Imagem da série Um Dia Será o Mundo…, de Ana Sabiá.

Ana Sabiá: fotografia, fúria e paixão

Paraty Em Foco
Mar 9, 2018 · 6 min read

PARATY EM FOCO: Um Festival para Todos os Olhares

Inscreva-se na Convocatória Portfólio em Foco 2018 !

Ganhadora da Convocatória Portfólio em Foco 2017 na categoria Foto Única, com a imagem intitulada Sonho de Uma Noite de Primavera, Ana Sabiá é formada em Artes Visuais e desde 2008 vive e trabalha em Florianópolis (SC). Seu trabalho se destaca como expressão de afetos, envolve "fúria e paixão", como ela mesma define.

Além da prática fotográfica, Ana Sabiá também se dedica à pesquisa sobre fotografia e atualmente realiza Doutorado sobre fotógrafas catarinenses na Universidade Estadual de Santa Catarina, orientado por Sandra Ramalho. Suas abordagens privilegiam abertamente as questões de gênero e se afirmam como expressão de um olhar feminino crítico e instigante.

Confira abaixo a entrevista concedida por ela ao BLOG-PEF, além de imagens de outros trabalhos, incluso Ecdise, ensaio pré-selecionado na Convocatória PEF 2017.

Imagens da série Panorâmicas do Desejo, de Ana Sabiá: no alto, Delírios de uma Noite de Primavera, ganhadora da categoria Foto Única na Convocatória PEF2017, acima, Sonho de uma Noite de Verão.

BLOG-PEF: Onde nasceu, quantos anos tem e onde vive/trabalha atualmente?

Nasci em 1978 na cidade de São Paulo e desde 2008 vivo e trabalho em Florianópolis, ilha de Santa Catarina. Atualmente, participo do Núcleo de Estudo em Fotografia e Arte (NEFA) coordenado por Lucila Horn e desenvolvo minha tese de doutorado, na Universidade do Estado de Santa Catarina, investigando a produção poética de fotógrafas catarinenses a partir de perspectivas de gênero e ensino de arte.

BLOG-PEF: Conte um pouco do seu percurso na fotografia: quando e porque começou a fotografar, qual formação teve, quais trabalhos já fez.

Meu primeiro encontro com a fotografia aconteceu em 1998, durante o período de graduação em artes visuais na FAAP. Naquele momento foi um contato superficial pois estava muito envolvida na minha linguagem plástica de então, que era a pintura. Em 2004 fui, conscientemente, atrás de um aprendizado fotográfico em um curso livre no MAM, ministrado por Eduardo Castanho. A partir deste momento a fotografia entrou no meu campo de experimentação e interesse. Em 2010, já residindo na ilha, resolvi trocar minha câmera analógica pela digital e me iniciei profissionalmente na fotografia social com ensaios de mulheres e gestantes. Esse trabalho, que inicialmente prazeroso, se mostrou insuficiente às minhas aspirações artísticas e pessoais. Quando me tornei mãe, em 2011, iniciei despretensiosamente o caminho que me levaria de vez a assumir a fotografia como paixão, pesquisa e arte: um projeto fotográfico a partir de autorretratos com meu filho, onde buscava compreender a minha experiência maternal e a relação que se construída cotidianamente entre nós. Retratei também outras oito mulheres-mães (com seus filhos e filhas) que aceitaram participar e, percebendo a riqueza dos encontros e imagens, apostei esse projeto fotográfico autoral — intitulado Madonnas Contemporâneas — como material de análise em pesquisa acadêmica de mestrado em psicologia social, realizado entre 2013 a 2015 na Universidade Federal de Santa Catarina. Esse projeto apareceu, se ampliou, foi divulgado e premiado para além dos muros da universidade, em variados contextos artísticos. Isso me trouxe a satisfação de ser vista e contemplada pela fotografia a que me propunha fazer: aquela que despertasse em mim fúria e paixão em sua realização.

Imagens da série Madonnas Contemporâneas, trabalho que projetou Ana Sabiá como fotógrafa e artista visual.

BLOG-PEF: Conte um pouco sobre a história da foto ganhadora da Convocatória. Como ela foi realizada, em que contexto, faz parte de uma série, em quais lugares foi publicada, exposta ou premiada?

A foto Delírio de Uma Noite de Primavera faz parte da série Panorâmicas do Desejo, de 2016, onde proponho construções imagéticas oníricas. A série surgiu a partir do desejo da experimentação estética, ao buscar nos meus arquivos de imagens aquelas das quais eu gostava mas, que por alguma razão, haviam sido negligenciadas. Decidi dar uma segunda chance à algumas daquelas fotografias explorando a ideia de construir pequenas histórias a partir da junção delas, como um collage ou uma montagem de fotogramas de cinema. Iniciei a contar uma história, propor uma narrativa de uma película surrealista e gostei da experiência. As quatro ‘historietas’ que compõe a série são intituladas com palavras derivadas do estado mental que abarcam o inconsciente: sonho, devaneio, vigília, delírio e cada uma está ligada à uma estação do ano. Me contempla a ideia da fotografia como — mais do que conhecimento da realidade concreta — autoconhecimento. Aquilo que o que vejo também me olha — como na dialética defendida por Didi-Huberman e Merleau-Ponty — me afeta e me constrói como sujeito da minha realidade subjetiva e da nossa realidade coletiva. A fotografia ganhadora na convocatória do PEF 2017 foi selecionada e exposta anteriormente em duas outras oportunidades: no 3° BIT! Festival de Fotografia, tema “Landscape”, promovido pela Incubadora de Artistas (Atibaia/SP) em 2016 e na ExpOcupação: Mulheres da Fotografia na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti (Florianópolis/SC) em março de 2017. No entanto, vê-la ampliada em grandíssima escala na praça de Paraty, em ocasião do festival, me causou um impacto tão forte que foi como se a estivesse vendo pela primeira vez!

Imagens das série OVO (no alto) e Do Porão ao Sótão (acima), de Ana Sabiá.

BLOG-PEF: Conte um pouco sobre a repercussão de sua premiação na Convocatória PEF 2017 e sobre seus projetos atuais.

A primeira repercussão é a satisfação pessoal de ter sido avaliada e contemplada por um júri, formado igualmente por homens e mulheres, reconhecidamente competente no campo da estética e crítica da fotografia. É uma alegria saber que o trabalho sensibilizou olhares e reflexões, ou seja, comunicou e repercutiu afetos para além de entendimentos e propósitos do autor/a. Em segundo lugar, ter estado em destaque no festival de fotografia mais renomado do país me deu a oportunidade de fazer contatos com públicos diversos, trocas de ideias com profissionais da área e ter mais confiança na minha busca e trajetória dentro da fotografia. Meu trabalho autoral cada vez mais vem se afirmando na busca de um autoconhecimento que necessariamente está ligado às relações que construo no meu entorno com pessoas e situações. Minhas ideias imagéticas nascem do meu universo particular a partir de inquietação, angústia, dor, curiosidade, estupor, prazer e outra infinidade de sentidos que busco compor, muitas vezes, a partir de elementos simbólicos, pois acredito que dessa maneira consigo abarcar um pouco mais a multiplicidade de leituras possíveis. E, inevitável afirmar, que este universo vem à luz sob a perspectiva de um olhar feminino crítico, terno mas insubmisso, lúdico mas contextual, maleável mas resoluto que consolida a existência e potência das mulheres no fazer e pensar a fotografia contemporânea.

Em 2018 minha série Do Porão ao Sótão (2017) foi selecionada e será exposta em três cidades catarinenses: pelo projeto Espaços Visuais — Rede Sesc de Galerias 2018 (SC), com itinerância nas cidades São Bento do Sul e Joinville (entre agosto e dezembro) e através do edital de ocupação da galeria da Casa de Cultura Dide Brandão, em Itajaí, em janeiro de 2019. Outro projeto a curto/médio prazo é construir a oportunidade de expor minha série Ecdise com as fotografias ampliadas em tamanhos grandes. Foi um trabalho especialmente difícil e pessoal, que tenho muita alegria de ter realizado e agora acho que chegou o momento de trazer à publico. Neste período me encontro na elaboração da minha tese de doutorado, que demanda muito tempo de escrita e pesquisa, mas mantenho acalentada a recente série, em processo, OVO (2018). Como Sabiá me questiono: que espécie de vida sairá desse meu ninho?

"Amor", imagem de Ana Sabiá. Fotógrafa expressa um olhar feminino crítico e instigante.
Imagem da série Um Dia Será o Mundo…, de Ana Sabiá.

Quer colaborar com o BLOG PEF? Envie sua proposta de pauta, resenha de exposição ou livro de fotografia para:

blogparatyemfoco@gmail.com

Festival Paraty em Foco

PEF: Um Evento para Todos os Olhares

Paraty Em Foco

Written by

Festival Paraty em Foco

PEF: Um Evento para Todos os Olhares

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade