Imagem da série Pido Prometo y Pago, de Jorge Luis Santos, fotógrafo venezuelano que estará no PEF2017

Jorge Luis Santos: a fotografia venezuelana no PEF 2017

Paraty Em Foco
Apr 18, 2017 · 7 min read

Por André Teixeira

Acesse www.pefparatyemfoco.com.br

Depois de 25 anos conciliando a paixão pela fotografia com o trabalho na área de tecnologia de serviços bancários, o venezuelano Jorge Luis Santos viu-se diante da necessidade de uma escolha. Deveria seguir com a carreira estabelecida, numa área “tradicional”, ou buscar a aventura de numa nova trajetória, no restrito mundo da fotografia documental e de arte? Entre a segurança e o risco, não hesitou, e não tem do que se arrepender: com mais de 100 exposições em vários países e três livros publicados, é um dos mais importantes fotógrafos venezuelanos da atualidade. Vencedor, em 2015, da Convocatória do Paraty em Foco, voltará ao Festival em 2017, para uma exposição, projeções, palestra e workshop. De Caracas, onde vive, Jorge concedeu esta entrevista ao BLOG-PEF, em que fala da carreira, livros e ensaios, entre outros temas.

BLOG-PEF: Porque se tornar um fotógrafo?

Comecei a fotografar de maneira autodidata, em 1986, fotografando expedições de montanhismo aqui na Venezuela, América do Sul, Europa e África. O objetivo era apresentar esse trabalho em projeções, palestras e exposições. Pode-se dizer que a montanha e a fotografia me levaram a mudar meu estilo de vida, deixando no esquecimento uma carreira de 25 anos.

Em 2006, decidi estudar em duas importantes escolas de fotografia em Caracas, a Organização Nelson Garrido e o Workshop de Fotografia de Roberto Mata. A partir deste momento se abriram novos horizontes e visões, um universo desconhecido para mim: a criação visual como linguagem criativa.

Imagem da série Las Diosas Encarnadas, de Jorge Luis Santos, vencedora da categoria Ensaio na Convocatória Portfólio em Foco 2015

BLOG-PEF: Fale sobre o trabalho que você apresentou no Paraty em Foco de 2015, Las diosas encarnadas.

Las diosas encarnadas é meu segundo projeto realizado com base no conceito de “nus construídos”. Através de 11 obras, exploro a feminilidade e o imaginário religioso, numa construção de espaços e corpos para recriar a mulher transformada em deusa, ou talvez a deusa transformada em mulher.

Este trabalho me permitiu uma aproximação com diferentes expressões da espiritualidade de um ponto de vista formal, sempre com o maior respeito. Por outro lado, consegui integrar no trabalho a percepção pessoal e contribuições artísticas de cada uma das modelos, que escolheram a deusa que representariam.

O trabalho não busca a exaltação do erotismo humano, mas sim a apresentação da sexualidade em comunhão com outros códigos e mensagens, como herança de um desenvolvimento espiritual saudável. Neste sentido, o corpo nu é retrato de nossa essência divina e natural.

BLOG-PEF: Por que você escolheu justamente esse ensaio para apresentar na Convocatória?

Eu já vinha acompanhando o Festival desde 2013, que sempre considerei um dos mais importantes da fotografia na América Latina. Na época, Las diosas encarnadas era meu trabalho mais recente, e tem um corte contemporâneo, muito na linha de frente do Paraty em Foco.

Imagens da série Las Diosas Encarnadas, de Jorge Luis Santos, vencedora da categoria Ensaio na Convocatória Portfólio em Foco 2015

BLOG-PEF: Você tem três livros três publicados. Aqui no Brasil, há uma certa dificuldade para obter recursos para a publicação de um produto caro como os fotolivros. Como é a situação na Venezuela? Como você conseguiu?

A situação atual na Venezuela não é a mais adequada para a publicação de livros de fotografia, mas desde 2015 ocorre um fenômeno muito curioso: quanto mais difícil é a situação económica, mais os criadores tornam-se comprometidos com expressão como uma forma de protesto ativo. Este é o caso dos fotógrafos.

No meu caso, o primeiro livro, Palmero es Fe y Cerro (2011), tinha um grupo de pessoas interessadas em vê-lo publicado, e que por isso me ofereceram um apoio financeiro importante. O segundo, Pedregal, los Mismos de Ayer (2012), contou com o apoio de uma prefeitura local. O terceiro, e mais recente, Pido, Prometo y Pago (2016), teve o apoio dos meus amigos fotógrafos, que promoveram uma pré-venda, antes de ir para a gráfica, que cobria 40% do custo. O resto do dinheiro foi bancado por um empréstimo pessoal. Cada caso teve um financiamento diferente, mas acredito na máxima “querer é poder”.

BLOG-PEF: Você já fez exposições em vários países. Muitos fotógrafos têm bons trabalhos, mas nem sempre conseguem projeção e reconhecimento. Como você conseguiu se inserir nesse circuito tão disputado?

A primeira coisa a ficar clara são seus objetivos de carreira: o que você está fazendo? Para quê? E onde quer chegar? No meu caso, é muito importante a difusão séria do meu trabalho, dentro e fora do meu país. Para isso, é preciso participar de reuniões, convocatórias, concursos…você tem que entrar nas redes de informação, buscar e criar alianças, informações sobre festivais e bienais, conhecer as suas diferenças e as características de cada um desses eventos.

Você tem que entender que tudo isso é um “trabalho” a mais no processo de criação, o que leva tempo e esforço. Saber que existem milhares de fotógrafos que fazem o mesmo, mas que se você colocar paixão e boas estratégias, compensa. E, claro, um pouco de sorte, que geralmente sorri para quem trabalha duro.

Imagens da série Pido Prometo y Pago, de Jorge Luis Santos, e a capa do livro dedicado à série, publicado em 2016

BLOG-PEF: No seu site, vemos trabalhos de linhas bem diferentes, uns muito voltados para o documental, outros, como o próprio “Las diosas”, mais conceituais. Como isso funciona dentro de seu processo criativo?

No PEF 2017 eu vou falar justamente sobre isso. Me considero um fotógrafo “sem etiquetas”, e apesar de meus principais pilares serem espiritualidade, natureza e sexualidade, não são amarras em tempos de criação, porque geralmente se misturam. Não tenho problema em abrir-me para outros conhecimentos e interesses. Os seres humanos têm múltiplos interesses, porque os fotógrafos não devem tê-los?

BLOG-PEF: Você trabalha em vários projetos simultaneamente ou se dedica a somente um de cada vez?

Desenvolvo vários projetos em paralelo, dando a cada um o seu tempo e esperando seu momento certo. Acredito na maturação e reflexão necessária antes de levá-los à luz. Também é importante olhar com frequência o próprio arquivo. Ver o que temos feito nos dá pistas para o que somos e para onde estamos indo.

BLOG-PEF: Como é ou panorama fotografia na Venezuela? Indique alguns nomes que valha a pena conhecer.

Há muitos bons fotógrafos aqui, seria injusto citar alguns e esquecer outros. Em minhas várias participações internacionais, conheci fotógrafos que poderiam estar nos melhores eventos do mundo, o problema é que muitos não sabem do próprio valor e outros têm dificuldades financeiras que os impedem de sair para participar.

Uns anos atrás, fizemos um levantamento do trabalho de 74 fotógrafos contemporâneos da Venezuela, num vídeo que dá uma boa visão do quadro geral do nosso panorama. Devemos projetar esse vídeo no Paraty em Foco deste ano.

Imagem da série Palmero es Fe y Cerro, de Jorge Luis Santos

BLOG-PEF: Qual a importância um festival como o Paraty em Foco na ou formação de artistas e de público para a fotografia?

A importância é enorme, pois é uma excelente maneira de ver, estudar e refletir sobre fotografia e linguagens, como ferramenta de comunicação dos tempos modernos. É uma oportunidade de ouro para ter tantos criadores de todo o mundo para apresentar seus trabalhos, fazer contatos e de saber sobre seus processos criativos, motivações, projetos. Ou fazer as oficinas, obter novos caminhos e inspiração para nossos próprios projetos, perguntar-lhes sobre o nosso trabalho.

Só quem participou festivais como este sabe todo o benefício futuro que pode ser obtida e avanços gerados em nosso trabalho e a importância de novos relacionamentos.

BLOG-PEF: A Venezuela tem festivais de fotografia semelhantes?

Atualmente temos um festival, o Mérida Foto, que começou em 2013. Em edições recentes eles têm trazido alguns convidados internacionais. Dentro de seu formato, é muito importante para a fotografia venezuelana.

Há outras propostas, como o “Mois de la Photo”, em Caracas e “Fotomaracaibo” na cidade de Maracaibo, ambos patrocinados pela Aliança Francesa e a Embaixada da França na Venezuela, que estão na segunda edição, cada uma com muito boa receptividade. Este ano teremos ainda a segunda edição do Festival Fotográfico de Angostura, em Ciudad Bolivar.

Imagem da série Palmero es Fe y Cerro, de Jorge Luis Santos, publicada em livro em 2011

Quer colaborar com o BLOG PEF? Envie sua proposta de pauta, resenha de exposição ou livro de fotografia para:

blogparatyemfoco@gmail.com.

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