A Força da Vida e do Amor, em Ensaio de Constanza Portnoy

Paraty Em Foco
Jun 3 · 7 min read

PARATY EM FOCO: Um Festival para Todos os Olhares

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Portar uma deficiência não reduz em nada as capacidades de um ser humano de amar e de ter empatia. Essa é mensagem que nos traz o tocante Ensaio de Constanza Portnoy, Life Force: What Love can Save, Segundo Colocado na Convocatória Portfólio em Foco 2018. A série, ainda em aberto, retrata o dia a dia de Jorge, sua mulher Vero e sua filha Ángeles, que vivem em Buenos Aires.

Jorge nasceu com má formação congênita, causada pela presença da talidomida em medicamento prescrito quando sua mãe estava grávida. Sua família vive à margem dos programas de cobertura social na Argentina. O trabalho de Constanza Portnoy, que também é psicóloga de formação, atua de forma a revelar uma vida permeada de dificuldades e de muito amor. O trabalho ganhou prêmios e bolsas em diversos países.

Em entrevista ao BLOG-PEF, Constanza Portnoy nos conta um pouco sobre como se tornou fotógrafa e como esse ensaio, ainda em andamento, nasceu. Confira:

Imagens do ensaio Life Force: What Love can Save, de Constanza Portnoy

BLOG-PEF: Onde nasceu, quantos anos tem e onde vive/trabalha atualmente?

Nasci em Buenos Aires na década de 1980, em plena ditadura militar Argentina. Terrível época e terrível momento para meu país, que estava envolvido em uma grande violação dos direitos humanos.

Atualmente vivo na província de Buenos Aires, a cerca de 20 km da capital federal e trabalho de maneira independente como fotógrafa através da investigação documental de certas temáticas que são de meu interesse. Em geral se trata de temas que se relacionam com minha história e com meu lugar como mulher.

A incapacidade é uma dessas problemáticas na qual estou muito interessada a me aprofundar por meio da linguagem visual e isso se relaciona com minha outra profissão, que é a psicologia, dado que minha especialização de pós-graduação se dá no âmbito das deficiências.

BLOG-PEF: Conte um pouco do seu percurso na fotografia: quando e porque começou a fotografar, qual formação teve, quais trabalhos já fez.

Comecei a estudar fotografia há relativamente pouco tempo, menos de cinco anos atrás. Mas foi um percurso muito intenso desde o primeiro momento Continuo aprendendo e estudando o tempo todo.

No início, me aproximei do estudo da fotografia para incorporá-la como ferramenta de trabalho de arte-terapia para desenvolver dentro dos dispositivos terapêuticos. Naquele momento, eu estava trabalhando com crianças diagnosticadas com esquizofrenia infantil, psicoses e autismos severos. Eram casos muito graves.

Me alegra saber que, hoje em dia, muitas dessas crianças com a quais trabalhei incorporando a fotografia como recurso de arte-terapia, se encontram com uma câmera em suas mãos narrando o mundo através das imagens, inclusive alguns chegaram a participar de mostras e exposições em Buenos Aires.

A partir desses primeiros momentos, também houve uma mudança muito importante para mim, porque comecei a sentir a necessidade de usar a fotografia não somente como ferramenta arte terapêutica mas também como possibilidade de comunicação visual de vozes e demandas populares.

Imagem do ensaio Life Force: What Love can Save, de Constanza Portnoy

Senti assim, em meu interior, a necessidade de explorar o campo do fotojornalismo e então comecei a me formar por meio de aulas, workshops, oficinas, tutoriais e material de leitura. Durante vários anos, absorvi tudo o que estava ao meu alcance para aprofundar tanto em aspectos conceituais como na prática fotográfica e uma vez que me senti capacitada comecei a colaborar com meios de comunicação independentes e autogeridos. Fotografei as lutas de resistência social nas ruas do meu país junto com as distintas manifestações e reivindicações dos setores mais oprimidos.

Mas sentia que necessitava orientar minha prática para um tema que me permitisse investigar em profundidade, que me aproximasse das pessoas por um período mais longo e ali encontrei o lugar que finalmente me apaixonou por completo: a fotografia documental.

Através dessa prática, me aproximei da temática da deficiência desde um lugar diferente, que não era o da psicóloga profissional que atendia seus pacientes no hospital, mas o da fotógrafa que estava do outro lado, acompanhando seu cotidiano, seu dia-a-dia. Encontrei uma intimidade muito maior e uma proximidade, com o exercício da fotografia documental.

Sentir como à medida em que vão passando os dias e as horas, a câmera desaparece e as imagens se tornam magia, é algo único e que não se vive em qualquer profissão.

Através da fotografia documental podemos obter imagens tão reais e ao mesmo tempo tão subjetivas. Pois uma vez que todo o nosso ser está inserido na mesma cena que buscamos abarcar, o olhar é sempre subjetivo, ainda que exista o ideal de objetividade.

BLOG-PEF: Conte um pouco sobre a história do ensaio Life Force: What Love can Save. Qual a proposta, quando começou, quais foram os desafios e dificuldades encontrados, em quais lugares foi publicado, exposto ou premiado, ainda continua em aberto?

O ensaio “Life Force: What Love can Save” teve início porque a deficiência é um tema que sempre me interessou abordar, entender, questionar e aprofundar.

É algo que me atravessa em nível pessoal e de história familiar e creio que por isso sinto como uma necessidade de explorá-lo.

Há mais de 15 anos que faço isso como psicóloga e quando a fotografía documental chegou em minha vida obviamente que eu já tinha todo um percurso sistemático nesse tema, o que me dava amplo conhecimento e experiência. Foi como nadar em meu próprio oceano. Não é como se um dia eu tivesse acordado e decidido fotografar pessoas com deficiência ou que o trabalho de um outro fotógrafo tivesse me inspirado, mas muito pelo contrário, o desejo de começar a fotografar essa temática da deficiência era como meu próprio espelho. Não tive que pensar sobre que tema queria abordar, nem como ia fazer, nem o que queria contar. Tudo isso já estava gestado dentro de mim por conta de minha profissão e de meu percurso como psicóloga e por minha própria história pessoal.

Imagens do ensaio Life Force: What Love can Save, de Constanza Portnoy

Quando conheci Jorge e sua família a única coisa que tive que fazer foi contar a ele minha ideia para que tudo tomasse forma e ação.

Houve muito compromisso e disponibilidade por parte de Jorge e sua família, as primeras aproximações demoraram um tempo porque no é fácil abrir as portas a uma pessoa estranha que quer retratar sua intimidade e vulnerabilidade. Mas se você como fotógrafa aprende a saber permanecer, dar confiança, saber esperar, ter paciência e não desesperar-se para fazer fotografías aos montes, tudo começa a fluir e as inibições do início podem ser enfim superadas.

A ideia inicial de “Life force: What Love can Save”, foi contar exclusivamente as dificuldades e o aspecto mais trágico da deficiência na Argentina. Mas à medida em que fui avançando com Jorge e sua família, a segunda parte do título “What love can Save” começou a ter um peso tan aterrador, que foi impossível não virar para esse ângulo. O da ternura, o amor, a autoestima, a fortaleza, os vínculos que podem ser construídos dia a dia, o desejo de amar e de ser amado frente à total indiferença da sociedad chamada “normal” e um Estado Argentino que em lugar de proteger, abandona e condena as pessoas com deficiência da exclusión à marginalidade.

Esse ensaio fotográfico teve uma recepção muito boa em nível internacional, ganhou vários prêmios importantes, reconhecimentos e menções. La fotografias percorreram vários países da Europa, Asia e América Latina.

No início, eu não tive nenhum tipo de pretenção ou ambição de participar em concursos ou que esse ensaio percorresse o mundo. Só queria que fosse publicado na Argentina e que ele tivesse um impacto positivo na vida dos protagonistas do ensaio. Mas de forma surpreendente e decepcionante em nosso país foi onde teve menos interesse. Onde encontramos mais travas, mais obstáculos e mais censura para publicar, expor e difundir esse ensaio e essa temática da deficiência em geral. Por isso tomei a decisão de lançá-lo internacionalmente e por sorte nos abriram as portas.

BLOG-PEF: Conte um pouco sobre a repercussão de sua premiação na Convocatória PEF 2018 e sobre seus projetos atuais.

Poder chegar a países de nosso próprio continente é muito importante para mim. Porque nós sabemos tudo o que nos é comum por viver na América do Sul e mais, quando se trata de uma mulher que se dedica à fotografia documental de maneira independente. Então ter esse espaço de reconhecimento e oportunidade adiciona em muito o valor.

Atualmente, graças aos diferentes prêmios e bolsas que obteve o Ensaio fotográfico, pude continuar financiando o projeto e permitir que seja um work in progress, ao mesmo tempo em que começo a trabalhar em outras áreas com outras pessoas com deficiência que querem dar seu testemunho.

Quer colaborar com o BLOG PEF? Envie sua proposta de pauta, resenha de exposição ou livro de fotografia para:

blogparatyemfoco@gmail.com

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