Entendendo a cultura de violência no futebol

Falamos com Mauricio Murad, sociólogo e pesquisador da violência no futebol

Foto: Gabriel Paes

O cenário de violência no Brasil é banalizado. O país registra, em pleno século XXI, índices assustadores de homicídios, estando à frente de conflitos como a guerra da Síria. Pessoas foram transformadas em números.

Todos os dias alguém morre vítima de uma bala perdida, de um conflito armado com bandidos — quando a vítima não é o próprio policial — , por um acerto de contas ou simplesmente por ser negro, gay, mulher (às vezes tudo junto) e esse número chega a quase 165 assassinatos por dia.

Torcidas do Rio de Janeiro se juntam em ato contra o presidente eleito Jair Bolsonaro.

O quadro de violência no esporte mais popular do país é apenas reflexo do restante da sociedade e, para a maioria da população, as torcidas organizadas é que causam os confrontos físicos. Sabe-se que elas são responsáveis pela grande festa nas arquibancadas e registram muitas famílias associadas, ou seja, os argumentos convergem. Aonde está o foco do problema então?

“As torcidas organizadas não são o problema principal da violência no futebol. A questão central tem a ver com as gangues de delinquentes infiltradas nas organizadas. Esses grupos sim é que são os responsáveis pela agressividade, violência e óbitos”
Foto: Agência Estado

A afirmação é de Mauricio Murad, sociólogo que estuda há mais de 20 anos os casos de violência no futebol. Autor de A violência no futebol, ele aponta em estudos que 90% dos delitos no universo do futebol ocorrem fora dos estádios, nas proximidades e até em distâncias muito longas — entre 50 e 60 km — , quase sempre em horários e dias diferentes dos jogos.

O Ministério Público força medidas descabidas para conter os números da violência no futebol brasileiro. A saída mais fácil para conter — não resolver, apenas estancar — os conflitos foi segregar os torcedores. A medida, chamada de “Torcida Única” é válida para os clássicos em São Paulo e impedem o torcedor rival de ir o estádio, a fim de evitar o confronto entre as torcidas.

No Paraná, o Atlético-PR foi ainda mais autoritário e proibiu a entrada de todas as torcidas adversárias.

O Minha Sampa, coletivo de pessoas organizado para atender a demandas populares, também se posicionou sobre o assunto e criou uma plataforma recheada de dados que comprovam a ineficácia da Torcida Única. Dentre os mais relevantes, chama atenção que “das 275 mortes registradas desde outubro de 1988, apenas 9 foram ocorreram dentro de um estádio”.

Segregar os torcedores, portanto, não funciona nem como remédio para a violência, já que o palco das brigas não é somente o estádio.

“A torcida única não é a solução desse grave problema. Isso é uma “canetada”, medida de cima pra baixo, que criminaliza as torcidas e não resolve o problema. É total falta de conhecimento específico, em bases científicas, do que são exatamente as práticas sociais de violência que agridem o futebol. Além disso, é uma resposta imediata e mediática aos reclamos sociais, diante dessas estatísticas perturbadoras que o brasil apresenta, em âmbito geral e também no futebol.”
Erasmo Dias foi Secretário de Segurança Pública de São Paulo entre 1974 e 1978. (Foto: Gazeta do Povo)

O Coronel da PM de São Paulo, Erasmo Dias, foi o primeiro responsável por dividir as torcidas no Brasil. Após um esfaqueamento envolvendo torcedores, em 1977, o comandante instituiu o cordão de policiais nas arquibancadas, sob a justificativa de evitar novos conflitos.

Se a Torcida Única é cantada com tanta eficiência pelo poder público e a divisão de torcidas ocorre há mais de 40 anos, por quê foi pensada só agora?

“Foi todo um processo histórico, que juntou a criminalização das torcidas juntamente com a impunidade dos transgressores e a grave omissão do poder público. Um descaso que não se restringe ao futebol, mas que também alcança os seus espaços sociais”, afirma Murad.

A violência por outro ângulo

PM em confronto com torcedores do Palmeiras. (Foto: Gazetapress)
“As leis e os protocolos de segurança já estabeleceram o que pode e o que não pode entrar num estádio. O que tem faltado em geral no brasil é uma fiscalização mais rigorosa, que ao mesmo tempo preserve a alegria, os cânticos, as alegorias da festa do futebol, e a garantia da liberdade de todos e igualmente a garantia daquele que é considerado o bem jurídico maior: o direito à vida.”

No Brasil, atualmente, a polícia que faz a segurança de eventos esportivos é a mesma que atua em manifestações. E esse é o cenário que criamos para as crianças que frequentam os estádios e crescem convivendo com os caminhões da tropa de choque.

“O treinamento das tropas precisa mudar para lidar com multidão, que é bem diferente da ação operacional com delitos individuais e em pequenos grupos.”

O Ministério Público do Rio de Janeiro e o Disque Denúncia firmaram uma parceria para compartilhar informações sobre crimes relacionados ao futebol, mas a união de forças é vista como oportunismo pelo sociólogo:

“Defendemos há mais de 20 anos a criação do disque-denuncia das torcidas organizadas. Vejo com alegria que o MP do Rio tornou público que fará uma parceria com o disque-denuncia, para esse fim. Mas é interessante que falaram isso na mídia, como se fosse uma ideia absolutamente original, criativa e conclusão inovadora deles”.

Saídas efetivas

No Rio Grande do Sul, o caminho foi inverso: para promover a paz entre as torcidas, em todo clássico Gre-Nal uma parte dos ingressos é destinada ao setor misto, onde ficam torcedores dos dois times.

“É preciso desenvolver um plano nacional de segurança no futebol, que reúna medidas de curto, médio e longo prazos. Um plano integrado, consistente, permanente e feito em bases científicas. Um plano que respeite o futebol como patrimônio cultural e coletivo e que preserve o direito do torcedor-cidadão. Campanhas pela torcida mista tem sido na prática uma boa ideia e não fere a cultura do futebol. Os clubes precisam se envolver, os ídolos dos times e também os setores pacíficos das organizadas, que são maioria.”

O Senador Hélio José, no início de 2018, relembrou duas emendas que apresentou ao Projeto de Lei do Senado (PLS) 68/2017. As propostas causam espanto em alguns e são bem recebidas por outros, que acreditam na eficácia dessas medidas para controlar a violência no futebol.

A primeira visa “o monitoramento por imagem nos estádios, com identificação biométrica, visando a impedir o ingresso daqueles que foram punidos pelo Estatuto do Torcedor.”

A segunda emenda determina que “todos os torcedores com mais de 16 anos de idade sejam devidamente cadastrados, para possibilitar a identificação.”

“O cadastramento foi e tem sido uma boa medida, em todos os locais em que foi implementado. Mas nenhuma experiência conseguiu zerar as mortes relacionadas ao futebol, nem mesmo a Inglaterra. Mas é possível e mais do que necessário reduzir a violência no esporte e colocá-la sob o controle das leis, da ordem social, da cidadania e do respeito civilizatório ao outro, ao diferente, que é adversário, mas não inimigo e muito menos inimigo a ser abatido.”

O sociólogo encerra dizendo que “segurança pública é prioridade, como saúde e educação. É cara, mas o retorno para a sociedade vale a pena. Não se faz economia nesses setores, sob pena de pagarmos um preço muito mais alto no futuro imediato”.

Mauricio Murad é sociólogo da Universidade Salgado de Oliveira, no Rio, e autor do livro “A violência no futebol: novas pesquisas, novas ideias, novas propostas” (Editora Saraiva, selo Benvirá-SP).


Você sabia que existe um Estatuto da Defesa do Torcedor? No primeiro artigo, ele cita:

2 Art. 1º-A. A prevenção da violência nos esportes é de responsabilidade do poder público, das confederações, federações, ligas, clubes, associações ou entidades esportivas, entidades recreativas e associações de torcedores, inclusive de seus respectivos dirigentes, bem como daqueles que, de qualquer forma, promovem, organizam, coordenam ou participam dos eventos esportivos.