O Carnaval de BH cresceu. E agora?

Bloquinhos viraram blocões e precisam de uma estrutura muito maior para seus desfiles. Como isso muda a folia?

Carnaval se espalhou por BH. Fotos: Área de Serviço.

A ideia por trás do (re)surgimento do carnaval de rua em Belo Horizonte em 2009 era simples: reunir pessoas com instrumentos para formar uma bateria, ocupar as ruas, fazer a festa com quem quisesse chegar e se divertir.

Sete anos depois, os números são espantosos: quase 2 milhões de pessoas na rua, mais de 200 blocos, duas semanas de folia ininterrupta, milhares de turistas. Apesar do crescimento exponencial, a intenção da festa continua a mesma. Os blocos não têm pretensões comerciais, não recebem verba da prefeitura, não contam com patrocínio de empresas e não vendem abadás.

Acontece que alguns bloquinhos se tornaram blocões e passaram a enfrentar desafios proporcionais a seus tamanhos, como: fazer a música ter potência pra chegar em milhares de ouvidos, encontrar dinheiro para financiar o desfile, coordenar suas baterias cada vez mais gigantes, crescer mantendo suas características, valores e ideais.

“Quando o bloco fica muito grande, parece que perde um pouco da relação de carinho entre todos os presentes, de pertencimento. Mas uma das vantagens do crescimento é que deixamos de nos restringir ao nosso grupo de amigos. Muitos moradores do bairro começaram a ficar e curtir o bloco. Isso é muito legal”, conta Laila Heringer, uma das organizadoras do Tchanzinho Zona Norte, que sai no bairro Jaraguá.
Multidão no Tchanzinho Zona Norte (esquerda) e folião arrasando no Bloco da Praia . Fotos: Área de Serviço

Não é um evento, é uma manifestação cultural.

A mudança no perfil de alguns blocos ocasionada pelo crescimento, desagrada foliões saudosos dos “velhos tempos”. Porém, crescer e atingir um grupo cada vez maior de pessoas sempre fez parte do objetivo. Afinal, o plano não era “carnavalizar BH”?

“É nítido que o carnaval de BH se tornou um movimento de massa e que é impossível controlar o público, mas ao mesmo tempo, é contraditório: quando o carnaval surge, as pessoas reivindicam esse espaço para todos. Mas, quando isso acontece, as pessoas começam a reclamar. Então, que espaço é esse? E pra quem é? É só pra minha galera? Eu acho que tem que estar todo mundo na rua, pessoas diferentes, pobres e ricos”, afirma Di Souza, do Bloco Então, Brilha.

Independente da vontade de popularizar o carnaval de rua de BH, é fato que, a medida que os blocos crescem e chegam a mais pessoas, aumenta a dificuldade de fazer todo mundo se sentir responsável pela festa. Isso foi percebido nesse ano. A impressão é que muitas pessoas não se identificam como protagonistas na multidão. Ao invés disso, no meio dos blocões, alguns foliões têm a sensação de que estão num evento.

Um desfile não é uma festinha que alguém paga para ter acesso, não é um produto ou uma prestação de serviço. Todo bloco tem vida, tem história, tem amor e dedicação. Algumas pessoas chegam cobrando e xingando a gente por estarem insatisfeitas com algo. Essa galera tem que entender como os blocos funcionam. Eu não sei como, mas temos que aumentar o diálogo, temos que trocar ideias, experiências e encontrar maneiras de nos aproximar para seguirmos juntos,” defende Matheus Rocha, do Bloco Chama o Síndico.
Caminhão de som do Chama o Síndico (esquerda). No mesmo bloco, regente ajuda a organizar a bateria (direita). Fotos: Área de Serviço
Chama o Síndico visto do alto. Foto: Área de Serviço.

Mais gente, mais estrutura, mais custo.

Para ter um desfile com qualidade e potência para carnavalizar milhares de pessoas, os grandes blocos precisam de estruturas cada vez maiores e, consequentemente, mais caras. Como os grupos querem seguir independentes, eles se viraram de várias maneiras para viabilizar a festa. O Bloco da Alcova e o Chama o Síndico fizeram projetos de financiamento coletivo, mas admitem que ainda não foi suficiente.

“A gente teve que completar o projeto de crowdfunding para atingir a meta de R$ 25 mil. E pedimos somente o mínimo necessário para o bloco sair. Se fosse possível, seria bom ter uma verba maior para alugar um trio elétrico mais adequado, por exemplo”, afirma Marcos Sarieddine, integrante do Bloco da Alcova.

Os grupos Então, Brilha!, Baianas Ozadas, Pena de Pavão de Krishna, Juventude Bronzeada e Tchanzinho Zona Norte se organizaram e criaram a Sonoriza, uma festa com o intuito de financiar o sistema de som e colocar os blocos na rua.

“Desde 2013, o Baianas divide o carro de som com o Então, Brilha! e o PPK. A gente compartilha desde o começo, quando era uma bicicleta com uma caixinha. A gente conversa o ano inteiro porque somos amigos. Então vamos trocando ideias sobre como organizar a bateria e outras coisas”, afirma Renata Chamilet, produtora do Baianas Ozadas.
Estandartes dos blocos que fazem parte da Sonoriza (esquerda). Foto: Laila Heringer. Desfile do Baianas Ozadas (direita e abaixo). Fotos: Gelton Filho.

Não por acaso, a organização da bateria dos grandes blocos também é motivo de preocupação para os organizadores. O número de batuqueiros sobe a cada ano e, em alguns casos, reúne quase duas vezes mais pessoas do que as baterias das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Nesse ano tivemos 600 batuqueiros, enquanto uma escola de samba do Rio tem cerca de 300. Isso implica em várias questões. A bateria ficou afunilada no meio da multidão e as pessoas deixaram de escutar o som”, conta Di Souza, maestro e um dos organizadores do Então, Brilha.

Além da dificuldade de logística para a o bloco avançar, as grandes baterias trazem ainda outro desafio: por serem abertas, qualquer um pode tocar, mas nem todos participam dos ensaios. Quem chega no dia acaba não sabendo ao certo o que fazer e, muitas vezes, atrapalha.

“Muitos blocos são abertos, mas fazem ensaios. Quem vai apenas no dia geralmente se perde e atrapalha o andamento. Ao mesmo tempo, não podemos fechar a bateria porque não faz parte do espírito do carnaval. É um dilema. O Brilha (e o carnaval como um todo) tem essa tradição de receber as pessoas, mas temos que tomar cuidado para isso não virar um problema, pondera Di Souza.
Desfile do Brilha 2016. Video: Thiago Santos

Ocupar o espaço público (mesmo no carnaval) ainda é uma luta.

Não bastasse todos os desafios ligados ao crescimento do carnaval de BH, os blocos ainda precisam enfrentar o despreparo do poder público para lidar com multidões nas ruas. A mistura de classes, de cores e de intenções dessa festa que é cada vez mais popular, assusta alguns foliões, mas deixa apavorados os moralistas da família mineira.

Belo Horizonte é uma cidade que tradicionalmente restringe o uso das ruas. E, mais do que isso, é uma cidade que não consegue lidar com as diferenças, já que sempre marcou muito bem os espaços: quem pode o quê e quando.
O carnaval ocupa e traz diversidade para as ruas. Isso escancara uma dificuldade do estado — que não sabe lidar com a ocupação pública das ruas — e uma dificuldade da sociedade: lidar com a multiplicidade. Eu posso não gostar, mas o que define o espaço público não é o gosto”, defende Regina Helena Alves Silva, historiadora e professora da UFMG .

Episódios de violência fizeram contraste com a festa. No Bloco da Bicicletinha, a Polícia Militar mostrou sua falta de preparo quando uma viatura atropelou e prendeu o ciclista Fernando Tourinho, fazendo uso de bombas e balas de borracha contra qualquer um que a questionasse.

No baixo centro, o bloco Angola Janga — que luta pelo empoderamento das mulheres negras — também teve seu trajeto interrompido: a prefeitura cercou o Viaduto Santa Tereza a pedido de um evento particular.

A gente percebe que o poder público respeita mais os blocos maiores por medo da repercussão que um embargo ao Brilha, por exemplo, pode gerar. A gente sabe que tem uma pressão política para reprimir os blocos menores, como o da Bicicletinha, até porque eles acabam sendo os blocos mais revolucionários”, analisa Di Souza.
Bloco Unidos do Barro Preto transforma em piscina a fonte da praça Raul Soares (esquerda). Foliões no Bloco da Praia (centro, direita e abaixo) . Fotos: Área de Serviço

Blocos com milhares de pessoas também tiveram problemas com o poder público. Na zona norte, a CBTU fechou o metrô antes do horário previamente combinado com o bloco, impedindo que os foliões do Tchanzinho Zona Norte embarcassem para a Praça da Estação. A história terminou com tumulto e, mais uma vez, com bombas.

Eu acho que é um desafio colocar o povo na rua no Brasil. E em uma cidade que não está acostumada com isso e sempre tentou restringir é mais difícil ainda. Nos momentos atuais, acho que o maior complicador é que o papel do estado está completamente comprometido. A polícia militar não é treinada para lidar com a organização da multidão, com o cuidado comunitário, com o coletivo”, conclui Lena.

No dia 23 de fevereiro, acontece o primeiro desdobramento dessas histórias: uma audiência pública, convocada pelo gabinete do vereador Pedro Patrus, para discutir a violência e os abusos cometidos pela PMMG contra o Bloco da Bicicletinha. Apesar dos enormes desafios, temos a certeza de que a luta (e a festa) continuam. E, ano que vem, vai ser maior!

Desfile Bloco da Alcova Libertina. Foto: Renato Sarieddine