Moradores da favela da Mangueira acompanham os fogos de artifício durante a cerimônia de abertura do Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Imagem da série Gangland, de João Pina.

João Pina, passado e presente

Por Érico Elias, Lisboa

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O fotógrafo português João Pina já havia marcado com o BLOG-PEF uma entrevista sobre seu trabalho e os projetos atualmente em andamento, mas teve de adiar próximo da data marcada por conta de um acontecimento de certa forma esperado mas impossível de prever: a morte de Fidel Castro.

Ao saber disso, embarcou no mesmo dia para ilha caribenha, onde permaneceu 10 dias, documentando o funeral do líder cubano. De volta a Lisboa, recebeu-nos para uma conversa.

Apesar de ter nascido na Europa, João Pina considera-se mais próximo da América Latina, em uma afinidade que parece vir de longe. Ele conta que foi concebido em uma época na qual seus pais moravam na casa de brasileiros exilados em Lisboa. Sua primeira viagem a Cuba, em 1987, foi algo que lhe marcou profundamente. Após formar-se em fotografia documental pelo International Center of Photography, em 2005, a ilha transformou-se em obsessão fotográfica e passaria a fazer parte de seus planos de voo nos anos seguintes.

Cubanos aguardam no acostamento pela passagem da caravana portando as cinzas de Fidel Castro. João Pina.

Além disso, Pina percorreu vários outros países da América Latina e ali forjou seu olhar de documentarista, extremamente atento a questões sociais e de direitos humanos. O engajamento vem de família. Seus avós foram presos políticos do regime salazarista. Sua avó foi retratada para seu primeiro projeto fotográfico transformado em livro, intitulado “Por teu Livre Pensamento”.

“O mundo está minado de casos de repressão política que precisam ser documentados, discutidos, rememorados”.

Como fotografar o passado

Um desses casos, ao qual João Pina consagrou nove anos de pesquisa, foi a Operação Condor, da qual participaram agentes militares de Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia, com o apoio dos Estados Unidos. O objetivo da operação, iniciada em 1975, era prender e eliminar elementos “subversivos”, como eram chamados os militantes que lutavam pela redemocratização dos países em questão.

A questão que se colocava de saída era como mostrar visualmente algo que ocorrera há vários anos e que, além de tudo, buscava-se manter em sigilo, ou seja: como fotografar um passado que sempre nos foi negado e escondido? Entre 2005 e 2014, ao longo de várias viagens e de longos períodos em que morou na região, João Pina conseguiu dar forma ao projeto, dando a ver uma história “terrivelmente extraordinária”, em suas próprias palavras. O período também coincidiu com iniciativas da sociedade civil dos países envolvidos, que visavam passar a limpo histórias vividas nos anos de chumbo.

Militares escondem seus rostos durante sessão de julgamento no qual eram acusados pelo estado argentino por crimes contra a humanidade durante a ditadura de 1976–1983. Bahia Blanca, Argentina, Fevereiro 2012. Uma das imagens mais icônicas da série Condor, de João Pina, que gerou um livro e exposições em diversos países.

O projeto desenvolveu-se a partir de três eixos: as buscas por sobreviventes, por familiares de desaparecidos e por lugares que serviram de palco para as atrocidades cometidas pelas ações da operação: torturas, cárcere e assassinatos. Aos poucos o quebra-cabeça foi sendo montado, em um processo no qual as fotografias são o resultado visível, mas apenas uma parcela de um todo muito mais amplo.

“Grande parte do que fiz não foi fotografar, mas foi conversar, fazer entrevistas com as pessoas envolvidas. Meu processo criativo, sobretudo no caso de Condor, vai muito além do ato fotográfico. Há poucas fotografias que falam por si sós. Estou mais interessado no corpo do trabalho e aí entram todos os testemunhos e documentos escritos que levantei”.

Além de suas próprias fotografias, João Pina incorporou ao trabalho imagens encontradas em arquivos. O grande desafio foi fazer com que os dois conjuntos de imagens conversassem entre si. A pesquisa fez com que ele passasse por diversos arquivos, em idas e vindas. Mas nem por isso ele se considera escolado no tema.

Esq.: Mirta Clara foi presa com seu marido em Novembro de 1975 por fazer parte do grupo político Montoneros. Enquanto aguardava seu julgamento ela foi torturada, grávida de seu segundo filho, que nasceu na prisão. Seu marido foi executado no episódio conhecido como massacre de Margarita Belen e ela passou 8 anos presa, sendo liberada somente às vésperas da primeira eleição democrática, em 1983. Hoje ela vive em Buenos Aires, onde trabalha como advogada de direitos humanos e psicóloga. Buenos Aires, Argentina, Fevereiro 2012. Dir.: O quarto da tortura de “Olimpo”, uma das prisões e centros de tortura clandestinos usados pelas polícias federal e militar para interrogar e matar militantes de esquerda em Buenos Aires, Argentina, durante a ditadura militar (1975–1983). Buenos Aires, Argentina, Novembro 2007. Imagens da série Condor, de João Pina.
“Os arquivos até hoje são um mistério para mim. Alguns estão facilmente acessíveis, outros não. Por uma conjunção de fatores, a gestão desses arquivos é uma coisa misteriosa e a burocracia que se tem de enfrentar para acessá-los é muito grande”.

O livro “Condor” foi lançado em 2014, pelas editores Blume e Tinta da China, com versões em português, espanhol e inglês. Depois disso, o trabalho gerou uma série de debates que extrapolam em muito o circuito da fotografia, invadindo os campos da história, da política e das ciências sociais. Após expor em São Paulo, Rio de Janeiro, Montevidéu, Buenos Aires e Bogotá, esteve em 2016 no festival Rencontres D’Arles, na França, ocasião que marcou o lançamento do livro em sua versão francesa.

Revelar o passado para entender o presente

O trabalho de arqueólogo desenvolvido por João Pina em “Condor” demonstra que olhar para o passado e refletir sobre ele pode nos ajudar a entender melhor o presente. A Operação Condor não mais existe e as ditaduras militares latino-americanas caíram há tempos, mas as raízes profundas do processo histórico de formação de nossas identidades mostram que aprendemos muito pouco, daí a importância de se mostrar, de rememorar e de entender os fenômenos de permanência e propagação.

É o que nos ensina outro projeto fotográfico de João Pina, em andamento desde 2007, que começa a dar seus frutos agora. Trata-se de “Gangland”, dedicado a desnudar a violência cotidiana na cidade maravilhosa.

“A primeira vez que fui ao Rio de Janeiro, em 2006, tinha uma visão bipolar da cidade, moldada, por um lado, pelas novelas da Globo e, por outro, pelos noticiários. Fui em busca de entender o que era isso, queria ver com meus próprios olhos. À medida em que fui desenvolvendo o trabalho percebi que existe um lado escuro e sombrio que muita gente quer esconder. A minha proposta é mostrar esse outro lado”.

Estudantes cubanos caminham pela Praça da Revolução onde ocorreu um tributo de dois dias em homenagem a Fidel Castro. João Pina.

Para realizar suas imagens, de grande força dramática, João Pina se colocou dos dois lados da trincheira. Acompanhou policiais em operações e registrou soldados do tráfico que ostentam armamento pesado. No meio disso tudo, fotografou o pânico e a morte de pessoas inocentes envolvidas em uma guerra cujo fim ninguém consegue vislumbrar. Enquanto o “asfalto” celebrava com entusiasmo os espetáculos faraônicos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o fotógrafo via tudo desde um outro ponto de vista, desde o “morro”, onde vigora a lei da bala.

Embora haja uma diferença significativa entre retratar um acontecimento passado e fatos da atualidade, João Pina ressalta a grande afinidade entre os problemas tratados em “Condor” e “Gangland”.

“Trata-se de um mesmo processo histórico. Hoje em dia no Brasil mais de 50 mil pessoas são assassinadas todos os anos, isso é mais do que todos os mortos na Guerra da Bósnia,” compara.

Esq.: Galpão de obras do “Porto Maravilha”, no Rio de Janeiro, projeto do estado realizado em uma região portuária trouxe uma série de mudanças, incluindo a construção de arranha-céus, como parte de um boom imobiliário na cidade. Dir.: Cena de um crime no qual três pessoas foram baleadas dentro de um carro em uma favela de Santa Cruz, na periferia do Rio de Janeiro. O Rio é considerado como uma das cidades mais violentas do mundo, com uma média de 18 pessoas assassinadas todos os dias. Imagens da série Gangland, de João Pina.

Pensar no longo prazo

“Gangland” foi finalista do Philip Jones Griffiths Award em 2016, uma das premiações mais prestigiadas do fotojornalismo mundial. Atualmente, João Pina trabalha na edição de um livro sobre a série, que ainda segue aberta. Os projetos pessoais de longo prazo dão sentido à sua vida de fotógrafo, em meio a inúmeras pautas de ocasião.

“Tenho essa necessidade de ter várias coisas no forno. Como esses projetos são muito longos, quando chega a hora de colocar um ponto final a ressaca é muito grande. Por isso eu mantenho sempre mais de uma frente de trabalho”

João Pina explica que busca balancear a atividade de fotojornalista, que paga suas contas no final do mês, com os projetos pessoais. Mas ele revela que a crise pela qual passa o jornalismo impresso torna cada vez mais difícil a vida dos profissionais da área.

“O trabalho que antes você tinha três semanas para fazer hoje tem que ser feito em cinco dias, isso impacta na remuneração e na própria qualidade da apuração. Por isso tenho buscado me projetar para mundos fora do jornalismo, abrindo outras formas de contar histórias que não seja através da imprensa”.

Cubanos aguardam a passagem do cortejo com as cinzas de Fidel Castro. João Pina.

Pina deu início recentemente a um projeto de documentação sobre o conflito na Colômbia, alimentado pelos acordos de paz que terminam de ser assinados entre o governo e as FARC.

Em seus planos também está o desenvolvimento de um projeto de documentação acerca do campo de concentração de Tarrafal, criado pelo regime de Salazar na ilha de Santiago, em Cabo Verde, em 1936. Até o ano de 1953, quando foi fechado pela primeira vez, o local recebia presos políticos portugueses. A partir de 1961, foi reativado para receber presos nas guerras de libertação das colônias portuguesas na África.

A história pessoal de João Pina se confunde com a história do local, já que seu bisavô foi a única pessoa a fotografar os detentos e as valas onde se enterravam os mortos, quando esteve ali visitando o próprio filho, avô do fotógrafo.

O trabalho sobre Cuba, que andava em marcha reduzida voltou com força total nos últimos meses, por conta do reatamento das relações diplomáticas com os Estados Unidos e, agora, da morte de Fidel Castro. Aparte sua obsessão por Cuba, ele não se arrisca a avaliar o impacto do desaparecimento do líder da Revolução Cubana.

“Ninguém sabe ainda as implicações que isso vai ter. Eu costumo dizer que o funeral de Fidel seria a página do meio do meu livro sobre Cuba. Se for assim, ainda tenho mais 15 anos pela frente para dar esse projeto como finalizado”, projeta João Pina. Seu envolvimento carnal com a fotografia pode ser resumido em uma frase proferida ao longo de nossa conversa:

“Eu fotografo como eu respiro”.
Esq.: As cinzas de Fidel Castro passam pelas ruas de Santiago de Cuba, em direção ao cemitério da cidade. Dir.: A Guarda de Honra em tributo a Fidel Castro no memorial a Jose Marti, em Havana. Novembro 2016. João Pina.
Cubano faz saudação a Fidel Castro durante tributo prestado em sua homenagem, três dias após sua morte. Havana. João Pina.
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