

Erik Vroons traz seleção de Novos Talentos Holandeses ao PEF
Por Érico Elias
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Editor da revista holandesa GUP (Guide to Unique Photography), Erik Vroons realizou uma seleção de 15 Novos Talentos Holandeses para uma mostra que será realizada durante o Paraty em Foco 2018, com apoio do Consulado dos Países Baixos no Rio de Janeiro. A seleção revela uma cena fotográfica vibrante, com muitos trabalhos arrojados. Ao mesmo tempo, são obras que dialogam com a tradição artística holandesa, bastante forte nos retratos.
Erik Vroons também estará em Paraty para se apresentar na série de Encontros e Entrevistas e para entrevistar o fotógrafo holandês Eddo Hartmann, na mesma série. Ele ainda dará um Workshop de dois dias voltado aos fotógrafos que buscam um aporte criativo para dar continuidade aos seus projetos, visando as formas de expor nos diferentes meios.
De sua casa em Amsterdã, Erik Vroons respondeu por e-mail a um entrevista exclusiva para o BLOG-PEF. Confira abaixo:

BLOG-PEF: Conte-nos um pouco sobre sua carreira, seu trabalho como jornalista, crítico e professor de fotografia. Desde quando você trabalha na GUP?
Eu cheguei relativamente tarde à fotografia como um campo de trabalho. Isso se deu somente em 2007, quando comecei meu Mestrado em Estudos Fotográficos (finalizado em 2009). Antes disso, eu tinha me formado em Comunicação e Política e por um longo tempo hesitei se queria continuar minha carreira naquela direção. Ainda que tenha diversos trabalhos paralelos relacionados à universidade nunca comecei de fato um Doutorado, o que me levaria a uma carreira acadêmica. Olhando para trás, me sinto feliz por isso — sinto que na fotografia todos os meus demais interesses acadêmicos se juntam. O Mestrado em Estudos Fotográficos, com Susan Meiselas (Magnum) como Coordenadora, realmente me abriu os olhos.
BLOG-PEF: Conte-nos um pouco sobre a história e a proposta da revista GUP.
A revista GUP começou a circular em 2005, anos antes que eu viesse a pensar em fazer algo no universo da fotografia. Ela foi criada por dois caras da minha idade, que tinham acabado de se formar naquela época. Os dois tinham um interesse comum pela fotografia e conseguiram fazer um primeiro volume único. Fizeram em parceria com Roy Kahmann — que na época administrava a galeria HUP (Holland Unique Photography), em Amsterdã, especializada em fotografia holandesa.
Como todos tinham seus próprios trabalhos, eles realizavam as reuniões editoriais na galeria fora de horário comercial. Foi assim que conseguiram lançar o primeiro número da GUP (Guide to Unique Photography). Não tenho certeza, mas acho que era bilíngue — Holandês e Inglês — e eles tiveram de circular com a revista por diversos países para distribuí-la e apresentá-la às lojas de museus e donos de pontos de venda.
Talvez até para a surpresa deles, conseguiram vender cópias suficientes para produzir o número seguinte e assim foi até 2010, quando a GUP ganhava as ruas com seis números temáticos por ano. Foi também nessa época que eu, logo após me formar, ofereci meus serviços à revista como colaborador. Um de seus fundadores saiu e logo me convidaram a trabalhar como Editor Chefe da edição impressa, enquanto meus colegas começavam a desenvolver e editar nosso webzine.
A partir 2015, continuei a participar da revista como Editor Colaborador, passando a atuar mais como um escritor, editor e orientador freelancer.


BLOG-PEF: Como você entrou em contato com o Paraty em Foco? A GUP teve um número dedicado ao Brasil em 2014. Conte um pouco sobre a concepção dessa edição. Como você vê a fotografia no Brasil e na América Latina atualmente?
De fato, como mencionado anteriormente, cada número da GUP é dedicado a um tema e outros países (Japão, Rússia, Índia) já haviam sido escolhidos. No final de 2013, sabendo que iria ocorrer a Copa do Mundo e que todos os veículos de imprensa estariam com os olhos voltados para o país, decidimos lançar uma edição especial focada no Brasil logo nos primeiros meses de 2014.
Não muito antes disso nós também fizemos um número especial sobre a fotografia mexicana e eu fui de fato ao país para descobrir jovens fotógrafos e ter uma melhor ideia da cena fotográfica local. Mas no caso do Brasil isso não foi possível. Tive de me contentar em fazer uma pesquisa por meio de experts locais que entrei em contato e me ajudaram a encontrar um caminho. É claro que nossa ambição é sempre a de ser o mais completo possível e o ideal seria poder ter feito minha pesquisa in loco, mas acredito ter feito um bom trabalho de qualquer maneira.
Por um acaso, a edição dedicada ao Brasil teve 4 opções de capas diferentes — algo que nunca havíamos feito antes (pelo menos até então).
O Paraty em Foco só apareceu no meu radar este ano, quando estava realizando um levantamento dos festivais fora da Europa. Nos últimos anos venho visitando diversos eventos na Ásia, mas agora resolvi buscar coisas que acontecem no Ocidente. E foi assim que aconteceu que eu ter chegado até vocês e de onde surgiu a proposta para não apenas representar a GUP como também apresentar uma seleção de fotógrafos do meu país para uma exposição externa.
BLOG-PEF: Conte-nos sobre o projeto New Dutch Photography Talent (Novos Talentos da Fotografia Holandesa). Podemos considerar que a Holanda é um país de grande relevância na fotografia atualmente, com instituições como o World Press Photo, agências como a NOOR, e revistas como a GUP. Qual é o estado atual da fotografia holandesa no seu ponto de vista?
É verdade que a Holanda tem uma comunidade fotográfica vibrante, mas historicamente isso aconteceu só muito recentemente. Por assim dizer, a fotografia não se desenvolveu por aqui como nos países vizinhos durante o Século 19. Somente depois da Segunda Guerra Mundial é que um grupo de fotógrafos engajados começou a construir uma infraestrutura para sua produção, a começar pelo World Press Photo.
Nós realmente investimos na qualidade da educação nas academias de arte e como resultado temos um saldo anual de 500 novos formados em variadas instituições. Ao mesmo tempo, a infraestrutura de museus se expandiu, com quatro novas instituições especializadas em fotografia (FOAM e Huis Marseille em Amsterdã, The Nederlands Photomuseum, em Roterdã, e Haia também tem seu próprio museu). Além disso, temos uma vintena de galerias especializadas, diversos festivais nacionais e internacionais e muitos eventos (por exemplo, temos anualmente a Unseen, feira que hoje se transformou em festival).
Então sim, é verdade que temos uma cena vibrante com um leque de atividades. Acho que é de certa forma um traço nacional esse de ser produtivo, inovador e crítico. Nós não ligamos muito com a preservação de velhas tradições — pelo menos não no mundo da arte — e estamos constantemente buscando algo de novo e fresco.
Hoje podemos ver isso ocorrendo em muitos outros lugares também e com isso, a Holanda é apenas mais um dos muitos países nos quais a fotografia está passando por um boom — na verdade hoje em dia temos mais a preservar do que muitos outros países europeus que tiveram importantes progressos na última década. É também por isso que eu adoro viajar e ir a festivais internacionais como o Paraty em Foco!


BLOG-PEF: Você é responsável pela curadoria da exposição que reúne 15 novos talentos da fotografia holandesa, baseada no tema deste ano: “Fotografia: Utopia / Distopia”. Conte um pouco sobre suas escolhas e o que o público pode esperar dessa mostra.
Desde 2012 nosso time editorial produz um catálogo anual com 100 fotógrafos emergentes (formados há no máximo 5 anos ou em início de carreira). Isso significa que atualmente temos uma fantástica coleção de 600 fotógrafos que estiveram nesse catálogo nos últimos anos. Como já atuava de maneira independente, também tinha a intenção de ampliar minhas atividades como editor para o campo da curadoria. Tenho apresentado a Nova Fotografia Holandesa em diversos festivais, mas somente como slideshow. Ano passado fui convidado por uma galeria de Taipei (Taiwan) para levar uma pequena seleção de jovens fotógrafos holandeses e desde aquela experiência percebi como seria importante para esses talentos obterem uma melhor projeção internacional.
Por isso agora estou indo a Paraty, apresentando o conceito do New Dutch Talent (Novos Talentos Holandeses) por meio de 4 imagens de 15 talentos — 59 no total (um dos fotógrafos entra com 3 imagens).
Considerando o espaço limitado e o fato de ser uma externa, optei principalmente por fotógrafos que produzem imagens que são fortes por si próprias — muitas delas são retratos, já que esse gênero sempre esteve entre os mais praticados por grandes artistas holandeses (retornando ao Século 17, pintores como Vermeer ou Rembrandt, que até hoje servem de referencia para novas gerações de fotógrafos).
Mas é preciso dizer que muitas dessas imagens na verdade fazem parte de trabalhos mais amplos que normalmente vêm de conceitos e interesses sociais específicos. Fica claro ao ver o material selecionado que o pensamento social e crítico está no DNA de nossas escolas de arte hoje e esse grupo de artistas representa um bom exemplo da ampla variedade de abordagens para o retrato na Holanda.
BLOG-PEF: Você vai da um Workshop em Paraty. Qual será o conteúdo? O que você espera encontrar? É sua primeira vez no Brasil?
Como mencionei, além de editor e curador, também atuo como orientador e reuni meus recursos didáticos e conteúdo em um Workshop que ajuda os fotógrafos na formatação e desenvolvimento de seus projetos pessoais em direção à sua apresentação. É aí também que meus estudos anteriores entram como um diferencial, pois trata-se de entender que os diversos meios de comunicação têm seus pontos fortes e fracos. Como Marshall MacLuhan, o “guru” dos estudos sobre as mídias, declarou algumas décadas atrás: o meio é a mensagem. Isso que dizer que a característica de cada mídia é normalmente mais decisiva para o resultado final do que o próprio conteúdo, quando se trata de comunicar nossas ideias. Isso é muito válido para a fotografia enquanto mídia. O Workshop estará focado portanto em atingir o âmago das ambições de cada fotógrafo — aquilo que ele idealmente deveria passar à sua audiência — e então, juntos, em grupo, tentaremos atingir um ponto de achar soluções únicas e aplicáveis para cada participante individualmente.
Eu venho realizando workshops como esse em vários locais nos últimos anos (Japão, Índia, Cingapura, Itália, Irlanda) e agora estou me preparando para vir ao Brasil e testar meus métodos em colaboração com fotógrafos (documentais e de arte) locais que já estejam trilhando seus próprios caminhos na produção de um trabalho, mas que ainda não estejam certos em como continuar e necessitam de um novo estímulo criativo.
BLOG-PEF: Deixe uma mensagem ao público que deseja te encontrar em Paraty em Setembro.
Uma mensagem… ok. Para mim tudo é uma questão de troca de ideias. Não estou vindo a Paraty apenas para dar, estou na verdade é muito motivado para receber e absorver novos estímulos, conhecer pessoas novas, aprender mais sobre a cena local e sobre a história da fotografia no Brasil e na América Latina.
Eu acho que a comunidade fotográfica internacional estará cada vez mais estimulada se conseguirmos construir pontes é esta para mim é uma ótima oportunidade para fazer parte desse esforço.












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