Antes da Pandemia: as histórias de um Casarão em um evento chamado Hacktown.

Marcelo Educa
femto design
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10 min readMay 3, 2021

Nos últimos meses o formato de home office se intensificou na rotina de muitos. Há tanto tempo lidando com essa crise sanitária, recordar cotidianos anteriores deve ser um exercício involuntário para quase todos nós. Outro dia estava recordando um evento abrangência nacional e internacional que acontecia no sul de minas gerais e que foi interrompido pela pandemia: o Hacktown. Nesse texto vou dividir um pouco da minha relação com ele e das coisas que tive a oportunidade de fazer por lá e o que entendo que posso aproveitar dessa experiência para pensar o presente.

Se você já ouviu falar de (do) Hacktown, evento que acontece em uma cidade de pouco mais de 40 mil habitantes no Sul de Minas Gerais, você possivelmente ficou curioso. Se você já foi em ao menos uma das edições, você já sabe o quanto ele é intenso. Grande parte do corpo desse texto, conta a história do “Casarão femto” (uma das venues do HT) e como sua história acontece dentro da própria história do evento. Mais do que isso, procura expressar um pouco da dinâmica que o Hacktown promove no dia a dia dos cidadãos de Santa Rita do Sapucaí e dos tantos outros sujeitos que habitam a cidade durante os dias de evento. Só ao final faço as relações com a pandemia e o que levo dessa história para o contexto da vida atual.

Antes de falar do HT, é bom dizer que Santa Rita do Sapucaí tem algumas peculiaridades que se diferem da ideia de ‘cidade de interior’ que costumam se materializar através do nosso imaginário. Sua arquitetura pode expressar o modelo de uma cidade pequena, mas, por trás e por dentro dessa estética urbana, existe um polo tecnológico pulsante, com um arranjo produtivo local muito ativo, escolas de ensino técnico e superior referenciadas em tecnologia da comunicação em âmbito nacional e internacional, além de uma economia criativa e da cultura em pleno desenvolvimento. Santa Rita tem aparência de interior, mas, suas culturas contestam essa estética.

É nesse lugar que o Hacktown acontece, o que facilita bastante a execução de um evento com tamanha diversidade. Em linhas gerais, ele aborda tecnologia, inovação, cultura, arte, comportamento e protagonismo humano em vários formatos e abordagens contemporâneas e algumas vanguardistas. Durante o HT é possível cruzar com shows pelas esquinas, com aulas de yoga na praça ao lado de exposições e outras intervenções artísticas, com um papo sobre educação dentro de um bar e apresentações sobre inteligência artificial dentro de um Salão Paroquial. É neste cenário que em 2016 aterrissei em sua primeira edição.

O formato era quase que um piloto, com uma grade de atividades que já ultrapassava 50 conteúdos (em 2019 ultrapassou 600), me lembro de ter fechado o ‘role’ dessa primeira edição com um bate papo sobre futuro da educação dentro de um boteco. Sai de lá com ótimos barulhos na cabeça e meses depois descobri que haveria uma segunda edição no mesmo ano. Certo de que iria de novo convidei amigos, entre eles Alessandro Ng. Saquei que o role era muito convidativo para pessoas que estavam em movimentos interessantes de criação. À época, Ng estava protagonizando com parceiros o desenvolvimento de uma rede de profissionais que atuavam e estudavam metodologias de inovação a partir do Design de Serviços, alguns oriundos de uma escola construtivista chamada EISE (que acredito ter formado uma ótima geração de service designer no Brasil) e da SDS, uma iniciativa que se desdobra dela. Ng e esse pessoal precisavam estar lá, então fiz o convite.

Essa segunda edição de 2016 triplicou o número de participantes e conteúdos e cerca de 1500 pessoas deixaram o evento ainda mais instigante. Ng participou de um painel sobre inovação e promoveu o primeiro encontro de Sprint Master, certificação criada pela SDS (consultoria que futuramente se desdobraria em outros negócios, entre eles a femto, agência de Ng e Heitor Murbach e onde atualmente sou colaborador). À época, palestrei com duas sócias (Mariana Sayad e Julia Lopes) sobre economia criativa (Pelo Observatório Luneta, uma agência focada sobretudo em atores da economia criativa, no interior do estado de MG). Foi muito interessante ver o evento triplicar no mesmo ano.

Essa segunda edição contribuiu com a reaproximação de Ng com cidade, ele havia estudado Telecom no INATEL e estar lá no HT proporcionou a construção de negócios com a escola de ensino superior que no ano seguinte o convidou para participar de uma das etapas de seu programa de aceleração de startups (como colaborador, também atuei nesse projeto). No final do programa de aceleração, estávamos indo embora para o hotel e passamos por uma casa na avenida do INATEL, um velho Casarão que retomou memórias do Ng que contavam sobre seus esforçados (sem sucesso) para transformar aquele lugar em uma república de estudantes. Antes de irmos embora de Santa Rita, soubemos que um grupo de estudantes havia realizado com sucesso essa empreitada tão desejada por ele no passado e que agora o antigo Casarão era uma república de estudantes. Sabendo disso, fomos até lá, entramos no quintal do Casarão e ficamos imaginando como seria fazer um ‘role’ naquela casa durante uma edição do Hacktown. Para não perder tempo, tivemos um papo breve com um dos estudantes e deixamos mais ou menos engatilhado que alugaríamos a casa no próximo HT.

2017 entrou voando e os projetos da SDS (já quase femto) também voavam e neste momento eu atuava mais próximo deles, ao mesmo tempo que rodava projetos com o Observatório Luneta. Anunciada a edição do Hacktown planejamos alugar o Casarão em 4 pessoas: eu, Ng, Heitor e Fernando Gasi (que também era colaborador na SDS e participou conosco dessa primeira edição do Casarão). Entre recuos e avanços ao longo dos meses, duas semanas antes da terceira edição, Heitor Murbach assumiu as rédeas do role e projetou customizações para o Casarão. Seus movimentos impulsionaram o quarteto e nos jogamos dentro do HT com um evento não oficial chamado “Garage”.

A ideia de Garage veio cunhada na cultura de empresas que surgiram em garagens e ganharam o mercado de inovação em escalas globais, além disso, o Observatório Luneta tinha um projeto chamado ‘Cultura de Garagem’, que procurava mostram que muitos culturais poderiam acontecer dentro de uma simples garagem. O role planejado em duas semanas consistia num espaço para conectar pessoas (a gente já entendia que essa era a essencial do HT), planejamos um dia de evento no Casarão. A proposta era uma Jam Session com amigos músicos e outras pessoas que aparecessem por lá a fim de promover conexões através da música e provocações ao microfone. A ideia deu tão certo que mais de 150 pessoas passaram por lá e na noite seguinte (que não estava planejada) apareceram cerca de 100 pessoas querendo repetir ou experimentar o role. Foi melhor do que esperávamos, mas deu trabalho e no final era um misto de sensações e não sabíamos se no ano seguinte ia rolar de novo.

2018 chegou e já no início do ano falávamos de fazer outra vez, no mês seguinte desanimávamos. Isso na verdade aconteceu todos os anos. Me lembro que íamos várias vezes para o Casarão durante o ano para projetar o role e testar desde a distribuição do espaço e curadoria do conteúdo até o fluxo de pessoas e alimentação, mas principalmente como deixaríamos aquele espaço disponível e mais atrativo para fortalecer conexões. Para quem já esteve no Casarão, certamente foi possível sacar que a gente sempre estava no meio da galera conhecendo pessoas e conectando umas às outras. Esse é o grande papel do Casarão que, em 2018 ganhou o nome de “Casarão femto”.

Neste momento eu já não era mais sócio do Observatório Luneta e atuava com menor intensidade nos projetos com os meninos, porque havia ingressado em um programa de mestrado, onde meu projeto de pesquisa era estudar um movimento de Santa Rita do Sapucaí chamado “Cidade Criativa, Cidade Feliz” (em um próximo artigo falo sobre esse estudo e como ele se desdobrou).

Na construção do role, cada um de nós sempre teve atividades específicas. Heitor sempre foi o maker da turma, projetando tudo muito rápido, desenhava os modelos e testávamos antes do HT e se fosse necessário, durante o role ajustava tudo. Ele é o hacker da turma. Ng cuidava da interação entre as pessoas, como um concierge do role ele sempre chegava nas pessoas que passavam por ali durante o dia e as recebia as convidando voltar no fim da tarde e noite adentro. Eu cuidava da curadoria cultural, durante o ano conversava com artistas independentes e selos musicais para compor a diversidade musical do palco e durante a noite era o ‘MC’ do role. O role de 2018 subiu muito o nível e nas três noites tínhamos filas gigantescas do lado de fora do Casarão. Um dos nossos trabalhos durante a noite era visitar a fila, para conversar com as pessoas e minimizar a sensação de espera. O Casarão femto esteve lotado de uma baita energia durante todas as noites.

Em 2019, quando estávamos montando o Casarão para receber as pessoas, um maranhense que estava no HT pela primeira vez chegou lá dizendo: “Cara! Vim aqui pra conhecer esse lugar de tanto que me falaram dele!”. Isso só dava certeza de que o role tinha dado certo e que realmente tínhamos construído um lugar que fazia sentido como ponto de conexão para as pessoas. 2019 também nos desafiou a melhorar ainda mais a experiência. O Hacktown recebeu mais de 7 mil pessoas e fazíamos parte da experiência dele. Para nossa satisfação, o Casarão femto teve lotação todas as noites e foi considerado um dos espaços mais frequentados da quinta edição que naquele ano contava com inúmeras outras venues com palcos super atrativos.

Falando de palco, no Casarão femto inúmeros músicos e bandas apresentaram seus trabalhos autorais, alguns com experiências do mundo mainstream da música como Henrique Portugal tecladista do Skank, bandas regionais e locais como Orelha de Pau e Patronagens band, artistas solo como Nanda Mazza, duos instrumentais como o Moda de Rock, artistas super conceituais como Maria Beraldo, músicos de circuitos internacionais como Marcelo Coelho e bandas emergentes como Entalpia, selos e outros tantos artistas da música que passaram por lá deixando seu recado e contribuindo com o role.

A gente aprendeu muita coisa com o Casarão e com o HT. Quando você entende que esse modelo favorece o protagonismo das pessoas e você consegue absorver esse espírito, tudo acontece um jeito inesperado muito legal. Toda essa história serve para dizer que algumas coisas podem ser observadas e absorvidas quando você está disposto. Mesmo assim, vale dizer quais eram os aspectos que gostava de considerar logo que chegava ao Hacktown.

O primeiro deles é: o HT tem inúmeras coisas rolando ao mesmo tempo dentro de uma cidade, caminhe por ela durante o evento e esteja atento as experiências. Segundo: se o HT promove o protagonismo das pessoas dedique-se a isso e conheça pessoas e tenha certeza de que serão conexões incríveis! Terceiro: por ter muitos conteúdos, você pode querer aprimorar seus conhecimentos em algum assunto que já navega, eu sugiro o contrário. Se abra para o que não conhece, com certeza você vai encontrar inspirações muito interessantes.

Enquanto escreve esse texto é maio de 2021, mais de um ano de crise sanitária global. Não tivemos HT em 2020. Particularmente acredito que não teremos em 2021. Um contexto como esse, já tão prolongado, força mudanças comportamentais que impactam a vida social econômica de todos. Ainda não temos nada normalizado, pelo contrário, o que temos é a aceleração de alguns processos tecnológicos e culturais esperados para o futuro e a imposição de dinâmicas que ainda não permitem normalidade. O “novo normal” não passa de uma frase para manchete e acredito que tão cedo não podemos falar de normalidades, qualquer ideia de “novo normal” é pura especulação ou letargia. Com isso, também não é possível prever o futuro de nada, nem do Hacktown.

Ainda assim, é possível resgatar seu valor e, se não tivermos Hacktown novamente, que possamos valorizar suas contribuições até aqui e pensar sobre como podemos diante desse contexto: estar atento às experiências (experiência não se restringe a situações perfeitas); continuar conhecendo pessoas; estarmos abertos para o desconhecido. Acredito que esse foi o espírito praticado nesses anos de HT e que, ao se chocar com esse contexto sanitário imposto, serve para valorização atenta as experiências do cotidiano (da sua casa, do trabalho, das suas relações humanas com atores humanos e não humanos: redes sociais, por exemplo). Nessa dinâmica de transformações que atravessamos o protagonismo humano precisa ser reverenciado da melhor maneira possível, para a construção de práticas de cotidianos que agora vivenciamos. De novo, ainda não é possível falar de um novo normal, o que é possível é observar e mesmo perseguir os movimentos das novas práticas que emergem.

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Marcelo Educa
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Esposo, aprendendo a ser pai. Karate-ka apaixonado por montanhas. Compositor nas horas de inspiração, aspirante no audiovisual, Service Designer de profissão.