<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:cc="http://cyber.law.harvard.edu/rss/creativeCommonsRssModule.html">
    <channel>
        <title><![CDATA[Stories by Sophie Nadas on Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Stories by Sophie Nadas on Medium]]></description>
        <link>https://medium.com/@sophie.nadas?source=rss-f617d58864a1------2</link>
        <image>
            <url>https://cdn-images-1.medium.com/fit/c/150/150/1*Ug8yXtEFO2HC0TyADMiRHw.jpeg</url>
            <title>Stories by Sophie Nadas on Medium</title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas?source=rss-f617d58864a1------2</link>
        </image>
        <generator>Medium</generator>
        <lastBuildDate>Fri, 15 May 2026 08:39:18 GMT</lastBuildDate>
        <atom:link href="https://medium.com/@sophie.nadas/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/>
        <webMaster><![CDATA[yourfriends@medium.com]]></webMaster>
        <atom:link href="http://medium.superfeedr.com" rel="hub"/>
        <item>
            <title><![CDATA[Me conta mais uma, mãe, antes de dormir.]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/me-conta-mais-uma-m%C3%A3e-antes-de-dormir-5acc7efbf93f?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/5acc7efbf93f</guid>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 30 Dec 2022 22:26:03 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2022-12-30T22:26:03.963Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>No seu último dia, ela sonhava com as ondas.</p><p>Sentia a maré nos calcanhares, e esperava. Eram silenciosas, como costumavam ser.</p><p>A água escorria. Não era nem fria nem quente. Sentia apenas que se movia. A areia que flutuava roçava na sua pele, anunciando uma mudança.</p><p>Nos sonhos, ela já estivera naquelas praias e as ondas nunca chegavam à costa. Suas sombras limitavam-se a pairar no horizonte, um pouco antes de sumir de vista. Mesmo daquela distância, via-se como eram enormes.</p><p>Estivera naquela costa mais vezes do que ousaria lembrar. Nunca antes sentira a água escorrer, nem vira o movimento sutil, mas certeiro, que aquelas ondas mudas traziam consigo.</p><p><em>Aonde você vai?</em></p><p>Uma voz de criança surgiu em seus ouvidos. Era impressão sua, ou teria certeza que a havia ouvido brincando ao longe antes? Talvez agora fosse tudo silêncio novamente.</p><p>A água escorria. Mal chegava na altura de seus dedos. Ao virar-se para frente, percebia que a sombra ocupava todo o horizonte.</p><p><em>Por que você está indo embora?</em> – espantou-se e procurou a voz ecoante ao seu lado. A praia escurecia.</p><p>A onda aumentava, ocultando mais e mais o céu cinzento. Apenas a aspereza da areia ficara sob seus pés, arranhando com o puxar da água.</p><p><em>Você está com medo?</em> – a voz aproximava-se. Sentia a respiração bem atrás de seus cabelos, um hálito morno, um cheiro molhado.</p><p>Ela precisava erguer ligeiramente a cabeça para ver a crista da onda. Talvez tivesse afundado um pouco, mas de que importava? Pensou em fechar os olhos quando ouviu a voz à sua frente:</p><p><em>Eu tenho medo de não saber viver sem você.</em></p><p>Minha mãe me olhou nos olhos. Seu rosto estava escurecido, porém, conseguia enxergar o brilho neles ainda. Ela sorriu enquanto tocava no meu rosto.</p><p>Ela não respondeu nenhuma daquelas perguntas. Não pronunciou nenhuma palavra.</p><p>Fechei os olhos no momento que ela entrou na água de breu, e o mar deixou a onda seguir seu rumo para outros horizontes.</p><p>Eu me sento naquela praia calada quando sonho, esperando a onda voltar. Eu me lembro de seus olhos fechados ao amanhecer.</p><p>Quando pedi para ir junto de você, mãe, antes de te presentearem com a escuridão final, não tive retorno.</p><p>Mas certamente tive uma resposta.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5acc7efbf93f" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Resenha — “Anarquistas, graças a Deus”, de Zélia Gattai]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/resenha-anarquistas-gra%C3%A7as-a-deus-de-z%C3%A9lia-gattai-cbf543b26c8d?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/cbf543b26c8d</guid>
            <category><![CDATA[literatura-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 08 Aug 2020 02:05:21 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-08T02:05:21.583Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Resenha — “Anarquistas, graças a Deus”, de Zélia Gattai</strong></p><blockquote><strong>Título:</strong> Anarquistas, graças a Deus</blockquote><blockquote><strong>Autor:</strong> Zélia Gattai</blockquote><blockquote><strong>Nota:</strong> 5/5</blockquote><blockquote><strong>Gênero:</strong> Autobiografia, memórias</blockquote><blockquote><strong>Editora:</strong> Record</blockquote><blockquote><strong>Páginas:</strong> 271</blockquote><blockquote><strong>Publicação:</strong> Rio de Janeiro, 1980</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/845/1*hsiF1VHT_KYCzYBCGDLfGQ.jpeg" /><figcaption>“Se no livro [<em>A Divina Comédia</em>, de Dante Alighieri] haviam frases que escandalizavam Vera, havia outras que enterneciam Wanda. Uma delas era sempre repetida por ela, onde quer que estivesse: ‘Perdúto é túto il tempo ch’il amore non se spende…’ “ (pp. 126)</figcaption></figure><p>Para uma paulistana historiadora que adora turistar pela cidade, este livro foi um prato cheio, com direito a alegrias e surpresas mil. Conhecer o modo como a história da cidade se modelou através dos atos dos cidadãos, não apenas dos políticos ou das grandes empresas, é inspirador e empolgante.</p><p>O livro trata das memórias de infância de Zélia Gattai (1916–2008), escritora brasileira (ou, como ela preferiria se descrever, memorialista atrevida), filha de imigrantes italianos do final do século XIX — é interessante notar a diferença que a própria autora destaca destes para com os imigrantes da década de 1930: os primeiros fugiam da miséria e da fome, procurando o Milagre que propagandas brasileiras faziam; os segundos, fugiam do governo autoritário e fascista de Mussolini, e vinham para trabalhar nas cidades, sendo os moradores dos bairros do Brás, Bixiga e Mooca. Todavia, seus pais eram anarquistas, e criaram os filhos como tais.</p><p>Esse foi o livro de estreia da autora, escrito também por incentivo do marido, aos 63 anos — e a quantidade de detalhes é impressionante. Nos lembra uma longa conversa num café com uma amiga, ou, às vezes, aquelas histórias que a avó conta, nostálgica. É possível sentir as emoções a cada frase, algo que, mesmo com a experiência da vida, o tempo não conseguiu apagar.</p><p>Sua infância foi recheada de pessoas — numa família grande, em um bairro movimentado, Zélia recebia desde muito cedo, a prova de cada alegria, cada tristeza, cada frustração e surpresa que a aurora da vida nos pode proporcionar. A morte, presente desde terna idade, é mostrada naturalmente como algo que devemos aceitar mais cedo ou mais tarde; porém, em momento algum ela deixa de relatar o choque, a negação e toda a carga de sentimentos que tal fato acarreta em uma pessoa tão jovem. Do mesmo modo, narra as situações em tom deveras cômico, como se ainda visse a vida e suas lembranças com olhos de criança.</p><p>Anarquismo jamais foi sinônimo de algo desordeiro para Zélia (ela até conta como foi espantoso quando ouviu pela primeira vez, da boca de sua professora, o termo utilizado para designar ‘bagunça’), e, apesar de claramente utópico, era um sonho a ser perseguido e pelo qual valia a pena lutar. Foram seus ideais que a aproximaram da leitura ávida, e foram esses dois fatos que a aproximaram de Jorge Amado, com quem viveu por 56 anos. Seu atrevimento e vontade de viver a levaram longe, e suas memórias, tão entusiasmadas, seguirão.</p><p>Esta resenha foi escrita em Agosto de 2016, como parte de um brevíssimo blog sobre literatura que experimentei na Moça dos Livros. Podem ler no link original <a href="http://mocados-livros.blogspot.com/2016/08/resenha-anarquistas-gracas-deus-de.html">aqui</a>.</p><p>Estou publicando essas resenhas no Medium anos depois, pois sinto que talvez aqui elas tenham mais visibilidade. No entanto, mantive as resenhas intocadas (exceto por pequenos erros de ortografia). Opiniões podem ter se alterado pelo caminho.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=cbf543b26c8d" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Resenha — “As Vantagens de Ser Invisível”, de Stephen Chbosky]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/resenha-as-vantagens-de-ser-invis%C3%ADvel-de-stephen-chbosky-b1326492f436?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/b1326492f436</guid>
            <category><![CDATA[literature]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 08 Aug 2020 02:01:03 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-08T02:01:03.013Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Resenha — “As Vantagens de Ser Invisível”, de Stephen Chbosky</strong></p><blockquote><strong>Título:</strong> As Vantagens de Ser Invisível</blockquote><blockquote><strong>Autor:</strong> Stephen Chbosky</blockquote><blockquote><strong>Nota:</strong> 4/5</blockquote><blockquote><strong>Gênero:</strong> Romance estadunidense, juvenil</blockquote><blockquote><strong>Editora:</strong> Rocco</blockquote><blockquote><strong>Páginas:</strong> 223</blockquote><blockquote><strong>Publicação:</strong> Rio de Janeiro, 2007</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/640/1*kBSk5geu-cLTbSEdTIof4A.jpeg" /><figcaption>“Fiquei confuso o dia todo.” (pp. 118)</figcaption></figure><p>Um livro em que o protagonista admite mentir desde o início, já que traz apenas seu lado da história — de um adolescente perdido nos seus sentimentos — e com explicações complexas da psique dele pode parecer um tanto kafkiano; entretanto, somado à tais críticas, está o modo gentil de perceber o mundo, pintando detalhes tal como faz o personagem de <em>O Pintassilgo</em>, de Donna Tartt.</p><p>Podemos reconhecer, na narrativa do protagonista Charles, detalhes referentes à vida do autor. Stephen Chbosky, nascido na Pensilvânia em 1970, foi na juventude um ávido leitor da boa (e da não tão boa) literatura americana, alguns dos títulos citados ao longo de seu romance. Criado como católico, desabafa sobre ser religioso numa época em que a religião estava “por fora”, e movimentos estudantis eram a febre no momento. Seu estilo se deve muito ao encontro que teve com o roteirista do clássico “Rebelde sem Causa”, Stewart Stern, seu mentor e amigo. O romance epístola (em forma de cartas) veio depois de anos de direção de filmes e séries, e foi um sucesso instantâneo.</p><p>De certa forma, é fácil se identificar com o mundo de Charles/Stephen, pois, tirando o fato de ninguém mais gravar fitas um para o outro (será que alguém sabe fazer isso ainda?), é difícil distinguir o que de fato mudou da década de 1990 para os anos 2010. Todavia, não é qualquer um que se identifica com o personagem — e talvez a explicação esteja no fato de que seus problemas descendem de graves distúrbios sofridos na infância.</p><p>A meta de Charles é amar e ser amado, e a tarefa mais difícil certamente é a segunda. Afinal, como percebemos ao longo do livro, ele sabe reagir bem quando é irritado, quando está triste, até quando está ‘doidão’ — mas quando se apaixona, é um vazio de respostas. Ele observa o mundo ao seu redor, e, como o título original sugere (<em>wallflower</em>), apenas fica na parede, quieto. Mesmo quando começa, inesperadamente e sem querer, a namorar, ou quando sua irmã fica grávida, ou quando o amor de sua breve vida lhe diz que não o ama. Situações que, infelizmente, conheço de perto e pude sentir seu aperto no coração.</p><p>Charles, ou seja qual for o seu nome, é a personificação de muitos jovens e adolescentes que, por muito sentirem e pouco saberem o que fazer em relação a isto, são taxados de esquisitos. Ouçamo-los com mais clareza. Leia as cartas de Charles, sendo ao mesmo tempo esponja e filtro delas. Há uma luz nelas, uma canção que jamais deve ser silenciada.</p><p><strong>EXTRA</strong>: Uma lista de outros livros citados ao longo da história, caso tenha curiosidade em procurá-los (sem ordem de aparição ou predileção).</p><ul><li><em>To Kill a Mockingbird</em> (O Sol É Para Todos), por Harper Lee</li><li><em>This Side of Paradise</em> (Este Lado do Paraíso), por F. Scott Fitzgerald</li><li><em>A Separate Peace</em> (Uma Ilha de Paz), por John Knowles</li><li><em>Peter Pan,</em> por J. M. Barrie</li><li><em>The Great Gatsby</em> (O Grande Gatsby), por F. Scott Fitzgerald</li><li><em>The Catcher in the Rye</em> (O Apanhador no Campo de Centeio), por J. D. Salinger</li><li><em>On the Road</em> (Pé na Estrada), por Jack Kerouac</li><li><em>Naked Lunch</em> (Almoço Nu), por William S. Burroughs</li><li><em>Walden,</em> por Henry David Thoreau</li><li><em>Hamlet,</em> por William Shakespeare</li><li><em>The Stranger</em> (O Estrangeiro), por Albert Camus</li><li><em>The Fountainhead</em> (A Nascente), por Ayn Rand</li></ul><p>O livro também faz referência a um livro de poemas por E. E. Cummings, “The Mayor of Castro Street” por Randy Shilts, um livro de Anne Rice, e uma autobiografia de uma mulher que era um personagem em Reds, provavelmente Emma Goldman. O poema “A Person / A Paper / A Promise”, por Dr. Earl Reum, também é mencionado.</p><p>Esta resenha foi escrita em Julho de 2016, como parte de um brevíssimo blog sobre literatura que experimentei na Moça dos Livros. Podem ler no link original <a href="http://mocados-livros.blogspot.com/2016/07/resenha-as-vantagens-de-ser-invisivel.html">aqui</a>.</p><p>Estou publicando essas resenhas no Medium anos depois, pois sinto que talvez aqui elas tenham mais visibilidade. No entanto, mantive as resenhas intocadas (exceto por pequenos erros de ortografia). Opiniões podem ter se alterado pelo caminho.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b1326492f436" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Resenha — “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/resenha-os-meninos-da-rua-paulo-de-ferenc-moln%C3%A1r-b12d52506551?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/b12d52506551</guid>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[literature]]></category>
            <category><![CDATA[hungary]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 08 Aug 2020 01:46:43 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-08T01:46:43.665Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Resenha — “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár</strong></p><blockquote><strong>Título:</strong> Os Meninos da Rua Paulo</blockquote><blockquote><strong>Autor:</strong> Ferenc Molnár</blockquote><blockquote><strong>Nota:</strong> 5/5</blockquote><blockquote><strong>Gênero:</strong> Literatura Húngara, ficção, infanto-juvenil</blockquote><blockquote><strong>Editora:</strong> Cosac Naify</blockquote><blockquote><strong>Páginas:</strong> 262</blockquote><blockquote><strong>Publicação:</strong> São Paulo, 2005 (original de 1906)</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*g02aRddlFApp28axqEtZSg.jpeg" /><figcaption>“OS RAPAZES DA RUA PAULO ESTIVERAM AQUI” (pp. 56)</figcaption></figure><p>Logo nas primeiras páginas da leitura, é possível reconhecer o trabalho do autor húngaro como um clássico: a capacidade de transformar um terreno baldio no centro de Budapeste em campo de batalha, o Jardim Botânico em território inimigo, os colegas de classe em fiéis camaradas — além das crianças, só o autor conquista essa arte com maestria.</p><p>Ferenc Molnár (1878–1952) nasceu em uma família judia em Budapeste, Hungria, como muitas eram naquela época. Aos vinte anos, já publicava poemas e peças — que o levou à fama, sendo várias adaptadas à televisão e ao cinema e apresentadas em toda a Europa. <em>Os Meninos da Rua Paulo</em>, entretanto, é a obra que o marcou como novelista: provável autobiográfica, ou ainda com memórias dos rapazes que viu defender as trincheiras da Primeira Guerra com furor, às vezes pagando com a vida.</p><p>A estória é simples, e como todas as estórias simples, o que encanta é a beleza dos detalhes. Um grupo de meninos, entre seus 12–14 anos, tem como maior tesouro o <em>grund</em>, o único terreno plano vazio em que podiam reunir-se após as aulas para jogar péla, fazer as eleições da Sociedade do Betume e brincar de exército. Há tal seriedade nesta última que muitas vezes vemos a transformação de alguns personagens no papel que exerce no batalhão, no lugar da criança que deveriam ser. Cada garoto é único, com gostos e visões bem definidas, porém, misturadas com a sua patente de forma a não descobrirmos quem é o soldado e quem é o rapaz.</p><p>Quando um grupo adverso decide tomar o terreno para jogar péla (ao invés de chegarem em uma decisão diplomática), a guerra é declarada, e as estratégias são postas a mesa — uma guerra, vale lembrar, na qual não vale tudo, e em que seus generais são homens (nunca crianças!) justos e leais. Como num verdadeiro romance marcial, esquecemos muitas vezes da pouca idade dos protagonistas, com o tanto que tocam em temas maduros: a honra, a coragem, o caráter, o companheirismo. Expõem-se a perigos por aquele pedacinho de terra, amado como uma verdadeira pátria, ou ainda mais: é o espaço onde podem ser livres. Isso numa época de alto investimento imobiliário…</p><p>Poucos livros conseguem nos levar à mais alta alegria da inocência infantil. É algo que esquecemos; também não nos recordamos, distraídos com as coisas que a vida nos traz, da profundidade da tristeza que sentimos quando somos crianças. Esta é a obra que nos lembra de ambas. Talvez, por causa disso, os meninos jamais serão anacrônicos, e estarão sempre em toda parte.</p><p>Esta resenha foi escrita em Junho de 2016, como parte de um brevíssimo blog sobre literatura que experimentei na Moça dos Livros. Podem ler no link original <a href="http://mocados-livros.blogspot.com/2016/06/resenha-os-meninos-da-rua-paulo-de.html">aqui</a>.</p><p>Estou publicando essas resenhas no Medium anos depois, pois sinto que talvez aqui elas tenham mais visibilidade. No entanto, mantive as resenhas intocadas (exceto por pequenos erros de ortografia). Opiniões podem ter se alterado pelo caminho.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b12d52506551" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Resenha — “Eu Sou Malala”, de Malala Yousafzai e Christina Lamb]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/resenha-eu-sou-malala-de-malala-yousafzai-e-christina-lamb-d6d85a100d3?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/d6d85a100d3</guid>
            <category><![CDATA[malala]]></category>
            <category><![CDATA[resenha]]></category>
            <category><![CDATA[review]]></category>
            <category><![CDATA[education]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 08 Aug 2020 01:43:58 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-08T01:43:58.916Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Resenha — “Eu Sou Malala”, de Malala Yousafzai e Christina Lamb</strong></p><blockquote><strong>Título:</strong> Eu Sou Malala — A história da garota que defendeu o Direito à Educação e foi baleada pelo Talibã</blockquote><blockquote><strong>Autor:</strong> Malala Yousafzai, com auxílio de Christina Lamb</blockquote><blockquote><strong>Nota:</strong> 5/5</blockquote><blockquote><strong>Gênero:</strong> Autobiografia</blockquote><blockquote><strong>Editora:</strong> Companhia das Letras</blockquote><blockquote><strong>Páginas:</strong> 344</blockquote><blockquote><strong>Publicação:</strong> São Paulo, 2013</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*lDRZy9yesZotyB7Zdredug.jpeg" /><figcaption>“Acreditávamos que a escola voltaria a funcionar. O Talibã podia tomar nossas canetas e nossos livros, mas não podia impedir nossas mentes de pensar.” (p. 156)</figcaption></figure><p>Queria ter posto como título desta resenha “A Poesia de Malala”, pois quando fala do cotidiano infantil, ou a história de seus pais, ou ainda de seu país, seu modo de escrita remete-me à delicadeza de Frances Hodgson Burnett (“<em>O Jardim Secreto</em>”); à imersão profunda dos cânticos corânicos, entoados numa mesquita que há muito visitei; à uma conversa num sofá, em que ela falava e eu não conseguia, não queria deixar de escutar.</p><p>Malala conquistou-me muito antes da leitura deste livro, que ganhei de presente no meu aniversário no ano passado. Sua história é conhecida, pelo menos superficialmente, graças à grande repercursão que seu trabalho tem dado na mídia ocidental: nascida em julho de 1997, no Vale do Swat, descreve a região como o lugar mais belo do mundo — e acredito piamente nela. A história do Vale e de seus habitantes — os <em>pachtum</em> — se veste em lendas, batalhas e heroínas, e mesmo a recente chegada do Talibã e dos americanos ao Vale já dá um contorno diferente ao lugar, como se esses elementos mascarassem a essência de sua casa. Criada por pais amorosos, seu pai lhe dá um nome triste, porém com uma promessa divina: “Você será livre, Malala”. Esta é a maior inspiração dela, ser livre — e para sê-la, nada melhor que buscar sorver da fonte do conhecimento.</p><p>Nada impediu Malala de estudar e dedicar-se incansavelmente aos estudos. Nem quando as escolas de seu pai (uma das poucas da região) foram ameaçadas e fecharam; nem quando o Talibã proibiu no país inteiro as meninas de frequentarem a escola; nem quando soube que sua mãe, já arrependida da decisão que tomou, contou que deixou de estudar por caprichos de criança. Tudo isso a impeliu a seguir em frente e procurar ser o seu melhor: não apenas nos estudos, nos quais era uma aluna exemplar, mas também nas lições que a vida lhe deu ao tratar com as pessoas. Humildade e compaixão são seus maiores valores a serem transmitidos.</p><p>Todavia, muito cedo em sua vida, ela foi alvo da mão de ferro do Talibã: em outubro de 2012, indo para a escola com suas amigas, foi baleada à queima-roupa por um membro da Organização. O projétil passou pelo seu crânio e afetou os movimentos de seu rosto, sua visão e audição. Levada às pressas de hospital em hospital, às vezes sem a companhia dos pais desesperados (“Tiraram seu sorriso”), acabou na Inglaterra, onde vive até hoje. Sente imensa falta do calor do Vale e das pessoas.</p><p>Seu socorro veio graças à sua luta incansável pela voz das meninas na educação no mundo. Suas atividades de paz laurearam-na com o Prêmio Nobel, e mesmo em seu aniversário está seguindo com seu plano, levando suas ideias, representatividade e palavras, fazendo um discurso tocante às meninas do campo de refugiados de Dadaab, o maior que existe, com mais de 30 mil refugiados. Seu amor rega sementes poderosas, e, somados, mudarão o mundo.</p><p>Esta resenha foi escrita em Julho de 2016, como parte de um brevíssimo blog sobre literatura que experimentei na Moça dos Livros. Podem ler no link original <a href="http://mocados-livros.blogspot.com/2016/07/resenha-eu-sou-malala-de-malala.html">aqui</a>.</p><p>Estou publicando essas resenhas no Medium anos depois, pois sinto que talvez aqui elas tenham mais visibilidade. No entanto, mantive as resenhas intocadas (exceto por pequenos erros de ortografia). Opiniões podem ter se alterado pelo caminho.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d6d85a100d3" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Como a leitura e o voluntariado ajudam a você e ao próximo]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/como-a-leitura-e-o-voluntariado-ajudam-a-voc%C3%AA-e-ao-pr%C3%B3ximo-19d2419d83ef?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/19d2419d83ef</guid>
            <category><![CDATA[leitura]]></category>
            <category><![CDATA[my-story]]></category>
            <category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
            <category><![CDATA[voluntariado]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 24 Sep 2019 14:26:51 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-09-24T14:26:51.991Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Fundei a <a href="https://medium.com/@sophie.nadas/mo%C3%A7a-dos-livros-nossa-hist%C3%B3ria-589fad135d32">Moça dos Livros</a> em setembro de 2015, e comecei a fazer as ações voluntárias em janeiro de 2016. De lá pra cá, fiz mais 30 doações públicas e espontâneas. Abri 7 pontos de troca em várias zonas da cidade. Fui à Paraty e à Curitiba distribuir livros, e instalei a primeira <a href="https://medium.com/@sophie.nadas/criando-uma-gelateca-fb1cb61dd92f">Gelateca</a> do projeto em julho deste ano, com aproximadamente 80 exemplares dentro, numa ocupação irregular em Suzano. Foram cerca de 2500 livros redistribuídos, e nem sei quantas horas investidas neste projeto.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*J-LfN3B25_2HKv7rqgrSBg.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*k1CE6RBzAKStHhELuz67Sw.jpeg" /><figcaption>Transformar os livros parados em uma estante (à esquerda) em um evento de lazer, que mais tarde perpetuará a lógica do autoconhecimento e empatia (à direita): esse é o desafio que coloco na Moça dos Livros.</figcaption></figure><p>Voluntariar é barra pesada. Levar livro pra cima e pra baixo, enchendo e esvaziando carrinhos, caixas, sacolas, passando noites preparando os livros para as doações… É preciso disciplina, força de vontade, e grana. Não tenho patrocínio ou renda fixa, então conto com muita ajuda das pessoas mais próximas e do que conseguir vender no brechó da faculdade.</p><p>‘Por que você não para’?, poderiam me perguntar. Mas é como perguntar para o mar por que ele tem marés. A literatura e o voluntariado estão intrínsecos à pessoa que sou hoje, e descobri, ao longo dos anos, que esses dois elementos combinados têm um impacto muito interessante — em mim e nas pessoas que atinjo.</p><p>A leitura sempre esteve presente na minha vida. Consigo lembrar-me de, aos três ou quatro anos, estar sentada na porta lendo uma revistinha da Turma da Mônica, me esforçando para juntar as palavras e formar uma frase. Lembro-me muito bem de meu pai me dizendo (provavelmente cansado de tantas vezes que pedi ajuda com as palavras) ‘você precisa se esforçar para fazer sozinha’.</p><p>Me tornei uma leitora voraz: primeiro de quadrinhos e revistas, e mais tarde na infância, de livros cada vez mais complexos, cada vez mais largos. Quem me conhecia me presenteava com exemplares, e alguns amigos me emprestavam séries inteiras, criando nosso próprio clube de leitura.</p><p>Ler tanto me destacava dentro da escola de maneiras diferentes das óbvias. Eu era a menina que sabia muitas respostas das trívias nas gincanas escolares. Conseguia escrever melhor na aula de redação, e às vezes editava os textos dos meus amigos. Contava enredos nas filas — do treino de futebol à da cantina -, dando um momento de fuga de uma realidade tediosa aos meus colegas.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/549/1*n77o0ygkWoa7uETMbS6-Bg.jpeg" /></figure><p>E, quando a adolescência chegou, minha estante cresceu. Houve quem dissesse que eu me escondia atrás dos livros. Sabia naquela época, e reforço agora: estavam enganados. Os livros, se trouxeram alguma aparente distância das pessoas, fizeram-me aproximar de mim mesma. Lendo ‘O Mundo de Sofia’ e ‘O Dia do Curinga’, ambos de Jostein Gaarder, percebi meu desejo por seguir uma profissão na qual o pensamento e as ideias imperassem. Ler ‘Zorro’, de Isabel Allende, e a saga dos Karas de Pedro Bandeira me mostrou qual gênero queria escrever. ‘Porque almocei meu pai’, de R. Lewis, despertou o sarcasmo e a ironia fina do meu ser.</p><p>A leitura de ficções também criou ligações com amigos fortíssimas. ‘Perdão, Leonard Peacock’, de Matthew Quick, um livro sobre a despedida de um rapaz suicida, foi minha primeira pista para perceber a depressão do meu melhor amigo. ‘A Culpa é das Estrelas’, de John Green, me ajudou a confortar uma amiga que havia perdido um colega próximo. ‘O pianista’, de Wladislaw Szpilman, me deu uma ideia do sofrimento passado por meu avô e sua família na Hungria durante a Segunda Guerra.</p><p>A leitura de ficções é uma rica fonte de informações, mas também cria um elo com o mundo externo ao identificarmos nos personagens partes do nosso ser e/ou das gentes.</p><blockquote><em>A leitura constante de narrativas gera empatia.</em></blockquote><p>Segundo<a href="https://periodicos.ufsm.br/remoa/issue/view/347"> um questionário feito pelos alunos da Universidade Federal de Santa Maria</a> (RS), a leitura provoca bem-estar ao permitir a entrada em um mundo desligado de nossos problemas, angústias, incertezas (“Perder-se em um livro é o maior estágio de relaxamento possível. Não importa qual é o livro, apenas o processo de escapar das preocupações do mundo cotidiano já é uma forma de relaxar”, opinou o neuropsicólogo David Lewis, que conduziu outra<a href="https://www.telegraph.co.uk/news/health/news/5070874/Reading-can-help-reduce-stress.html"> pesquisa</a> em 2009 pela Universidade de Sussex); e igualmente proporciona alívio das tensões emocionais, contribuindo para o bem-estar mental. Essa sensação também facilita no aprendizado, gerando força para ultrapassar as barreiras e as dificuldades diárias.</p><p>No Reino Unido desenvolveu-se a<a href="http://www.ala.org/tools/atoz/bibliotherapy"> biblioterapia</a>, que envolve o uso de leituras para fins terapêuticos a fim de reduzir o estresse e outros sintomas de distúrbios como depressão e ansiedade ou outras perturbações emocionais. Seu uso clínico, juntamente com um terapeuta, pode incluir a leitura de ficção e não-ficção e leva em consideração a relação do paciente com o conteúdo de cada livro. Idealmente, o processo ocorre em três fases: a identificação do leitor com um personagem particular na obra recomendada; a catarse emocional a partir desta identificação; e por fim, a percepção racional sobre a relevância da solução apresentada no texto para a experiência do próprio leitor.</p><p>Utilizemos um exemplo: uma criança com transtorno de atenção e hiperatividade pode identificar-se com Raquel, d’‘A Bolsa Amarela’, de Lygia Bojunga. Percebendo como cria um mundo de imaginação alheio de modo semelhante à personagem, ela poderá, com a ajuda da terapia, canalizar esse mundo interno para o exterior, podendo desenvolver atividades para fazer as tarefas de casa.</p><p>Neste ponto, consigo fazer uma relação com Walter Benjamin, em seu ensaio ‘O Narrador’, que, apesar de ter severas críticas à ficção escrita, reconhece um ponto: “metade da arte narrativa está em evitar explicações”; portanto, o leitor é livre para <em>interpretações</em>. Esta é a chave para identificar-se com os personagens ou não, para compreender situações presentes ou passadas. A literatura, em última instância, permite o autoconhecimento.</p><p>O voluntariado também, de uma maneira muito semelhante.</p><p>Junto da escola, participei por alguns anos do EDH — Núcleo de Educação Para os Direitos Humanos, desenvolvendo em grupo atividades para crianças e idosos. Não saberia dizer qual foi minha motivação inicial, mas estar com aquelas pessoas, envolver-me em suas vidas, e, nem que por um período curto, fazer uma pequena diferença — isso me emociona.</p><p>A criação da Moça dos Livros foi como um TCC de tudo que aprendi lá. Com desafios diferentes, por vezes maiores, a cada ação aprendia um pouco mais sobre os limites e os horizontes do trabalho voluntário.</p><p>Existem estudos comprovando que o trabalho voluntário regula e melhora a saúde mental. Segundo o livro “The Healing Power of Doing Good” (sem tradução no Brasil), de Allan Luks, um dos maiores especialistas no campo da saúde mental no voluntariado, o ajudante tem um sentimento de satisfação (em inglês, colocado como ‘helper’s high’), liberando endorfina no organismo. Após a liberação inicial, o voluntário passa por um período mais longo de calma e melhora do bem-estar emocional — e esta sensação retorna com a memória do ato, mesmo após dias do mesmo.</p><p>Ainda segundo Luks, ajudar o próximo:</p><ul><li>Reverte sentimentos depressivos;</li><li>Reduz sentimentos de hostilidade e isolamento que levam ao estresse e suas consequências físicas;</li><li>Diminui o risco de ataques de asma;</li><li>Ameniza a consciência e intensidade da dor física;</li><li>Com as conexões feitas entre voluntários e beneficiários, a liberação de endorfina constante fortalece o sistema imunológico.</li></ul><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/634/1*2kex-GnWTKGACj35VXJNQQ.jpeg" /><figcaption>Uma das primeiras doações, em 2016. Estava muito feliz, apesar de ter passado horas no dia anterior terminando de embalar os livros e desenhar as resenhas.</figcaption></figure><p>A desigualdade do mundo é bizarra: a riqueza combinada das cem pessoas mais ricas do mundo é quase duas vezes maior do que aquela dos 2,5 bilhões mais pobres. Na própria lógica do sistema capitalista atual, baseado na desigualdade, os ricos, especialmente os mais ricos, ficam ainda mais abastados conforme os pobres, principalmente os mais pobres, ficam ainda mais miseráveis (BAUMAN, ‘<em>A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós?</em>’, 2013). Uma forma de ir contra essa lógica, de uma maneira bastante simplória, é através do voluntariado.</p><p>Ao ajudar os que pouco têm a ter a oportunidade de ter um pouco mais, ambos estarão se beneficiando disto. E doar livros, bem, é um passo extra: o incentivo à educação, que no nosso atual governo é risível, deve ser feito para que possamos todos nos beneficiar de um mundo melhor.</p><p><em>Este texto é uma adaptação da palestra apresentada na VIII Trilha Literária, organizado pela FFLCH-USP, em 12 de setembro de 2019.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=19d2419d83ef" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Criando uma Gelateca]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/criando-uma-gelateca-fb1cb61dd92f?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/fb1cb61dd92f</guid>
            <category><![CDATA[projeto-social]]></category>
            <category><![CDATA[voluntariado]]></category>
            <category><![CDATA[espaço-cultural]]></category>
            <category><![CDATA[moça-dos-livros]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 10 Jul 2019 18:07:07 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-07-10T18:13:18.020Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Desde a primeira vez que vi esse tipo de interação entre livros e público, quis abrir uma gelateca. Era lúdico, resistente, e chama a atenção. Alimenta a alma.<br>Antes, esperava poder abrir uma em uma escola pública. Mas imprevistos ocorreram e só conseguimos abrir em julho, num ponto cultural no meio de uma ocupação carente em Suzano.<br>Foi, de fato, uma jornada de mil passos.</p><h3>O projeto Formando Leitores</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/500/1*ti1SwjRiNh3LcoYtIaFAhQ.jpeg" /></figure><p>Natanael, o criador e administrador do projeto <strong>Formando Leitores</strong>, é um guerreiro. Sofreu um acidente em 2008, adquirindo paralisia parcial no rosto e outras sequelas, levando-o a perder emprego, casa e amigos. Sua única opção foi mudar-se para esta ‘invasão’, sem regularização de água ou esgoto. Diante deste cenário, sua esposa, Cleo, sugeriu que ele encontrasse forças fundando uma biblioteca. Assim, os dois fundaram o projeto, sendo seu primeiro lugar físico um puxadinho no fundo da pequena casa. Com o tempo, dedicou um de seus três cômodos totalmente ao público.<br>Atualmente, a <a href="https://www.facebook.com/BibliotecaDoSaber/?eid=ARBcjBcZBwgpfysuGz3fQRhsUKGkUkTaQ8UYjTECMOzOvM4BFWW0F5cZoNGWsArxmJ4UBDwLSjgTzb2t&amp;timeline_context_item_type=intro_card_work&amp;timeline_context_item_source=100001728595361&amp;fref=tag"><strong>Biblioteca Comunitária Espaço do Saber</strong></a><strong> </strong>atende cerca de 100 crianças e suas famílias, e conta com um acervo vasto de aproximadamente mil exemplares. Frequentemente realizam atividades que envolvem também os jovens e adultos da comunidade, tento se tornado um lugar para onde as crianças têm aonde ir para passar o dia depois da escola.</p><p>Caso queira saber mais um pouco, clique <a href="https://www.facebook.com/BibliotecaDoSaber/videos/1814690732010070/">aqui</a> e <a href="https://www.facebook.com/BibliotecaDoSaber/videos/1006147879572946/">aqui</a> para ver uma reportagem sobre o espaço.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*-7tC4KMidmjgq0Jj0lb8fg.jpeg" /><figcaption>A evolução do espaço ao longo dos anos</figcaption></figure><h3>A jornada</h3><p>Conheci o projeto através de um contato em comum, pedindo doações para materiais e livros escolares. como estava na ‘caça’ por alguém que aceitasse a gelateca e pudesse administra-la, entrei em contato com Natanael. Imediatamente, vimos que temos muito em comum: o amor pelos livros, a vontade de fazer o bem sem esperar nada em troca, até mesmo a preferência de curso na faculdade!<br>Havia uma grande dificuldade: a geladeira em questão estava guardada na chácara da minha família, em Mairinque, e o projeto Formando Leitores, em uma rua sem nome oficial em Suzano. Mas não desisti.<br>Quando entrei de férias da faculdade, combinei com minha família o plano. Conseguimos um carro maior e fomos à chácara. Trabalhei incansavelmente na geladeira, limpando, pintando e fazendo os adornos. Tive muita ajuda de Talita e Marcelo, os caseiros, que guardaram esse móvel antigo e tiraram o motor.<br>Levá-la foi outra aventura. Tivemos que parar na estrada para prendê-la melhor e em algum momento, o pano de proteção começou a cair (mas não caiu). Atravessamos São Paulo e fomos à Suzano, passando por vaqueiros, boiadas e quemersses.<br>Depois entramos na periferia, onde a ocupação se encontra. Depois de algumas ligações, encontramos o local, finalmente! Duas horas de viagem pagas.<br>Natanael e Cleo nos receberam alegressíssimos! Vimos o espaço, que, apesar de diminuto, é muito bem cuidado, com livros excelentes, e prontos para receberem as pessoas sempre.</p><p>Fazer essa gelateca foi realizador em muitos níveis. A dificuldade inicial, indo de escola em escola, sem nenhum sinal de aceite, mostrou que mesmo sem ver, persisti — e fui recompensada pela paciência e fé, conhecendo este projeto tão incrível.<br>Os gastos financeiros são reais, e tenho muito, MUITO a agradecer pelos meus pais, que me apoiaram nesse e em muitos momentos. Mas o projeto Moça dos Livros precisa conseguir caminhar em suas próprias pernas para crescer e ganhar o mundo.<br>Deste modo, será necessário realizar catarses para os próximos grandes projetos. Pontos de troca seguirão gratuitos, assim como a participação em eventos públicos, mas passaremos a pedir financiamento para compra de materiais e transporte se necessário.<br>Tenho muitas ideias para contribuir com a leitura e educação, e preciso tirá-las do papel de uma vez por todas. Vou tirá-las. Ver o Formando Leitores, funcionando com êxito apesar das dificuldades enormes mostra que é possível seguir apesar do impossível aparente. Onde há vontade de fazer o bem, há a possibilidade de criação do caminho para o mesmo.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*oxQ-lAz-MP8Q40wAHz7log.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*LZt6kUP7SB3sPGPMjjMmwg.jpeg" /><figcaption>A gelateca levando alegria aonde vai</figcaption></figure><p><em>Este texto foi enviado pela newsletter da Moça dos Livros. Caso queira receber notícias sobre nossos projetos, comente com seu e-mail que lhe cadastraremos!</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=fb1cb61dd92f" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[“Gosto tanto de mulheres quanto de homens”]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/gosto-tanto-de-mulheres-quanto-de-homens-14343ac6d471?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/14343ac6d471</guid>
            <category><![CDATA[my-story]]></category>
            <category><![CDATA[pride]]></category>
            <category><![CDATA[bisexual]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 29 Jun 2019 03:50:04 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-06-29T03:50:04.290Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Achava que não ia dizer essa frase pra minha mãe tão cedo. Não que quisesse ficar no armário pro resto da vida — ao menos, na família, pois na vida pública levanto bandeira loucamente — , porém, dizer essas palavras foram inesperadamente libertadoras e naturais. E isso merece uma história.</p><p>Minha jornada me descobrindo bissexual, hoje digo, não foi tão sofrida quanto poderia ser. Mas doeu enquanto estava lá (que bom que o tempo cura e nos faz esquecer). Cresci em ambientes heteronormativos até a medula: família hiper-mega cristã, pais que não conversavam sobre assuntos corporais de nenhuma ordem, escola em que os coloridos eram acizentados pelo bullying e pelo descaso da administração. Eu mesma fui uma agente dessa violência. Não digo isso com orgulho nenhum.</p><p>Aos 14 anos, uma colega antiga retornava à escola e logo nos tornamos muito próximas. ‘Mas só na amizade, sabe’, e eu só esperava isso. Logo comecei a perceber algumas coisas novas, como o carinho maior que nutria por ela do que por qualquer outra amiga, mesmo mais antigas e íntimas; e por carinho, não apenas afeição e consideração. Eu queria estar junto dela sempre, compartilhar de seus segredos, de suas inseguranças, estar lá por ela e confortá-la. Queria aprender com ela algo que não sabia o que na época, e queria ensinar que eu era capaz de… ‘de o quê?’; não ousava terminar a frase.</p><p>E aí fiz a maior burrada da minha vida até então (teve tantas depois dessa): menti, fazendo-a acreditar em alguém que não era e jamais poderia ser. Quando descobriu, nossa amizade terminou em um instante. Por muito tempo, não consegui responder o porque havia feito o que fiz. E a resposta ainda me é insatisfatória.</p><p>Bom, mas até então, eu tinha só 15 anos, certo? Acontece às vezes de uma menina gostar de uma outra, que é especial, que é só com ela.</p><p>Esse discurso durou o tempo suficiente até eu me apaixonar por outra (aiai) — e estava namorando um menino! tá certo que não gostava muito dele não.</p><p>Com ela, já entendia melhor que havia algo de diferente comigo. Passei a desconstruir, bem devagarzinho, as lógicas sem nexo que havia criado para me afastar das meninas (inclusive o discurso machista de ‘meninas são muito chatas porque elas só gostam de fofoca e eu gosto de correr!’), de olhar para elas de um jeito que as outras certamente não faziam umas com as outras. E o <em>carinho</em>, tudo de novo. E o <em>ciúme</em>. E a <em>aflição </em>por não poder dizer, mas não poder mentir.</p><p>Dessa vez, não menti. Mas atrapalhei a vida dela de um jeito diferente e foi o maior coração partido do universo. Eu de fato me senti como se ela tivesse <em>terminado </em>comigo. E tudo isso com o menino do lado, mas eu não estava nem aí. Ele não era nada para mim, emocionalmente falando, perto do que ela foi — e ele é o pai da minha natimorta.</p><p>Enfim, foram anos agitados na adolescência. No final do ensino médio, comecei a ver algumas coisas sobre feminismo, comunidade LGBT+, mas muito esparso e dentro de um contexto que não necessariamente compreendia. Minha irmã até falava dessas questões também, mas não estava exatamente interessada ainda nesse discurso. Parecia politizado demais, exigia muita reflexão, e gostasse ou não, eu tinha um vestibular pra fazer.</p><p>Até que Dodie chegou na minha vida com <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ke5EDEk9vvI&amp;t=">este vídeo</a> de 2014. Foi amor, ou melhor, identificação à primeira vista. Nele, ela admite ter se apaixonado por algumas mulheres e gostar de homens em geral, mas não querer levantar bandeira nem se apegar à nenhum ‘rótulo’. Em tempo: cerca de um mês depois, ela lançou <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Vpg3gtwepSs&amp;t">essa música</a> e mais uma vez pôs em melodia o que não conseguia admitir para mim mesma (é uma das minhas músicas favoritas).</p><p>A escola terminou, e eventualmente o namoro com o moçinho também. Na faculdade, não vi LGBTs escancarados na minha sala, não tão rápido. Tinha um ou dois gays, e só. Mas estava livre das amarras: ali, ninguém me conhecia. Não precisava esconder o que sentia por medo de ser rechaçada. Pesquisei mais. Aprendi mais sobre o feminismo na prática e na teoria histórica. Me apaixonei (por um rapaz, mas ei! acontece com as melhores de nós), tive crushs. Conversei com muitas LBs, e escrevi um texto como uma metáfora da minha sexualidade. Foi através da minha ficção que consegui compreender claramente a minha realidade.</p><p>Sair do armário pela primeira vez foi como respirar um ar puro depois de anos comendo poeira.</p><p>Não quis voltar para dentro daquelas portas — ou antes, não queria fechá-las. Então, na minha família, só não falei nada, mas se me perguntassem, diria a verdade. E eu sabia que não perguntariam, pois, se até outro dia nunca houve questionamento, por que de uma hora pra outra meus pais suspeitariam que, ‘hummm, talvez nossa filha goste de umas meninas por aí’.</p><p>Entretanto, a parte do sexo que não foi e não é simples. Nunca acreditei muito em sexo casual. Na minha mentalidade (que hoje sei ser herdada do puritanismo familiar), para ir pra cama com alguém, essa pessoa tinha que pelo menos parecer ser muito, muito boa e capaz de cuidar de mim. Tinha que ser especial. Sedução de uma hora pra outra? Vontade repentina? Não, obrigada. O fato de ter havido um aborto no meio do caminho também me fazia pensar duas vezes antes de procurar um outro homem.</p><p>Então veio o tinder, e veio os casais querendo um ménage, e mudei nas configurações para ver só mulheres. E foi nessa situação que conheci o homem que atualmente é meu marido. Bug no sistema, brincamos.</p><p>Com ele, fui aberta quanto à minha sexualidade, e por um bom tempo deixamos o relacionamento aberto para que pudessemos explora-la. Fiquei só com uma menina, ele só com um menino, e aí a gente percebeu, cada um no seu tempo e na sua intimidade, que relacionamento era bem difícil com um só para nós.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/625/1*ZaxLRkt2V82aOGOko3Y0DQ.jpeg" /></figure><p>Continuo bem bi, obrigada, independente de quem está ao meu lado. Minhas melhores amigas também são, e minhas maiores referências artísticas o são também. Recentemente, descobri que há outros membros da família com a mesma bandeira, e muitos dos meus antigos colegas daquela escola também saíram do armário em diversas cores.</p><p>Falar que sou bissexual para minha mãe foi algo bem natural e não doeu nada em mim. Não fiquei nervosa, nem com medo. Sou o que sou, e absolutamente nada mudou no meu tratamento com ela — e vice-versa. Ela apenas sabe hoje de algo sobre mim que tenho muito orgulho. Contudo, ela, no seu tempo, aprenderá a digerir essa informação.</p><p>Essa é minha história da minha sexualidade tricolor. Um caminho que se tornou tortuoso por conta de minhas escolhas erradas, contudo, que foi capaz de me perdoar e me deixar abrir minhas asas.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=14343ac6d471" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Adolescentes são estranhos 101- comentários sobre ‘Sex Education’, da Netflix]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/adolescentes-s%C3%A3o-estranhos-101-coment%C3%A1rios-sobre-sex-education-da-netflix-271e3a9da3e7?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/271e3a9da3e7</guid>
            <category><![CDATA[sex-education]]></category>
            <category><![CDATA[series]]></category>
            <category><![CDATA[teens]]></category>
            <category><![CDATA[netflix]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 25 Jan 2019 01:31:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-01-25T01:31:32.657Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Adolescentes são estranhos 101- comentários sobre ‘Sex Education’, da Netflix</strong></p><p>Sex Education é uma jóia. Se mostra leve ao tratar de assuntos complicados, tem um elenco bastante diversificado e consegue fazer uma massa homogênea de drama, romance e humor. Os personagens tem diversas características com que podemos nos identificar e as cenas de feminismo e sororidade são bastante realistas, assim como os momentos de dúvidas e irresponsabilidades.</p><p>Contudo, há bastante a ser analisado, e olha que não sou terapista. Não pretendo falar das cenas de sexo (apesar da quase-cena entre Otis e Lily ser hilária até cair vertiginosamente no desespero), mas gostaria de focar em alguns personagens.</p><p>*CONTÉM SPOILERS*</p><p><strong>Otis</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/448/1*hzUzsOB4QEM5ubaPMZf2cw.jpeg" /><figcaption>O ataque de pânico do personagem Otis foi muito bem representado. Nem todo mundo está pronto pra transar!</figcaption></figure><p>As características que ele representa na série são mais comuns que se acredita. <a href="https://www.cdc.gov/healthyyouth/data/yrbs/pdf/trends/2015_us_sexual_trend_yrbs.pdf">Entre 1991 a 2017 o número de adolescentes nos Estados Unidos que já teve relações sexuais diminuiu de 54% para 41%</a>. Ou seja, em uma geração, a experiência que a maioria dos <em>teens</em> havia tido passou a ser algo que a maior parte das pessoas dessa faixa etária ainda não teve.</p><p>No Japão, essa porcentagem é ainda maior: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-40527383">uma média de 42% dos homens e 44% das mulheres entre 18 e 34 anos são virgens </a>— e os motivos são muitos. Alguns têm medo de serem rejeitados, outros querem crescer na carreira, ou simplesmente aproveitar a liberdade antes que a mesma seja consumida inteiramente por um relacionamento. É claro, esses números são altos o bastante para terem um impacto na taxa de natalidade, levando o governo a criar incentivos para que a população tenha uma média de 1,8 filhos até 2025 (hoje a média é de 1,4).</p><p>Voltando: mas por que as pessoas, e em especial os jovens, estão fazendo menos sexo? Essa não deveria ser a época em que o sexo casual estivesse em voga, com os aplicativos e a liberdade sexual?</p><p>Bom, mais ou menos. Um dos motivos pela baixa na atividade é o cansaço, e sim, os adolescentes e jovens adultos estão cansados <em>pra caralho</em>. A pressão dos pais, da escola ou faculdade e do trabalho tiram o sono de muita gente, e muitos estão trocando uma noite na balada por uma noite de namoro… virtual. Esse é um paradoxo muito interessante, pois os apps de namoro têm mais atrapalhado do que ajudado as pessoas a encontrarem o ‘match’ perfeito (<a href="https://www.psychologytoday.com/us/blog/living-single/201811/7-reasons-why-young-people-are-having-less-sex">um estudo concluiu que é necessário uma média de 60 ‘swipes’</a>, ou deslizes para a direita, para ter um match, e ter muitos matchs não significa ter muitas conversas ou encontros marcados).</p><p>Otis também é um rapaz com baixa auto-estima e uma autoconsciência extremamente sensível perante seu corpo, algo lamentavelmente comum entre jovens. A ansiedade e a depressão atinge 20% da população mundial adolescente, segundo a <a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quantos-adolescentes-sofrem-de-depressao-no-brasil/">OMS</a>; e só na cidade de São Paulo, 10% das crianças e jovens têm ansiedade, segundo o <a href="https://saude.abril.com.br/familia/a-explosao-da-ansiedade-entre-os-mais-jovens/">Institudo de Pesquisa do Hospital das Clínicas</a>. Isto causa, se não uma queda, ao menos uma pausa na libido, e, para acrescentar, o uso de antidepressivos faz as pessoas perderem o tesão.</p><p>Contudo, o brilho do personagem habita no seu vasto conhecimento sobre um assunto cabuloso apesar de todos os seus problemas de relacionamento com o próprio corpo. Ele mostra que o conhecimento pode ser útil e deve ser adquirido para que situações desgotosas sejam evitadas. ‘<em>Conheça-te a ti mesmo’</em> é o grande conselho que ele passa para os outros e, impressionantemente, ele o segue também.</p><p><strong>Maeve</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Zud0SQnJTx1E7t8zQTIs6Q.jpeg" /><figcaption>“Nada diz ‘feliz aborto’ como um buquê de flores”</figcaption></figure><p>EU NÃO ESTAVA PRONTA PARA MAEVE, JESUS CRISTO.</p><p>E o pior é que ninguém estava. Nem na série. Otis, Jackson, o Diretor Groff — ninguém conseguia de fato lidar com a grandeza que ela tem a oferecer (e isso é maravilhoso e trágico).</p><p>A jovem de 17 anos tem uma família desajustada com um pai ausente e uma mãe drogada; seu irmão dá ‘sumidas’ por conta de seu envolvimento ilegal com drogas, obrigando-a a viver por meses sozinha numa van. Sua fama na escola também não é das melhores: por ter se recusado a ter relações sexuais com um rapaz quando mais nova, é chamada de ‘cock-biter’ e é taxada de puta (ela acaba utilizando-se desse estigma para se proteger atrás de uma imagem). Mesmo sua melhor amiga a vê escondida na escola para não ser ostracizada de seu grupo popular, ‘Os Intocáveis’.</p><p>Porém, Maeve é a primeira a notar as coisas. Vê que Otis tem um dom em aconselhar as pessoas em assuntos de relacionamentos amorosos e sexuais. Consegue descobrir quem vazou a imagem da vagina. E essa inteligência é o que pode a salvar de uma vida péssima. Ela tem sonhos, tem objetivos, e quer conquista-los apesar de suas fraquezas.</p><p>E então chegamos ao episódio do aborto.</p><p>Apesar de, na entrevista com a <a href="https://www.teenvogue.com/story/sex-education-star-emma-mackey-why-maeve-wiley-abortion-shouldnt-define-character">TeenVogue</a>, a atriz Emma Mackey dizer que a cena não foi feita para sensacionalizar abortos, é uma cena explendorosa e com muito a se por em pauta. O que ela quis dizer é que, por conta da Maeve ser uma personagem pragmática, ter um bebê àquela altura da vida simplesmente não correspondia com as suas expectativas e seus planos. Portanto, sua decisão de abortar deveria ser simples como é mostrada na série.</p><p>E isso é lindo. Contudo, não corresponde à realidade. No Reino Unido, <a href="https://abort73.com/abortion_facts/uk_abortion_statistics/">cerca de 20% das gravidezes resultam em abortos</a> (excluindo perdas gestacionais). Cerca de 27% das mulheres que realizam estão na faixa etária entre 20–24 anos. E lá, <a href="https://www.gpnotebook.co.uk/simplepage.cfm?ID=1449852947">o aborto é legal</a> se a gravidez for risco de vida para a mulher ou para o bebê, se há risco de o bebê nascer com alguma deficiência grave, ou para previnir lesão grave permanente à saúde física e/ou mental da gestante. Os motivos devem ser justificados por dois médicos no laudo antes do procedimento ocorrer.</p><p>No Brasil, as coisas são no mínimo confusas. Não vou me estender nesse artigo, até porque <a href="https://medium.com/@sophie.nadas/n%C3%A3o-h%C3%A1-temas-proibidos-falemos-sobre-aborto-f41554406d47">já escrevi sobre o assunto em outro momento</a>, mas o aborto é legal com muitas condições de saúde e de tempo de gestação. Porém, o número de abortos clandestinos é enorme e <a href="http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG76839-5856,00.html">é a segunda maior <em>causa mortis</em> materna no país</a>. Maeve talvez tivesse um destino diferente se a série se passasse nos trópicos.</p><p>Maeve é, além de tudo, um exemplo de feminismo e sororidade. Mesmo sendo maltratada pelas garotas populares, ela se oferece para ajudar e faz parte na ação das meninas de proteção de Ruby. E Aimee, sua amiga, é extraordinária ao chutar o balde e ficar do lado dela.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/640/1*Ount4-PyY3VDr0IxSCQKuA.jpeg" /><figcaption>Ilustração por @ilustragabs no Instagram</figcaption></figure><p><strong>Eric e Adam</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/500/1*EUkHwEMmPzMlXAlukbrf2w.png" /><figcaption>Uma relação fofa? Talvez, mas enormemente problemática</figcaption></figure><p>Devo admitir que tive muitos problemas com os dois. Não por causa dos personagens em si, que são esféricos e deveras interessantes. Mas com a elaboração do enredo do relacionamento deles e o que isso tem a ver com o desenvolvimento individual de cada um na série.</p><p>Eric e Adam, são, a princípio, opostos. O primeiro é o mais velho de 4–6 irmãs (?), tem pais imigrantes de um país africano jamais especificado, e eles são devotos numa igreja negra estereotipada americana. É o melhor amigo de Otis, e, como ele, nunca teve relacionamentos. Seus hobbies são tocar a trompa francesa, se maquiar — coisa que é muito bom — e se <a href="https://www.youtube.com/watch?v=LfL4H0e5-Js">vestir para tombar à la Karol Conka</a>.</p><p>Adam Groff, no entanto, é filho do diretor da escola. Não é bom com esportes, dá uma de valentão e bully e não tem muito interesse em conhecer as pessoas. No começo da série tem problemas de aceitação com o próprio pint… ops, com o próprio corpo, porém, apesar da impressão inicial que temos, não é resolvido por conta de muitos outros revéses com o pai e com a escola. Seu alvo preferido é justamente Eric, que constantemente o rouba e ataca por motivos homofóbicos e racistas.</p><p>E é aí que mora o problema. A cena de Eric e Adam perpetua a imagem de um bulinador enrustido e de uma vítima que se apaixona pelo seu agressor. E isso é pior ainda porque o Adam fica em cima, dando a imagem de que ele é o ‘ativo’ da relação. Me lembra bastante as duas primeiras temporadas de Glee, com Kurt e Dave, e as fanfics de Harry Potter e Draco Malfoy. Mas aqui, em Sex Education, os personagens não sofrem com suas escolhas, ainda.</p><p>E Adam, apesar de ter muitas justificativas para seus problemas, não deveria ser escusado para ficar com Eric, ignorando os abusos que ele cometeu anteriormente contra o colega. Se Adam é uma figura que inspira medo em Eric, como os dois podem ter uma cena tão dramática quando o valentão é mandado para um internato militar?!</p><p>No Reino Unido, <a href="https://www.stonewall.org.uk/lgbt-britain-hate-crime-and-discrimination">cerca de 21% da população LGBT sofreu algum tipo de violência</a> por conta de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero entre 2016 e 2017. Nesse mesmo período, no Brasil, <a href="https://oglobo.globo.com/sociedade/assassinatos-de-lgbt-crescem-30-entre-2016-2017-segundo-relatorio-22295785">o número de assassinatos subiu 30%</a>, de 343 para 445, fazendo com que o país ganhasse sua sinistra alcunha de ‘lugar que mais mata LGBTs no mundo’.</p><p>Adolescentes e jovens de todo o mundo estão vendo essa série e podem interpretar mal essa relação abusiva que os personagens estão representando. Foi uma grande falta, talvez a maior da série (sem falar que não teve nenhuma relação bissexual, tampouco foi citada a palavra na temporada inteira).</p><p>Sex Education mostra, acima de tudo, que comunicação é a chave para resolver grande parte dos problemas. Porém, sozinha ela não é muito efetiva: é preciso noção, compreensão e desejo de escutar o próximo também. Espero muito da segunda temporada!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=271e3a9da3e7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[“De onde nós viemos?”: A grande pergunta, o primeiro livro]]></title>
            <link>https://medium.com/@sophie.nadas/de-onde-n%C3%B3s-viemos-a-grande-pergunta-o-primeiro-livro-c396f096df98?source=rss-f617d58864a1------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/c396f096df98</guid>
            <category><![CDATA[childrens-books]]></category>
            <category><![CDATA[corpo-humano-e-reprodução]]></category>
            <category><![CDATA[literatura-infantil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sophie Nadas]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 23 Nov 2018 20:46:43 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-11-23T21:13:08.432Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Essa semana fiz uma pesquisa informal nos meus <em>stories </em>do Instagram. Perguntava quem ali teve com os pais ou responsáveis uma educação sobre sexualidade - ou ao menos sobre menstruação.</p><p>Lancei bastante descrente a pergunta no ar, mas ciente que haviam vários fatores que podiam descreditar um pouco minha pesquisa. Apenas 15% das pessoas que visualizaram a pergunta responderam. Desta porcentagem já pequena, 14% eram homens cis, e todo o resto eram mulheres cis.</p><p>Qual foi a intenção dessa pesquisa? Queria ver se de fato as pessoas não recebiam nenhuma conversa, se eram assim, arremessadas mundo a fora, para descobrirem o corpo e os desejos sem instrução nenhuma.</p><p>No mínimo foi uma surpresa interessante ao verificar, que, ao menos no grupo dos entrevistados, as coisas eram <em>ligeiramente</em> diferentes: a grande maioria das respostas (78,5%) demonstrava que havia, em algum ponto, tido uma instrução na infância sobre os mistérios do hemisfério sul corporal. Mas nem sempre com os pais: às vezes era com os irmãos, às vezes eram diretamente na escola. Mas o livro estava presente em vários dos casos.</p><p>A curiosidade sobre o corpo é algo que acompanha o infante. As sensações, os sentidos, os pelos e todos os membros, do próprio e dos outros, causam um grande fascínio. O corpo é um meio de comunicação, é a relação com o mundo externo, um brinquedo e uma morada. O que interrompe a brincadeira é a interpretação que os adultos fazem desse corpo em movimento, muitas vezes visto como um empecilho.</p><p>Um dos modos como essa brincadeira pode ser cortada é pelo silêncio diante dos questionamentos da criança. E um modo de silêncio é o ato de dar um livro sobre o assunto, sem mais explicações. Para um país pouco leitor, com poucos exemplos de apaixonados pelos livros, uma criança que ganha um livro é, em primeiro lugar, rara e privilegiada, e a que lê o dito livro é ainda mais.</p><p>É importante ressaltar antes de continuarmos que nem toda criança e adolescente quer conversar com os pais ou responsáveis sobre o funcionamento do seu corpo e do sistema reprodutor. Portanto, é possível que os pais deem livros sobre o assunto para transpor essa barreira que seus próprios filhos colocaram de uma maneira menos constrangedora.</p><p>Agora, qual é a diferença entre livros infantis que falam sobre o corpo humano para os que falam exclusivamente do sistema reprodutor? Bem, primeiro que os livros sobre o corpo humano geralmente abordam uma visão do organismo inteiro, segmentando-o por sistemas: muscular, ósseo, cardio-vascular, respiratório, digestivo, etc. É necessário que a linguagem seja clara, e existem diferenças entre livros para crianças menores e maiores, assim como alguns possuem partes móveis ou que saem do livro inteiramente, imagens que brilham no escuro… a imaginação corre solta!</p><p>Um exemplo famoso e completo é a série de livros “Era uma vez… O Corpo Humano”, que aborda diferentes sistemas com minúcia e de forma completa, ao mesmo tempo que constrói uma história com humor, ação e mistério. Na França era também um desenho animado de 26 episódios, reinventando o entretenimento educativo, indo ao ar em diversos países. No Brasil é possível assistir online, apesar de nunca ter estreado na televisão.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*yBIvBImnA7XvQ7HX_JI3iQ.jpeg" /><figcaption>A série de livros tem cerca de 15 livros e foi publicada pela Editora Globo em 1995.</figcaption></figure><p>Contudo, em nem todos os livros o sistema reprodutivo está incluso. O pênis muitas vezes está lá, porém como o fim do sistema urinário; e a vagina, na maioria das vezes, não é sequer mostrada (inclusive, é comum ilustrarem o corpo feminino como um corpo ‘assexuado’, mas isto é um assunto para outra hora).</p><p>Quando, entretanto, o sistema reprodutor é abordado nesses livros, demonstra-e um foco muito maior para o funcionamento e as etapas da gravidez, ilustrando a pergunta ‘de onde nós viemos’. No livro ‘Pequenos Exploradores — Meu Incrível Corpo’, da editora Girassol, apenas uma página é contemplada a respeito. No ‘O Corpo Humano — O Livro dos Porquês’, da Usborne, meia página aborda o assunto.</p><p>A história é diferente nos livros voltados exclusivamente para a educação sexual – e diferentes narrativas são construídas dependendo de vários fatores, e creio ser além da faixa etária indicada para as crianças.</p><p>Por exemplo, o livro “De onde viemos”, da Nobel, conta com personagens e explicações simples em conteúdo, mas elabora-se no momento do sexo, abrangendo o tema do prazer e da fertilização, também delongando-se no desenvolvimento do feto. É interessante que a narrativa se inicia com a negação dos mitos em torno do nascimento, e chama as partes do corpo pelos seus nomes verdadeiros. E, apesar de mostrar o órgão sexual feminino (vitória!), define-o com apenas uma frase: ‘Tem uma pequena abertura chamada vagina’.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/628/1*Yzhq0pueN5B3HToVoHKgHg.jpeg" /><figcaption>Os pais gordinhos.</figcaption></figure><p>Já o atualmente polêmico “Aparelho sexual e CIA”, aqui publicado pela Companhia das Letras, discursa em assuntos voltados para a prática da vida, especialmente no começo da adolescência: abordagens românticas, emoções, puberdade em garotos e garotas, desejo sexual nas diferentes fases da vida, os mecanismos básicos das genitálias, a evolução da gravidez, proteção contra DSTs e à assédios de diversos tipos (na edição francesa, tem um pequeno guia de números telefônicos franceses, belgas e suíços para pedir ajuda caso o leitor se encontre numa situação de assédio). O personagem da capa não estreiou com esta publicação: Titeuf, na verdade, faz parte de histórias em quadrinhos homônimo, cuja primeira edição, datada de 1993, traz o título ‘Dieu, le sexe et les bretelles’. A sexualidade é, portanto, um tema constante na obra, e o “Aparelho Sexual e CIA” é como um compilado de tudo que foi abordado anteriormente.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/466/0*3tqt4Gf12jdeAIaj.jpg" /><figcaption>‘Titeuf’ número um: Deus, o sexo e os suspensórios?</figcaption></figure><p>Ambos os livros deixam claro que os responsáveis em ‘fazer bebês’ são os adultos. Contudo, não negam que o prazer é algo universal e que pode ser sentido por todos. No primeiro livro, o prazer sexual é comparado ao prazer de sentir cócegas (um jeito adorável de fazer crianças compreenderem, mas tenho dúvidas se seria o mais eficaz). E isto é revolucionário.</p><p>Não quero entrar no mérito dos livros voltados para adolescentes, pois não é o foco. Este artigo poderia facilmente se transformar numa pesquisa mais aprofundada, devido a quantidade de perguntas que tenho: qual é a história da publicação dos livros infantis voltados para o corpo humano e reprodução no Brasil e no mundo? Quais são os diferentes tipos, e por qual fator se diferenciam (faixa etária, país de origem, etc)? Como poderiam ser utilizados nas escolas, em terapias e na família?</p><p>Tudo constitui num objetivo claro: conversar sobre o corpo e sobre o crescimento e descoberta do mesmo é importante para o indivíduo assim como é para o coletivo. A educação sexual é um dos principais meios para o combate ao assédio e às DSTs, além de diminuir as chances de desenvolvimento da depressão ainda na adolescência. Nosso corpo nos acompanha a vida toda, e se o tratarmos como um amigo desde cedo, certamente teremos uma excelente companhia por muito tempo.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c396f096df98" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
    </channel>
</rss>