Religare


Ícaro fechara os olhos repentinamente, porque os ventos vindos do rio, aquela hora, endurecia seu corpo desprotegido, tal qual água de cachoeira paralisa os músculos quando se molha de repente.

Então Dora esticou os braços, uniu as mãos como concha em volta do rosto de Ícaro e o aconchegou com ternura em seus pequenos dedos.

Dora tinha as mãos aveludadas, com singelas saliências de carne entre as divisões desenhadas pelas três linhas digitais, agora ressaltadas nas dobras moldadas ao rosto apanhado.

Depois, reclinou os braços e fez trazer junto a sua face esquerda, a face direita de Ícaro.

Ficou ali, segurando com as mãos, o rosto encostado ao seu, em serenos, demorados e delicados movimentos.

Religare é verbo latino: estar em contato com o superior, com o ideal. Com Deus.

Neste estado inominável, as peles de Ícaro e Dora comunicaram-se ritualmente a maneira mais densa, profunda e íntima da existência entre os seres.

“O Beijo” Gustav Klimt. 1907
A corrente de ar fria daquela noite contrastava o mormaço que fizera durante o dia, e de modo alegórico, reforçava que o estado das coisas não tem que ser, absolutamente, o mormaço sufocante da sobrevivência diária e rotineira que haviam submetida a vida. Tantas demandas. Cada vez mais barulhentas , efusivas. Fugazes, e, quase sempre, Inúteis.

Ícaro sentia como se lhe roubassem, dia após dia, o silêncio e sua possibilidade. E a contemplação era coisa esquecida, ultrapassada. Angústia lançada no ócio, crime envergonhado.

Com a mesma força que os pulmões tuberculosos, no leito de morte, buscam desesperadamente o oxigênio, as distrações taciturnas acometiam as massas.

Mas era preciso parar. Voltar.

Aquietar.

Ouvir aquilo que ainda carecia palavra.

Prestar atenção nas verdadeiras demandas nascidas no silêncio. Assim como os rios nascem na solidão das montanhas em estreitos e ralos fios d’água, antes de se tornarem correntezas invencíveis.

Por isso, todos os rios, quando nascem, cabem na palma da mão.

Nas mãos de Dora.