Encontro histórico das mulheres fotógrafas nas escadarias do Theatro Municipal, Rio de Janeiro, registrado por Julio César Guimarães

Fotógrafas reunidas na Cinelândia

Por André Teixeira, Rio de Janeiro

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A Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, já foi palco de shows, manifestações culturais, comícios, protestos e outros inúmeros eventos históricos. Muitos, talvez todos, registrados por uma ou mais fotógrafas. No dia 06 de novembro, foi a vez de elas mudarem de lado, e se posicionarem de frente para a câmera. Num evento concebido e promovido pela fotógrafa Wania Corredo, 134 mulheres, todas de alguma forma ligadas à imagem, se reuniram nas escadarias do Theatro Municipal para, mais que uma foto, uma tentativa de responder a várias perguntas. Quem são essas profissionais? Quantas? O que estão fazendo? O que podem, juntas, fazer para melhorar suas condições de trabalho e aumentar sua participação num mercado reconhecidamente machista?

Como todo evento com grande adesão, a foto reuniu as mais diversas tendências políticas e níveis de engajamento e ativismo — com o inevitável atrito que isso provoca. Polêmicas, a começar pela autoria da foto — feita por Julio César Guimarães — marcaram a reunião, antes, durante e depois do clique. E, como todo momento histórico, ela continua gerando frutos, como fotos semelhantes em várias regiões do Brasil e a criação de uma associação de fotógrafas. Na entrevista abaixo, a premiada Wania, fotojornalista que marcou época nos jornais Extra e O Dia, fala sobre esse momento.

BLOG-PEF: Como surgiu a ideia da foto?

Essa foto nasce, em primeiro lugar, de uma saudade. Eu era muito amiga do Eurico Dantas, que foi fotógrafo do Globo, O Dia e, depois, do Extra. Ele sempre me deu força, conselhos, acompanhou minha carreira no fotojornalismo. Quando ele morreu, fui procurar uma foto com ele e vi que só tinha uma, depois de tantos anos de convivência e amizade. Aquilo me fez pensar nas fotógrafas com quem convivi no jornalismo. Vi que não tinha fotos com muitas delas e me veio a ideia de reunir essas mulheres. Saber onde estavam, o que estavam fazendo. Criar, com uma foto, uma lembrança, para que a gente, que passou anos contando a história dos outros, pudesse contar também a nossa.

Havia uma outra questão: entender quantas nós éramos. Até aquele momento, para mim éramos poucas, tanto fotojornalistas quanto de outras áreas. Achava que muitas tinham desistido, tomado outro rumo. Quis comprovar isso, saber onde estavam as fotógrafas, quantas eram, se o número tinha crescido ou diminuído.

A convocação foi feita em rede social. Começou com as fotojornalistas, depois foi se expandindo, gente de outras áreas se juntou à ideia. Fotógrafas de casamento, de produto, professoras estudiosas, gente de cinema, enfim, mulheres envolvidas com a fotografia em geral.

Foto de Ana Carolina Fernandes, participante do encontro

BLOG-PEF: Quantas participaram?

A foto tem exatamente 134 mulheres. Todas, de alguma forma, ligadas à imagem.

Encontrei mulheres que sempre admirei, mas nunca conheci. Veio gente de outros estados. São décadas de mulheres na fotografia, mulheres que nunca tinham se reunido. Foi uma emoção extraordinária.

BLOG-PEF: Você esperava que a foto levantasse tantas questões, inclusive de gênero?

No primeiro momento, não. Como disse, ela nasce de uma saudade. Mas é óbvio que existe a questão do gênero. Há um mercado em que a maioria é de homens, e uma reunião de mulheres, convocada por uma mulher como eu, com minha trajetória nesse mercado, que, da minha maneira, sempre discutiu e questionou isso tudo, não poderia deixar de ter essa pegada. Então claro que houve esse questionamento: somos quantas? Poucas, muitas? Por que estamos tão afastadas? Sempre acreditei na união, que é mais fácil sobreviver juntas. Então, se somos poucas, espalhadas e divididas, temos que pensar sobre isso.

"Foi uma ideia simples. Unir, agregar, entender. Por que há menos fotojornalistas nas redações agora do que quando eu entrei nesse mercado, há 25 anos? Por que eu praticamente só trabalhei com homens nesse tempo todo? Esse questionamento foi automático."
Foto de Marcia Foletto, que também esteve no encontro.

BLOG-PEF: Houve um estranhamento, por parte de algumas das participantes, pelo fato de a foto oficial ter sido feita por um homem, o Júlio César Guimarães. Por que essa opção?

Num determinado momento, surge a pergunta: quem vai fazer a foto? Recebi várias sugestões, mas eu tinha uma noção bem clara: essa foto é um registro histórico, eu quero que todas, o maior número possível de mulheres, apareçam nela, então essa imagem terá que ser feita por um homem. Simples assim. Na minha cabeça não havia polêmica. Só sabia de uma coisa: queria uma imagem bacana, de um momento importante, bem composta e dirigida. Não queria uma máquina vazia, no automático. Então chamei o Júlio, um amigo, experiente, grande fotógrafo, que certamente seria respeitoso e capaz de entender e registrar aquele momento. A foto poderia ser feita por uma mulher? Claro. Mas seria uma mulher a menos na imagem.

BLOG-PEF: O convite para que o Evandro Teixeira também posasse para uma foto acabou sendo interpretado como uma “homenagem” a ele, um homem, num evento feminino. Havia essa intenção quando ele foi chamado para uma foto?

Essa questão do Evandro é muito delicada para mim. O nome dele, como o de outros, tinha sido sugerido por muitas para fazer a foto oficial. Eu nunca tinha trabalhado com ele, não era amiga, sequer tinha conversado com ele. Na sexta-feira, dois dias antes da foto, uma grande amiga me liga e pergunta se o Evandro faria a foto. Respondi que não, e ela perguntou se eu havia o convidado para pelo menos ir até lá, se eu tinha ligado para ele. Eu disse que achava desnecessário, que o evento era aberto, num lugar público etc. e tal. Ela insistiu que eu ligasse, disse que ele estava sem graça de ir, essas coisas. Acabei ligando. É um senhor, parte da história, achei que não custava ligar. Foi isso, esse foi o “convite”. Um gesto educado.

Foto de Luciana Avellar

BLOG-PEF: Isso na sexta, dois dias antes da foto.

Isso. No sábado choveu demais, eu louca de preocupação. Às 11 da noite, o Evandro me liga. Tinha ido até a Cinelândia, ficou duas horas esperando, debaixo daquela chuva. Perguntou se o evento tinha sido cancelado. Fiquei arrasada, imaginando a cena: ele sozinho, na chuva. Insisti, então, que ele fosse no dia seguinte, que ele seria bem recebido, faria também fotos com a gente e tal. Foi o que algumas interpretaram como uma “homenagem”.

BLOG-PEF: Não te ocorreu que poderia haver uma repercussão negativa?

Eu nunca olhei essa foto como um instrumento para nada. Sempre entendi que ela seria uma coisa grande, que envolvia várias questões, mas sempre deixei claro que não tinha vínculos políticos, financeiros, bandeiras. Só assim poderia reunir tantas mulheres, tão diferentes. Só essa reunião já faz dela uma imagem histórica, e isso não é pouca coisa. Minha preocupação era que ela fosse feita e ficasse boa, o que aconteceu. Eu não tinha controle sobre tudo que rolava, assim como não tenho controle sobre tudo que ela gerou. O que ela vem provocando depois também faz parte dessa história, um registro de décadas de mulheres na fotografia, encontros e desencontros, pensamentos, emoções. Houve erros e acertos, um momento intenso, 134 mulheres fortes, com histórias incríveis, isso não acontece sem atritos.

BLOG-PEF: Como isso se refletiu em você?

A questão do Evandro não estava programada, mas aconteceu, e a responsabilidade é minha. Como em tudo na foto, eu sou a responsável. Lamento se magoei alguém, se magoei o próprio Evandro. Isso realmente não foi bom pra mim, me deixou muito triste saber que algumas das mulheres se sentiram mal, ofendidas, com o desenrolar da história, saber que o próprio Evandro pode ter se sentido magoado, mas enfim, aconteceu. Não tive essa intenção.

Imagem de Wania Corredo, que organizou o encontro

BLOG-PEF: Houve uma discussão sobre se a foto deveria ter um tom mais feminista do que você tinha pensado?

Houve um momento em que entendi que se eu deixasse que a foto fugisse dessa característica “histórica”, somente histórica, se tivesse uma pegada mais ativista, eu não conseguiria reunir tantas mulheres. Eram muitas cabeças, com muitas ideias diferentes. Todas numa mesma linha, numa mesma reflexão, mas de maneiras diferentes. Não era para ser uma “foto ato”. A própria reunião de tantas mulheres já é um ato, já tem uma força incrível. Já tinha dentro dela uma pegada forte feminista. Nela há ativistas e não ativistas, mulheres que já tiveram confrontos, embates, mas que estavam ali, juntas. A ideia foi agregar, e deu certo. Combinamos que aquele momento era para mostrar quem e quantas somos. Depois, o espaço era livre, com espaço para tudo. O objetivo era fomentar a união e discussões. No final das contas, somos todas mulheres, fotógrafas, cada uma com suas ideias e posições. Todas têm que ser respeitadas — inclusive as minhas. E todas entenderam isso no final. Acho que no final dessa história, o que fica de positivo foi a união, os questionamentos, os frutos que ela gerou.

BLOG-PEF: Como você vê os desdobramentos que a foto, que sua ideia vem tomando, como a criação de uma associação nacional de fotógrafas?

Acho sensacional. Fui um instrumento para que se desse um pontapé inicial. A foto nasce marcada por uma força incrível, pela união, pela diversidade de pensamentos, pela polêmica, pela oportunidade de estruturar uma nova história para nós. Um momento de criação, de despertar. O único retorno que quero é saber que uma ideia simples, que tive numa madrugada, transforme a vida de algumas pessoas, que provoque uma união, uma recriação.

BLOG-PEF: Olhando agora toda a polêmica e os frutos que a foto está gerando, você faria algo diferente?

Se fizesse novamente? Juntaria mais mulheres! (Risos). Olha, acho que tentaria fazer de uma forma menos emocionada, mais organizada, com a experiência que ganhei. Mas, ao mesmo tempo, penso que se tentasse fazer dessa maneira mais organizada, mais “responsável”, ela não teria acontecido. Ela aconteceu porque foi simples, emocional, suave. Nenhuma das mulheres saiu de sua casa e foi pra lá sem acreditar que a gente construiria alguma coisa juntas. Gosto da essência como ela aconteceu. Se sofri por um lado, por outro foi um sonho. Indescritível.

Fotos de Bruna Prado, Vanessa Ataliba, Luciana Macêdo, Ana Branco, Andreia Farias e Paula Johas, fotógrafas que também estiveram presentes no encontro
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