Preparando o Cenário para Eddo Hartmann no PEF2018

Paraty Em Foco
Sep 3, 2018 · 8 min read

Por Érico Elias

Acesse www.pefparatyemfoco.com.br

Poucos lugares são tão rodeados de mistério e de desinformação como a Coreia do Norte. O país resultou da Guerra da Coreia (1950–1953), uma guerra sangrenta, que dividiu um povo em duas nações. A partir de um cenário de terra arrasada, a capital Pyongyang foi reerguida como um cenário de permanente propaganda e controle ideológico, no qual utopia e distopia se confundem.

Saindo de um projeto bastante intimista, o fotógrafo holandês Eddo Hartmann resolveu se aventurar em um novo projeto a ser desenvolvido na Coreia do Norte. Em suas viagens ao país, teve de buscar a liberdade criativa dentro de condições completamente controladas. A partir de um formulário de pedido de visto extremamente extenso, as autoridades norte-coreanas definiam passo a passo das saídas a campo do fotógrafo. Ele era vigiado em todos os momentos que estava fora do hotel — provavelmente também no seu próprio quarto.

Em um país onde todos os prédios são propriedade do Estado, Eddo Hartmann encontrou ruas que se parecem com grandes cenários. Dessa experiência nasceu Setting the Stage, projeto fotográfico que tem atraído atenções no universo da fotografia e no início deste ano ganhou uma grande mostra no museu Huis Marseille, em Amsterdã.

Eddo Hartmann estará no Brasil pela primeira vez para participar do 14o Festival Paraty em Foco. Ele irá apresentar imagens e histórias sobre o projeto Setting the Stage em uma palestra na série de Encontros e Entrevistas e em uma Exposição externa na Praça da Matriz. Além disso, Hartmann irá ministrar um Workshop, no qual abordará os elementos da "Gramática Visual". Conheça mais detalhes dessa história na entrevista concedida pelo fotógrafo ao BLOG-PEF:

BLOG-PEG: Seu primeiro grande projeto foi Here Lives My Home (Aqui Vive Minha Casa), um trabalho bastante intimista. Você acaba de publicar um livro sobre o projeto Setting the Stage. Conte-nos um pouco sobre como foi essa passagem de um projeto a outro, as continuidades e rupturas.

Depois de meu último projeto, ‘Hier woont mijn huis’ (‘Here Lives My House’), que foi algo bastante pessoal, senti uma grande necessidade de sair um pouco do meu mundo interno e buscar algo completamente diferente, algo que estivesse muito distante da minha vida. Mas a outra razão que me levou a tal escolha é que eu sempre estive interessado nos tipos de espaços, locações e paisagens que têm uma história para contar sobre o que ocorreu ali. Eu tento interpretar essas histórias fazendo fotografias desses lugares. Há muito tempo que passei a me interessar pela Coreia. Leio muito sobre história, especialmente sobre a Guerra Fria, cujas consequências são muito visíveis na Coreia do Norte. E o país tem uma certa mística. Ouvimos falar muito sobre ele na mídia, mas em realidade conhecemos muito pouco sobre ele. Eu resolvi que estava disposto a ir até lá como fotógrafo e olhar com meus próprios olhos. Eu sabia que, por ser a Coreia do Norte, "olhar" significaria literalmente apenas uma pequena parte do todo — mas esse era o plano, de qualquer forma. Eu queria ler a cidade para aprender sobre as pessoas, acreditei que isso seria possível.

BLOG-PEG: Quantas vezes você esteve na Coreia do Norte para desenvolver o projeto Setting the Stage? O projeto ainda está em andamento?

No total eu visitei a Coreia do Norte 4 vezes e trabalhei no projeto por mais de 5 anos. Comecei fazendo fotografias e terminei também realizando um filme e criando vídeos 360 graus para projeções de realidade virtual. No início de 2018, fiz uma grande exposição em Amsterdã e agora estou participando de festivais para apresentar meu trabalho. O projeto agora entrou em uma fase de compartilhar o trabalho e as experiências com outras pessoas. Provavelmente voltarei à Coreia do Norte, mas não em um futuro próximo.

BLOG-PEG: A Coreia do Norte é um país muito fechado, rodeado de muito mistério. O país foi quase completamente destruído durante a Guerra da Coreia (1950–1953). Atualmente, o regime consegue manter sua população coesa, com um controle estrito sobre seus cidadãos. Você acredita que o processo de reconstrução da Coreia do Norte está mais próximo da realização de uma Utopia ou de uma Distopia? Como você definiria a paisagem de Pyongyang?

O que mais me impressionou quando visitei Pyongyang foi reparar que tudo ali foi construído com uma ideia política na cabeça. Cada um dos prédios pertence ao estado e é administrado pelo estado — desde os jardins de infância até os locais de estudo e de trabalho. Os líderes exercem um papel central na vida pública e sua imagem é reforçada pelos auto-falantes espalhados pela cidade, que transmitem mensagens do Partido Único. Não estamos acostumados com esse tipo de abordagem no ocidente — e isso sem fazer nenhum julgamento de valor, por sinal. É um certo tipo de arquitetura torna difícil ao indivíduo se desengajar do social, algo impressionante. Estamos falando de uma cultura asiática que cria uma forte mistura com o comunismo.

BLOG-PEG: Você esteve acompanhado de guias o tempo todo e só poda visitar locais pré-estabelecidos por oficiais do regime. Como combinar essas restrições com a liberdade criativa do fotógrafo? O acaso teve alguma participação no processo criativo? Como evitar uma visão "oficial" quando todas as cenas fotografadas parecem cuidadosamente controladas?

Dois guias norte-coreanos e um guia ocidental estavam comigo o tempo todo, e ainda tinha outras pessoas olhando. Como ocidental você se sente meio que como um alienígena, mas como fotógrafo você está lá com uma finalidade visual específica. Isso deu a mim uma certa atitude e uma estrutura de pensamento, que era a razão de estar lá. Esse pode ser também um excelente álibi para a satisfação de uma curiosidade pessoal. Meus guias estiveram todo o tempo literalmente a um ou dois metros de distância e podiam ver claramente o que eu estava fazendo, isso era inevitável. Ao trabalhar com o digital é possível checar os resultados. Eu sabia de saída que teria de conviver com todas esses constrangimentos, e na verdade foi nas limitações que eu encontrei minha liberdade. Depois de um tempo todos nós podemos sentir se um projeto vai dar certo ou não. E eu sempre trabalho com uma câmera de médio formato, que permite olhar para os detalhes cuidadosamente depois da captura. É um trabalho que teve de ser feito muito cuidadosamente, pois visualmente o tema precisava vir à tona. Tudo estava direcionado para mergulhar o mais fundo possível no trabalho. Eu utilizei esse "vazio" dos lugares pelos quais passei como uma forma de comentar sobre as situações que enfrentei.

BLOG-PEG: Conte-nos um pouco sobre seus livros, em especial o livro Setting the Stage. Por que você considera o livro uma parte importante do projeto?

Quanto mais a fotografia é mostrada online, mais os fotógrafos querem mostrar seus trabalhos em um livro impresso. Este é uma das últimas formas através das quais você pode controlar como as pessoas verão o seu trabalho. Eu também leciono na Royal Art School de Haia, na Holanda, e lá você pode ver que os estudantes estão muito interessados na parte "material" da mídia fotográfica. Também para mim o livro foi uma das principais partes do projeto. Trata-se de algo que você pode compartilhar com as pessoas ao redor do mundo como um pedaço de tempo que será preservado. Websites, blogs etc. vão mudar constantemente e ficarão obsoletos ou considerados "fora de moda" em poucos anos.

BLOG-PEG: É a primeira vez que você vem ao Brasil? Você já conhecia o Paraty em Foco? O que espera encontrar por aqui em Setembro?

Para mim será a primeira vez no Brasil. Tenho muitos amigos que conhecem o país muito bem e visitaram diversas vezes. Infelizmente não tive a oportunidade de estar aí antes. Estou bastante curioso sobre a vida e o trabalho dos fotógrafos e outros artistas visuais do Brasil. Espero poder encontrar alguns.

BLOG-PEG: Você pode nos adiantar um pouco do que pretende mostrar ao público durante o Paraty em Foco? Como vai ser seu Workshop?

Eu gostaria de compartilhar minha fascinação pela fotografia e como se pode contar uma história de maneira visual. Eu uso bastante o termo "Gramática Visual". Assim como a linguagem escrita, uma imagem também usa uma linguagem para contar uma história. Assim como há livros mal escritos, best sellers e clássicos etc. Você pode aprender muito olhando para a história da fotografia e percebendo como as pessoas trabalharam com essa mídia no passado. Discussões sobre seu "valor" e a forma como ela representa a "realidade" sempre estiveram em questão desde o início.

Veja um making-of do trabalho de Hartmann durante a realização do projeto Setting the Stage.

Quer colaborar com o BLOG PEF? Envie sua proposta de pauta, resenha de exposição ou livro de fotografia para:

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