i88q1JazNEtX46OZo_6GaQ.jpeg" /><figcaption>Filial mais antiga da Doce Portugal, em Ponta Negra</figcaption></figure><p>Hoje, a padaria principal de Miguel não fica mais naquele endereço de Ponta Negra, onde Vagner e outros sócios ergueram um flat. Numa região cercada de hotéis, ele vê seu negócio atraindo tanto moradores como turistas, que podem escolher desde pratos portugueses à culinária nordestina de raiz, com macaxeira, inhame, cuscuz e outras opções. É uma casa portuguesa, com certeza, mas os sotaques na cozinha e salão são mais diversificados do que o número de países onde Miguel viveu.</p><p><em>Miguel Gimenes (Doce Portugal) foi entrevistado em julho de 2017, aos 40 anos</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=1e160369b493" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/sonho-e-p%C3%A3o/baixando-ancora-apos-tres-continentes-1e160369b493">Baixando âncora após três continentes</a> was originally published in <a href="https://medium.com/sonho-e-p%C3%A3o">Sonho e pão: sagas da imigração portuguesa no Brasil</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Atração pela cidade adotiva falando alto]]></title>
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            <category><![CDATA[portugal]]></category>
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            <category><![CDATA[imigrantes]]></category>
            <category><![CDATA[natal]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 08 Aug 2018 12:25:04 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-08-08T12:26:43.705Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4><strong><em>Paixão por Natal fez imigrante reinventar sua vida</em></strong></h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*TlyfotZD8U2lwK42zU9ptA.jpeg" /><figcaption>Sabores portugueses e nordestinos se encontram no bufê da padaria de Dina Silva (foto: álbum pessoal)</figcaption></figure><p>Sentada no salão da padaria numa via central de Ponta Negra, bairro nobre de Natal, a empresária Dina Silva se emociona ao lembrar de quando abriu a Boutique dos Sabores Padaria Portuguesa. Com voz carregada de emoção, ela teve muitas dúvidas logo antes da inauguração. “Meu Deus, o que estou aqui a fazer? Eu tenho tudo em Portugal, o que estou aqui a fazer?”, se indagou na hora.</p><p>A hesitação naquele setembro de 2011 vinha do contraste com o plano original de o emprendimento fazer parte de sua vida a dois. “Fiquei dois minutos com a chave na porta, sem saber se abria ou se não abria, e eu acho que a porta se abriu sozinha. Eu senti. Sou eu que vou abrir a loja sozinha, sou eu que vou ficar com a padaria sozinha. E Deus, com certeza, vai me fazer muito feliz aqui.” Seguiu com fé e nada falhou…</p><p>O primeiro contato com Natal foi de um investimento na construção de unidades do projeto Minha Casa Minha Vida na região metropolitana. Desde então, a cidade ensolarada a encantou. Quando decidiu migrar, Dina ouviu de muitos que tinha uma vida maravilhosa em Peniche, terra natal onde cuidava do restaurante do pai, mas nada a fez mudar de ideia. Sua paixão pela cidade adotiva, em especial por Ponta Negra, falou mais alto. “Sinto que me achei em Ponta Negra, eu acho que me lembro de brincar na praia de Ponta Negra, quando criança, sem nunca ter vindo a Ponta Negra, entende? [<em>risos</em>] Eu sinto Ponta Negra tanto no coração”, diz ela, cuja filha Raquel compartilhou sua mesma paixão pela cidade, ao contrário do irmão Artur, matriculado numa faculdade em Portugal.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/966/1*mn-jUf5YCdtM-PKC_9RWlw.jpeg" /><figcaption>Dina Silva: identificada em especial com Ponta Negra (foto: álbum pessoal)</figcaption></figure><p>Primeira emigrante da família, Dina diz ser vista como estrangeira em suas duas cidades à beira do Atlântico. Por mais que goste de Peniche, onde tem uma casa além do restaurante, Dina tem se identificado tanto com Natal que fica ansiosa para voltar após duas semanas fora. “Peniche é uma cidade de pescadores muito bonita, só que o clima… nos dias cinzas, estou triste e sou uma pessoa alegre, de bem com a vida”, frisa a natalense de coração, cheia de amigos da terra e da terrinha na cidade.</p><p>Entre os fornos da Boutique dos Sabores, Dina se envaidece ao exibir fornadas de pastéis de nata, uma das iguarias portuguesas sempre disponíveis no sortido bufê de café da manhã e nas demais refeições. A equipe na cozinha é chefiada por um português à frente de profissionais brasileiros que prezam pelo sabor de origem na massa de cada pão ou doce. Mas, assim como Dina, não abririam mão de sua vida na capital potiguar. Afinal, sabores podem ser exportados. Dias ensolarados, não.</p><p><strong><em>Dina Silva (Boutique dos Sabores) foi entrevistada em julho de 2017, aos 44 anos</em></strong></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=55c74656fbb4" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/sonho-e-p%C3%A3o/atracao-pela-cidade-adotiva-55c74656fbb4">Atração pela cidade adotiva falando alto</a> was originally published in <a href="https://medium.com/sonho-e-p%C3%A3o">Sonho e pão: sagas da imigração portuguesa no Brasil</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Operação Dias Contados]]></title>
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            <category><![CDATA[rio-de-janeiro]]></category>
            <category><![CDATA[sociedade]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <category><![CDATA[brasil]]></category>
            <category><![CDATA[politica]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 05 Jun 2018 12:27:57 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-06-05T14:49:58.916Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><em>Um novo tipo de foro privilegiado no STF ameaça o futuro da Lava Jato</em></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/646/1*QCbh0I9LEZ4tjmmrmtbGkQ.jpeg" /><figcaption>Supremo Tribunal Federal: Lava Jato sob ameaça (foto: STF, <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Stf_01.jpg">CC</a>)</figcaption></figure><p>E se a repressão a corruptores e corruptos de tenebrosas transações na Petrobras tivesse sido estancada no meio do caminho? Imagine o que teria (ou não) acontecido no país. Infelizmente, não é mais preciso forçar a imaginação para projetar tal cenário. Basta tirar o foco da Curitiba de poucos anos atrás para o Rio de Janeiro das últimas semanas.</p><p>Na sexta-feira esvaziada pelo feriado de Corpus Christi, uma decisão individual do Supremo Tribunal Federal libertou o empresário Orlando Diniz, presidente da Fecomércio-RJ, que gere Sesc e Senac-RJ, e escancarou a mais recente ameaça ao combate à corrupção no Brasil: o novo foro privilegiado, que dá exclusividade ao STF para julgar prisões preventivas ordenadas na primeira instância. Isso à revelia dos tribunais que deveriam julgar se as prisões são cabíveis — e onde tais decisões seriam colegiadas, e não monocráticas como nesse STF alheio às turmas.</p><p>O esvaziamento de uma instância (a 2a, no TRF2) e a supressão de outra (a 3a, no STJ) no caso de Diniz ficam até mais evidentes porque, na quarta-feira antes do feriado, o Tribunal Regional Federal da 2a Região tinha confirmado, pela unanimidade da 1a Turma, a necessidade da prisão preventiva desse réu por crimes associados à organização do ex-governador Sergio Cabral. E a 6a Turma do Superior Tribunal de Justiça nem chegou a analisar a liminar de seu ministro contra o habeas corpus. Não se trata, porém, de um episódio isolado. E o perigo mora justo nessa generalização da revogação de ordens de prisão confirmadas na segunda instância.</p><p>De 15 de maio a 1 de junho, nada menos que 15 réus e investigados da Força-tarefa Lava Jato/RJ foram soltos pelo ministro do STF cujo instituto, segundo o portal Jota, teve patrocínio da entidade presidida por Diniz. Eis um novo tipo de foro privilegiado; o tribunal que começou maio remetendo casos às instâncias inferiores fechou o mês negando a elas seu papel revisor.</p><p>Essa nova prerrogativa parece tanto ter vindo para ficar (e abalar o então crescente combate à corrupção no país) que o TRF sem direito de revisar decidiu, ainda na tarde em que “manteve” a prisão de Diniz, que não vai mais julgar habeas corpus de réus ou investigados libertados pela assinatura de um ministro do STF. Tal perda de objeto é resultado de uma situação sui generis.</p><p>Na véspera do feriado, quando não fazia ideia de que negou à toa um pedido de soltura, a 1a turma do TRF2 mostrou desconforto com sua mutilada liberdade de julgar. Um desembargador disse ter perdido tempo redigindo o voto, mas o leria por fazer questão de se expressar. Outro ponderou que, se a decisão do STF fosse questionada por eles, pareceria esperneio e que eles ali estavam “muito velhos para isso”.</p><p>Na singular sessão, a representante do Ministério Público Federal fez um diagnóstico a se lamentar: parece superada a súmula vinculante segundo a qual o STF só analisa os HCs contra decisões de primeira instância em caso de manifesta ilegalidade.</p><p>Enquanto isso, cada nova soltura de réu ou investigado da Lava Jato, não só do Rio, é recebida pela opinião pública com a indiferença de quem enfileira peças de dominó para matar o tédio. Em vez de um passatempo, porém, está em jogo a continuidade de um trabalho valoroso para pôr as relações entre estado e mercado em termos mais éticos, em dia com a livre competição.</p><p>Para saber o que esperar agora, relembre-se um caso não tão distante da luta anticorrupção. No caso ‘Propinoduto’, revelado em 2002 quando havia menos técnicas de investigação à disposição, o fiscal de rendas Rodrigo Silveirinha orbitava em torno de gente como Cabral, foi pego com U$8,7 milhões num banco suíço e segue impune. Na Suíça, dirigentes do banco que permitiram a lavagem de dinheiro foram investigados, processados, condenados e cumpriram pena. No Brasil, temos dificuldade até em avançar da primeira à segunda fase dessa sequência.</p><p><em>Artigo publicado originalmente no Blog do Fausto Macedo (</em><a href="http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/operacao-dias-contados/"><em>estadao.com.br</em></a><em>)</em></p><p><em>Mario Grangeia, analista de Comunicação do Ministério Público Federal e doutor em Sociologia (UFRJ)</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=51711d28f878" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/neworder/opera%C3%A7%C3%A3o-dias-contados-51711d28f878">Operação Dias Contados</a> was originally published in <a href="https://medium.com/neworder">NEW ORDER</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Belo relato, Cláudia.]]></title>
            <link>https://medium.com/@mario.grangeia/belo-relato-cl%C3%A1udia-c6a5ed25a2ed?source=rss-9ee2a138958a------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 05 Jun 2018 12:16:50 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-06-05T12:16:50.278Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Belo relato, Cláudia. Babá é mesmo um assunto que divide opiniões porque há todo tipo de profissional… Meus pais deram tanta sorte com minha babá Vera que ela, mais de 30 anos depois, foi chamada pra ser a babá do meu sobrinho. Em NY ou Laranjeiras, nada como ter gente de confiança pra ajudar a carregar certos pesos da paternidade e compartilhar algumas de suas tantas dádivas :-)</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c6a5ed25a2ed" width="1" height="1">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Da mesa de bar à sala de aula]]></title>
            <link>https://medium.com/neworder/da-mesa-de-bar-a-sala-de-aula-38aa920b2e9d?source=rss-9ee2a138958a------2</link>
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            <category><![CDATA[sociedade]]></category>
            <category><![CDATA[educação]]></category>
            <category><![CDATA[brasil]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <category><![CDATA[voluntariado]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 23 May 2018 12:36:23 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-05-23T12:36:23.441Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/800/1*bvqojiswEjgjx_2jWqJf7g.jpeg" /><figcaption>Mesas do Plebeu e do Invest: ideia nascida no bar se concretizou no curso (fotos: TripAdvisor e <a href="https://www.facebook.com/cursoinvest/photos/rpp.119117338196658/277727975668926/?type=3&amp;theater">Facebook</a>)</figcaption></figure><p><em>Curso InVest celebra 20 anos de lições para alunos, voluntários e todos nós</em></p><p>Duas décadas atrás, num pé-sujo de esquina da zona sul carioca, cinco amigos se encontraram e, ao contrário do habitual, não jogaram só conversa fora nas rodadas de petiscos e chopes. Nesse papo, os recém-calouros da UFRJ e UERJ egressos do renomado colégio Santo Inácio conversaram sobre como evitar que só gente de famílias com renda e escolaridade altas como eles entrasse em boas faculdades. <strong>A inquietação deles não se restringiu àquela mesa de bar.</strong></p><p>Eis o ponto de partida incomum do<strong> </strong><a href="https://www.facebook.com/cursoinvest"><strong>Curso InVest</strong></a><strong>, iniciativa mais bem-sucedida que conheço de perto para contribuir ao acesso de alunos de baixa renda à universidade</strong> (<em>v. trajetória </em><a href="https://cursoinvest.wordpress.com/historia/"><em>aqui</em></a>). Aliás, uma instituição de que muito me orgulho de ter sido professor voluntário em ótimos oito anos letivos. (Conheci numa distante tarde de sábado em que dividi a aula de redação que um amigo dava; anos depois, uma amiga cuja mãe e o irmão eram professores lá divulgou uma vaga para dar aulas de geografia e me atrevi a preenchê-la — não sem estudar de novo cada tópico após oito anos longe do ensino médio.)</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*bqS2oKSpxxB5e4DUgV_jcw.jpeg" /><figcaption>Das carteiras do curso às da universidade: sorrisos na sala de aula ainda no antigo anexo do CSI (foto: InVest)</figcaption></figure><h4>“A gente só dá uma mãozinha e te ajuda a não desistir”</h4><p>Com essa frase, docentes do InVest concluíram a resposta à carta de um ex-aluno que em 2012 lhes agradecia como não fizera antes. <strong>A manifestação de gratidão de Alan Valentin foi só uma das tantas recebidas pelo curso:</strong></p><blockquote>“(…) Os anos se passaram e nunca tive a chance de dizer ao corpo docente do InVest (vocês que fazem o InVest acontecer) o quanto sou grato pela amizade a mim ofertada em forma de aulas e dedicação. Pessoas essas (você, Frota, Rita e tantos outros que estão ou que passaram pelo InVest) que fazem a diferença a curto e longo prazo na vida de tantos outros que como eu passam pelo InVest, passam no vestibular e seguem suas vidas… <br> (…) É isso o que vocês fazem: promover pessoas através da formação, doando o que vocês têm de melhor que são seus conhecimentos.”<em> (v. </em><a href="https://cursoinvest.wordpress.com/2012/01/24/a-carta-do-alan/"><em>carta</em></a><em>)</em></blockquote><p>Este texto aqui poderia abordar como o InVest fez diferença na vida de centenas de alunos e ex-alunos como o Alan (outros casos exemplares foram contados no <a href="https://globoplay.globo.com/v/6238536/programa/">Jornal Nacional</a>, <a href="https://odia.ig.com.br/noticia/educacao/2015-06-20/mulheres-e-negros-sao-maioria-no-enem.html">O Dia</a>, <a href="http://g1.globo.com/educacao/enem/2014/noticia/2014/11/sob-bencaos-do-cristo-jovem-do-dona-marta-estuda-para-o-enem.html">G1</a>…). Mas um texto assim teria mais vocação para livro do que para post de blog. <strong>Meu foco está na diferença que o InVest fez a quem estava do outro lado da sala de aula (e até fora dela).</strong></p><p>Falando nisso, vale dizer que o maior reconhecimento público ao Curso InVest foi <strong>ganhar, quando ainda tinha seus 13 anos e meio, o prêmio Faz Diferença, do Globo, na categoria País, a partir de votação popular entre finalistas escolhidos por jornalistas</strong>.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/160/1*NCOTlntihLkMnHobZK1cZw.jpeg" /><figcaption>(foto: <a href="https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/pre-vestibular-comunitario-as-licoes-de-quem-ja-chegou-la-em-1-lugar-4771117">O Globo</a>)</figcaption></figure><p>Na cerimônia de premiação, o ex-aluno Getulio Fidelis, cientista social e coordenador do curso, fez um discurso que emocionou o público presente ao hotel mais renomado da cidade:</p><blockquote>“Esta é a segunda vez que venho ao Copacabana Palace. A primeira, em 2003, ainda estudante, eu vim como office-boy para entregar uma correspondência a um hóspede. Eu não estava de terno e gravata. Graças à educação, hoje eu estou aqui, de terno e gravata, recebendo este prêmio” <em>(v. </em><a href="http://memoria.oglobo.globo.com/institucional/promocoes/precircmio-faz-diferenccedila-2011-9ordf-ediccedilatildeo-13385294"><em>notícia</em></a><em>)</em></blockquote><p>Em declaração mais recente, ao Jornal Nacional, ele fez um comentário sobre as trocas com alunos mais velhos que valem para esse público, mas não só ele:</p><blockquote>“É tão rica essa troca entre professores e alunos, esses alunos com maturidade, que favorece o caminhar. Porque esse caminhar é um caminhar junto.” <em>(v. </em><a href="https://globoplay.globo.com/v/6238536/programa/"><em>vídeo</em></a><em>)</em></blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*mQDvZ1Ci3o6yIg3G3_XD2w.jpeg" /><figcaption>Fabio Campos e Getulio Fidelis recebem o prêmio Faz Diferença, hoje na secretaria do curso (foto: O Globo)</figcaption></figure><h3><strong>Uma mão entrega, a outra recebe</strong></h3><p>Mais do que as falas do Getulio e a carta do Alan, merece atenção a réplica do InVest a este ex-aluno: “a gente só dá uma mãozinha e te ajuda a não desistir”.</p><p>Enquanto pensava em lições que o InVest deixa a voluntários, ex-voluntários e outros cidadãos, <strong>contatei ex-coordenadores do curso que resumiram, até com mais propriedade do que eu, algumas lições do InVest aos 20 anos.</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/160/1*rocK53oPNBG_29IVs6sKmA.jpeg" /><figcaption>(foto: <a href="https://vejario.abril.com.br/cidades/rafael-frota-atua-no-pre-vestibular-comunitario-invest/">Veja Rio</a>)</figcaption></figure><p>Rafael Frota</p><p>(professor de História e ex-coordenador-geral do curso):</p><ul><li><strong>Dedicar tempo ao outro (apesar da correria)</strong></li><li><strong>Acreditar na educação</strong></li><li><strong>Acreditar no potencial do outro</strong></li><li><strong>Trabalhar em grupo</strong></li><li><strong>Ter confiança</strong></li></ul><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/160/1*_0X-Y8lb_YdtEMgr4K-xKA.jpeg" /><figcaption>(foto: <a href="https://twitter.com/ritajobim">Twitter</a>)</figcaption></figure><p>Rita Jobim</p><p>(cofundadora e ex-coordenadora-geral e de Português):</p><ul><li><strong>Acreditar em uma ideia e persegui-la</strong></li><li><strong>Que é importante “profissionalizar” o trabalho do voluntário, no sentido de cobrar qualidade e compromisso</strong></li><li><strong>Que é importante reconhecer e atuar na diversidade (de interesses, desempenho acadêmico, trajetória prévia etc.)</strong></li><li><strong>Que qualquer projeto de logo prazo deve manter aberto o seu espírito autoquestionador, sempre se perguntando e reafirmando (ou não) seus fundamentos</strong></li><li><strong>Que sem valores claros é impossível montar um time coeso e direcionado a um objetivo comum.</strong></li></ul><p>Não foi à toa que Rita e Frota foram dois nomes citados pelo Alan na carta de agradecimento como exemplos de gente que faz diferença. A lista com as contribuições dos dois foi tão fiel que só posso reforçar o que eles destacaram. Em comum, ressaltaram algo que, para mim, foi a maior lição: <strong>o trabalho voluntário não é nem nunca deve ser considerado um trabalho menor, pois exige tanta disposição e profissionalismo quanto os remunerados.</strong></p><p>Essa valorização do voluntariado é tão marcante em quem atua no InVest (e bem poderia marcar também os demais cidadãos) que seria igualmente frisada, em resposta a minha consulta, por outro ex-colega que tive no curso:</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/160/1*popXqtzIl3QvQaB7pvSYMg.jpeg" /><figcaption>(foto: <a href="https://www.linkedin.com/in/fabio-campos-02434b16/">LinkedIn</a>)</figcaption></figure><p>Fabio Campos</p><p>(cofundador e ex-coordenador-geral):</p><blockquote>“O InVest ajuda a inverter uma ordem estabelecida em que alunos abastados ‘podem’ e alunos de baixa renda ‘precisam’. Quando nós, fundadores, abrimos as portas para que ex-alunos se tornassem voluntários e até mesmo coordenadores gerais, mostramos que eles podem até mais do que a gente.</blockquote><blockquote>Também ensina que ser voluntário não é igual a fazer caridade. Para trabalhar lá, não funciona o ‘ah, eu vou quando puder’ ou ‘já dediquei tanto meu tempo que se eu faltar tudo bem’. Não. Ser voluntário envolve mais do que fazer caridade e demanda mais do que um emprego. Ser voluntário é ser dedicado ao outro na medida do que o outro precisa, e não do que você imagina poder dar. Para isso, qualificar o trabalho voluntário é tão importante para todo o time do Invest.”</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*Ttgwzi-Y2erWQG5oo5C3fg.jpeg" /><figcaption>Decano da equipe na sede atual: Sergio Boscardin (centro) completou 1.000 horas de aulas no Invest, em 2015</figcaption></figure><p>Eis talvez a receita (ou uma delas) para o sucesso do InVest:<strong> essa lógica de aliança entre uns que sabem algo mais e outros que ainda sabem menos é decisiva ao êxito de centenas de alunos e ex-alunos ao longo dos anos</strong>. Quando o professor vê o aluno como seu aliado e vice-versa (sem se olharem como mestre e assistido ou algo assim), não falta à aula sem deixar substituto — vi tantos colegas veteranos do curso se desdobrarem para não haver turma sem aula. Tampouco o aluno com o professor como aliado não hesitará em dar feedbacks a ele sobre o curso (ouvi até bronca de representante de turma por não ter intervido contra conversas paralelas, dei toda a razão e tentei mudar).</p><p>De tantas lições lindas que aprendi nas salas de um anexo nem sempre notado do Colégio Santo Inácio (primeiro, no prédio antigo; depois, no ainda novo), as principais que carreguei não ficaram só na minha mochila (para usar uma metáfora cara ao antiherói de “Amor sem escalas” recuperada em <a href="http://primaverade87.com.br/2016/06/amor-sem-escalas-o-que-voce-leva-na-mochila/">outro blog</a>).</p><p>Quando vejo lições que o Getulio, Frota, Rita e Fabio carregaram com eles — e uma enquete com outros colegas não teria dado resultado tão distinto —, vejo que<strong> talvez haja mais em comum entre mesas de bar e salas de aula do que poderia parecer à primeira vista</strong>. Nada mais válido no InVest do que a velha máxima boemia dos custos compartilhados: “sentou, pediu, a conta dividiu”.</p><p><em>Esta é uma singela homenagem pelo jubileu de porcelana do curso onde aprendi a ser professor. Iniciativa tão exitosa da sociedade civil, o InVest comprova como poucos que a desigualdade é um desafio não só dos governos, mas de todos nós… Adoraria ter mais histórias de projetos assim pra contar (dicas são bem-vindas).</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=38aa920b2e9d" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/neworder/da-mesa-de-bar-a-sala-de-aula-38aa920b2e9d">Da mesa de bar à sala de aula</a> was originally published in <a href="https://medium.com/neworder">NEW ORDER</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Ter filhos não é obrigatório (todos sabem, mas vale reforçar)]]></title>
            <link>https://medium.com/neworder/ter-filhos-nao-e-obrigatorio-todos-sabem-mas-vale-reforcar-eb3580861a04?source=rss-9ee2a138958a------2</link>
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            <category><![CDATA[pais-e-filhos]]></category>
            <category><![CDATA[cultura]]></category>
            <category><![CDATA[mulher]]></category>
            <category><![CDATA[maternidade]]></category>
            <category><![CDATA[livros]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mario Luis Grangeia]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 10 Mar 2018 19:01:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-03-10T19:01:00.774Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*vFXq72eUmvrZxVOL4-egeA.jpeg" /></figure><h4><strong>“Mães arrependidas” põe dedo na ferida, ou melhor, em tabu global</strong></h4><p><em>(Dedicado à minha filha Lila, vivendo seu primeiro Dia Internacional da Mulher)</em></p><blockquote>“As pessoas me perguntam: ‘você gosta de ser mãe’? E eu abro um sorriso forçado, porque o que posso dizer a elas? Que estou infeliz? Que é difícil? Que quero a minha mãe?” (Mãe de um filho entre 1 e 5 anos)</blockquote><blockquote>“Eu achava que queria ser mãe, mas não queria. (…) É muito difícil saber até estar naquela posição, muito difícil saber como eu reagiria… e não dá pra fazer um teste.” (Mãe de dois filhos entre 1 e 5 anos)</blockquote><p>A vida é feita de ciclos. Mas eles variam para cada um de nós, embora tanta gente insista, por exemplo, em perguntar aos jovens sobre quando vão se casar, ter filho e depois outro filho etc. Como se todas as vidas seguissem um roteiro único, mudando apenas personagens e locações.</p><p>As mães que deram os depoimentos acima são exemplos da perversa difusão da crença de que a identidade feminina e a maternal se confundem. Nada mais errado. Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, me parece instigante abordar ideias discutidas pela socióloga israelense Orna Donath no recente <strong><em>Mães arrependidas</em></strong><em>: uma outra visão da maternidade</em> (Civilização Brasileira).</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/190/1*oewH64-rrZogNslqKsPflQ.jpeg" /></figure><p><strong>O X da questão é a recorrência do discurso de que a maternidade é um passo garantido rumo à felicidade. </strong>Com suas entrevistas em profundidade com 23 mães de várias idades (inclusive avós), a autora viu de perto o estrago da recusa de todos nós, como sociedade, em reconhecer o arrependimento delas e de tantas. Não dá para ficar indiferente às falas transcritas, que vão do desconforto pelo papel de mãe ao fatalismo em apressar a segunda gravidez:</p><blockquote>“Mexe com você, é claro. E esse amor, esse apego é o que me faz querer que nada de mal lhes aconteça. Mas, por outro lado, não me sinto à vontade.” (Mãe de três filhos entre 5 e 10 anos)</blockquote><blockquote>“Estava claro que eu tinha que ter outro filho, porque sim. Porque você não pode ter apenas um. Dois anos e meio depois, eu disse a mim mesma: ‘Tudo bem, vamos acabar logo com isso.” (Mãe de um filho entre 5 e 10 anos e outro entre 10 e 15 anos)</blockquote><p>Quanto ao desejo expresso em “vamos acabar logo com isso”, é notável a percepção corrente de que, quanto mais cedo a mãe decide deixar de lado seu tempo pessoal em nome do tempo familiar, mais rápido vai tê-lo de volta. <strong>A intenção de ter filhos em sequência revela um desejo paradoxal: o de dar um fim à maternidade o quanto antes, embora saibam que ela não acaba</strong>.</p><p>Muita gente julga impossível uma mãe arrependida da maternidade dizer que ama seus filhos, mas aceita alguém dizer que se arrepende por conhecer uma pessoa que ainda ama. “Pode ser o caráter sagrado da maternidade que impede que se leve em conta que uma mãe pode amar ao mesmo tempo que reconhece que esse amor pode ter consequências inesperadas e até mesmo afetar para sempre uma vida”, frisa a autora no capítulo “Experiências de maternidade e práticas de arrependimento”, cujo subtítulo é bem direto: “Viver com um sentimento ilícito”.</p><p>São muitas as questões propostas por Orna Donath e elas incluem:</p><p>• Como a transição para a maternidade dá origem ao arrependimento?</p><p>• Em que medida os ditames da sociedade se chocam com as experiências das mulheres?</p><p>• Como expectativas sociais com as imagens de “boa mãe” e “mãe ruim” dividem as mulheres?</p><p>• Entre o silêncio e o discurso, como as mães arrependidas se situam?</p><p>• Seria a satisfação na maternidade uma questão de ter ou não condições?</p><p>Muito pode ser dito sobre essas questões. <strong>E o maior mérito da autora foi dar voz às mães que enfrentaram cada uma delas, em vez de focalizar discursos de terceiros, como políticos e religiosos.</strong> Até porque cada um prefere guardar para si sua opinião sobre o tema — o que é uma pena, claro.</p><p>Nestes tempos atuais, em que se desfaz o silêncio sobre tantos tabus ligados a mulheres, seria muito bem-vindo que o debate aberto pela socióloga não fique restrito às páginas de seu livro.</p><p>(Se preferir saber do livro pela ótica da autora, há ótimas entrevistas no <a href="http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2017/12/18/maes-arrependidas-de-orna-donath/">blog da editora</a>, onde ela considerou muito romântica e mítica a noção da maternidade como “natural”, e no <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/27/estilo/1477586348_982538.html">El País</a>, onde ela negou a existência do instinto materno e contou que foi insultada como “uma mulher vazia, uma velha solitária rodeada de gatos” por ter preferido não ser mãe.)</p><p><strong><em>Mario Luis Grangeia</em></strong><em> é jornalista, doutor em Sociologia e autor de “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática” (Civilização Brasileira)</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=eb3580861a04" width="1" height="1"><hr><p><a href="https://medium.com/neworder/ter-filhos-nao-e-obrigatorio-todos-sabem-mas-vale-reforcar-eb3580861a04">Ter filhos não é obrigatório (todos sabem, mas vale reforçar)</a> was originally published in <a href="https://medium.com/neworder">NEW ORDER</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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