Imagem da série Andorinhas, de Nana Moraes, sobre prostitutas de beira de estrada, que resultou em livro.

Nana Moraes: Universo Feminino em Foco

Por André Teixeira, Rio de Janeiro

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“Mostrar, Emocionar, Envolver”. O tema da mesa em que Nana Moraes se apresentará no Paraty em Foco 2017, com Kitty Paranaguá e Pedro Karp Vasquez, poderia ser um resumo de sua abordagem sobre a fotografia. Especialista em retratos, com grande atuação nos mercados editorial e publicitário, Nana desenvolve um consistente trabalho autoral, com foco no universo feminino, publicado e exposto com destaque desde 1997.

Formada em Jornalismo pela PUC de São Paulo, com vários prêmios no currículo, Nana é mais um dos muitos exemplos de família dedicada à fotografia: é filha, irmã e mãe de fotógrafos. Nesta entrevista, ela fala sobre sua carreira, retratos, da influência do pai e da questão da mulher no mercado, entre outros assuntos.

Retrato da escritora Adélia Prado, por Nana Moraes.

BLOG-PEF: Entre os vários caminhos possíveis dentro da fotografia, você se especializou no retrato. Isso foi uma escolha consciente ou simplesmente aconteceu?

Estava no último ano da faculdade, quando comecei a trabalhar como assistente de fotografia. Com dois bebês, trabalhando e prestes a me formar, restava pouco tempo para fotografar. Então, para monografia de final de curso de Semiótica, propus um ensaio fotográfico a partir de “Ensaio sobre a Loucura” de Michel Foucault. Realizei esse trabalho em 1985, no hospital psiquiátrico Juqueri em Franco da Rocha, em São Paulo. Desde então, entendo o Retrato como essencial na fotografia. Embora atue profissionalmente em várias outras áreas da fotografia, como arquitetura e culinária, sou essencialmente retratista. Foi uma escolha consciente.

BLOG-PEF: O que é um bom retrato para você? O que você busca quando faz um? Como é seu processo, antes e durante a sessão de fotos?

Acredito que o bom retrato é aquele que expressa o Outro. Meu processo de trabalho é sempre vertical. Costumo estudar, pesquisar ou me atualizar, sempre com a preocupação de propor caminhos para revelar a personalidade de quem será fotografado.

BLOG-PEF: Para você, o preto e branco é a melhor maneira de se fazer um retrato? Ou isso depende de cada personagem?

Vejo o Retrato essencialmente em preto e branco. Contudo, acredito que é importante entender em que contexto o retrato será inserido. Por exemplo, concebi meu livro Andorinhas, em que retrato o cotidiano de prostitutas de estradas, em preto e branco. Depois de algum tempo convivendo com essas mulheres, percebi como gostavam de fotografias coloridas. Então, para lhes dar algo em troca, o que considero importantíssimo em trabalhos como esses, elegi alguns retratos e utilizei a FotoTinta, técnica em que trabalho a tinta sobre a ampliação fotográfica, onde a cor é fundamental.

Imagens realizadas com a técnica de FotoTinta, em que a artista Nana Moraes aplica tinha sobre ampliação fotográfica.

E ainda, sob o ponto de vista comercial, onde há prestação de serviços fotográficos, é necessário entender e dialogar com a linha editorial ou publicitária do veiculo para o qual se trabalha. Raramente vemos retratos para o mercado editorial ou peças publicitárias em preto e branco. Dessa forma, acredito que a escolha pelo preto e branco ou pela cor, dependa, sobretudo, do contexto em que o retrato será inserido.

BLOG-PEF: No Paraty em Foco deste ano está previsto o encontro “Mulheres Fotógrafas”, com representantes deste grupo que surgiu ano passado e está movimentando o panorama da fotografia brasileira, levantando, entre outros temas, a pequena participação da mulher nesse mercado. O que você pensa sobre essa questão? O caminho da mulher na fotografia tem mais obstáculos do que o dos homens?

Sim, o caminho para as mulheres na fotografia é bem mais complexo do que para os homens, como em outras profissões. Participo da YVY Mulheres da Imagem, porque entendi a necessidade de nos organizarmos para se debater essas questões com a sociedade. A associação vem amadurecendo a cada dia e vejo boas propostas de ações e engajamento.

Da esq. para a dir.: Andréa Beltão, Malu Mader e Renata Sorrah: retrato como expressão do universo feminino. Fotos: Nana Moraes.

BLOG-PEF: No seu site, a maior parte das fotos, tanto as comerciais quanto as autorais, envolve mulheres. Isso é uma coincidência ? Ou você, como mulher, teria mais facilidade para fotografar outras mulheres?

Com relação a meu trabalho autoral, estou desenvolvendo a trilogia de livros DesAmadas, onde busco dar voz às mulheres excluídas e marginalizadas. Comecei com o livro Andorinhas em que trato de prostitutas de estrada e, agora, sigo com a exposição Ausência, cujo tema é a relação entre mães detentas e seus filhos e filhas fora das prisões, e que, em seu desdobramento, será o segundo livro da trilogia.

Comercialmente, trabalho muito para as publicações femininas, para as indústrias de beleza e moda. Portanto, não é uma coincidência a predominância de mulheres em meu site, a despeito de achar mais difícil fotografar mulheres do que homens.

BLOG-PEF: Na sua exposição Ausência, no Centro Cultural dos Correios, no Rio, você une a fotografia a recortes de cartas, retalhos de colchas e vídeo. É sua primeira experiência unindo várias plataformas? Isso é uma tendência para a fotografia de arte?

Sim, é minha primeira experiência unindo várias plataformas, mas não a primeira em que interfiro na fotografia. A primeira vez foi em 1997, na exposição Mulher, Tinta e Fotografia, em que utilizei uma técnica que chamo de FotoTinta, onde trabalho a tinta sobre a ampliação fotográfica. Depois, usei a FotoTinta em algumas exposições coletivas como A Imagem do Som da MPB, de 2006, e A Imagem do Som do Samba, de 2008). E também no livro e na exposição Andorinhas, que apresentei em 2011, no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, e em 2012, no II Foto em Pauta Tiradentes/MG.

Imagem de Ausência, trabalho multiplataformas exposto no Foto Rio 2017. Foto: Nana Moraes.

BLOG-PEF: Você faz parte de uma família de fotógrafos, começando pelo pai. O que é a fotografia para você? Como ela entrou na sua vida?

Sou filha, irmã e mãe de fotógrafos. Posso dizer que a fotografia sempre esteve na minha vida. Meu pai, José Antônio, que tanto amo e admiro, foi um fotógrafo de corpo e alma, um profissional apaixonado pela fotografia. Sua paixão nos invadiu, a mim e a toda família. O curioso é que o culpado por me tornar fotógrafa foi o fotógrafo João Bittar. Naquela época, eu fazia faculdade de Jornalismo na PUC de SP porque queria escrever, pois achava que já tinha bastante fotógrafos na família, meu pai e Sérgio, meu irmão. Durante a faculdade, tive minha filha, Lígia, e meu filho, Ricardo (hoje fotógrafo da Reuters) e por isso, precisava trabalhar. Foi quando Sérgio, que estava na Agência Angular junto com João, avisou-me que precisavam de uma secretária e fui trabalhar na agência. João, achava um absurdo eu não ser fotógrafa, vivia dizendo que era um desperdício. Um dia, propôs que eu fizesse uma saída com algum fotógrafo da agência para ver o que aconteceria. Isso foi em 1984, Jânio Quadros era candidato a prefeito de São Paulo e saí para fotografá-lo sem nenhum compromisso. O resultado foi um retrato de Jânio Quadros publicado na revista Senhor. Mostrei os contatos a meu pai, que falou: “até que você leva jeito…mas há muito que aprender.” Fui assistente de meu pai por dois anos, Aprendi tudo com ele.

BLOG-PEF: Está acompanhando a programação do Paraty em Foco? Que pontos da programação você destacaria? Pretende assistir a alguma das mesas e debates?

Gostei muito do tema dessa edição: “Fotografia: Documento e Ficção”. Pretendo sim aproveitar ao máximo a programação do Festival. O trabalho de Flávio Damm (homenageado do PEF 2017) interesse-me bastante!

BLOG-PEF: Qual a importância de festivais como o de Paraty no desenvolvimento da fotografia brasileira?

Sobre os festivais, destaco um trecho do livro, Tempos Fraturados, de Eric Hobsbawm: “…a experiência artística, como todas as formas de comunicação humana, é mais do que virtual. Por isso, certamente haverá espaço para eventos reais em locais de verdade, onde se possa, de algum modo, prosseguir no sonho da fusão de comunidade, arte e genius loci, de audiência e artistas. E onde o sonho ocasionalmente, por um momento, se torne realidade”. Assim, acredito de suma importância promover festivais para a formação de nossa juventude.

Retrato do cantor Lenine, por Nana Moraes.
Retratos do arquiteto Oscar Niemeyer (esq.) e do poeta Ferreira Gullar (dir.), por Nana Moraes. Para a artista, “o bom retrato é aquele que expressa o Outro”.
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