Outra feira sem querer

Acordar cedo para olhar verdura é aquela situação que só acontece por acaso

A Feira da Glória já se tornou atração para turistas, moradores e baladeiros que passam pela região aos domingos

De repente estou andando pela rua, voltando para casa; quando de longe avisto caminhões, kombis e pessoas (várias pessoas) agitadas e com pressa para colocar ordem nas bancadas.

- Nossa, mas já amanheceu? — pensei.

Hoje é domingo! E TEM FEIRA!

É na Praça Paris, logo ali, no coração da Glória. Chega a madame, só para olhar e espairecer. Até leva uma coisinha ou outra, mas sabe que carregar sacola não é para ela. Pastel com caldo de cana!? JAMÉ!

Surge o fitness, sempre correndo e com aquele semblante de quem faz mais de 200 atividades por dia, não necessariamente físicas. Foi lá na barraca de tapioca e pediu uma de banana com canela.

- Põe leite condensado? — disse a atendende.

- Oi? — retrucou afetadíssimo…

Acenou negativamente com a cabeça enquanto escolhia dois sacos para levar. Sacos de tapioca, aquela farinha. Goma, no caso.

Depois chega a tia dos gatos. Cabelo vermelho, meio encaracolado / meio ondulado e para o alto. Natureba, mística… Comprou incenso, frutas variadas, distribuía sorrisos e panfletos sobre alimentação crudívora. Amei? Amei, mas não tenho esse pique. Não para isso.

Logo aparece a família tradicional brasileira! Sempre causando… A criancinha correndo com um cachorro histérico na coleira (que mais parecia uma salsicha com perninhas), todos sorridentes e felizes. Até o maridão puxar a moçoila pelo braço, para não “dar bobeira” pros feirantes. Sabe como é, né.

Sabemos.

Quem só olhava, viu tantas cenas em poucos minutos que juntas poderiam ser uma boa esquete. A boca já seca, fome batendo forte e uns trocados que mal davam para uma água de coco. Bom, se estou na feira, é para “chorar”.

Moça bonita sempre tem desconto, já me disse o tímido senhor Antônio. Há 20 anos, o senhorzinho trabalha vendendo lindas flores no local e esbanjando simpatia. Adorei o senhor Antônio… Mas foi uma pena não comprar suas flores simplesmente porque prefiro comida.

Os românticos de plantão são a clientela garantida de “Seu Antônio”

Enfim, consegui uma água de coco. Quente, porque gelada é mais cara e não há chororô que pague. Embora sempre muito simpáticos, os feirantes dão duro para conseguir o sustento de casa e não ter prejuízo até a hora da xepa.

Filei um pedaço de melão, não vou mentir. E parecia incrível! Tinha gosto de felicidade, inexplicável. Estava uma delícia aquele melão.

Nem sei bem se era só fome… Mas deu para ser feliz naquela manhã de domingo que eu ainda jurava ser sábado.

Feira tem que ser assim; sem querer.
Bom demais, gente. Adoro.