“Doce de Mãe”: o sol brilhou mais uma vez

Uma mãe , vó ou bisavó que todos gostaríamos de ter


Quando escrevi sobre o telefilme “Doce de Mãe” ainda no meu antigo blog (leia aqui: http://openicoestavoando.blogspot.com.br/2012/12/doce-de-mae-simples-e-brilhante.html), lá em dezembro de 2012, afirmei que foi uma obra simples e brilhante e que poderia ser algo a ser desenvolvido na TV:

Como já disse Jorge Furtado, o telefilme pode virar serie, só depende da disponibilidade do elenco — leia-se de Fernanda.
Acho essa possibilidade difícil. O elenco é estelar demais para reunir-se novamente e por um período mais longo. Não sei se isso é ruim. “Doce de Mãe”, em minha opinião, é daqueles produtos únicos, que se continuar, pode estragar. É pra ficar na memória, ser visto e revisto. A genialidade de Fernanda, juntamente com o elenco são suficientes para deixar marcas em quem assistiu.

Evidentemente, errei — feio — ao presumir que ficaria apenas num especial de fim de ano.

Lembro-me que foi a primeira vez que ri com uma personagem de Fernanda Montenegro, a “doce mãe”. Exibido em 2012, uma das falas de Picucha não saem da minha memória. Ao ver um lance num jogo de futebol, ela dispara: “VAI PRA CASA DO CACETA!”. Pronto. Estava caído por terra personagens como Bia Falcão em “Belíssima” e Bete Gouveia em “Passione”.

O capítulo mais recente dessa história é a conquista do Emmy International, o Oscar da TV mundial, por Fernanda.


A última cena do telefilme é encerrada com os versos de “Juízo Final”, imortalizada na voz de Nelson Cavaquinho:

“O sol… Há de brilhar mais uma vez
A luz… Há de chegar nos corações”

O sol brilhou novamente. O seriado estreou no dia 30/1 e, talvez pelo horário (e pelo BBB em baixa), marcou 18 pontos, menos que o telefilme exibido em 2012, que marcou 23. Mas isso não é parâmetro (já disse isso aqui: “Números não definem o sucesso — ou o fracasso — de uma obra”).

A estreia já me marcou na primeira cena: Picucha está no banheiro e lê o livro “O Tempo e o Vento”. Uma referência clara ao filme de 2013 e à minissérie exibida no início de janeiro que Fernanda protagonizou.

Os conflitos dos irmãos Elaine (Louise Cardoso), Fernando (Matheus Nachtergaele), Suzana (Mariana Lima) e Sílvio (Marco Ricca) continuam afiados. Um exemplo foi no primeiro episódio, quando Fernando, que é homossexual, é acusado por Sílvio, de ser preconceituoso com um advogado argentino. Algo como: “você é alvo de preconceito da sociedade e age igual a ela”.

As personalidades de cada um também foram bem definidas: o irmão “macho” (Sílvio), o gay sensível (Fernando), a líder (Elaine) e a “família” (Suzana). Nada caricato. O episódio funcionou como piloto, mesmo com o telefilme já exibido.

A questão central da família volta à tona: quem ficará com Picucha? Depois de abrir a porta para um picareta — que depois se revela um advogado honesto, o argentino — os irmãos ficam preocupados com a segurança da mãe. Mas, ela surpreende a todos: por vontade própria, desejará ir para um asilo, pois acha que é a melhor solução. Os filhos não poderiam imaginar solução melhor.

O segundo episódio me fez rir só de ver Emiliano Queiroz (Alfredinho) “dublando” o choro de Isaurinha, filha de Jesus (Daniel de Oliveira), no asilo, escondendo a criança das médicas. São coisas aparentemente pequenas, mas que ganham outra dimensão ao ver atores como Fernanda e Emiliano fazendo.

A série é tocante ao mostrar a velhice sendo tratada com bom humor, apesar dos problemas e limitações causados às famílias e aos próprios idosos, como no segundo episódio, em que Picucha esqueceu de cantar um trecho em uma apresentação no asilo. Foi a deixa para a disputa de “quem fica com ela” começar, mas com outro sentido: cada filho faz questão de ficar com a doce de mãe e tirá-la da casa de repouso.

O tempo parece voar — com o perdão do trocadilho com o livro — quando a série é exibida. Isso é um ótimo sinal. Não só pela curta duração dos episódios — duram no máximo 30 minutos. O riso é fácil, sincero, leve, graças a um bom roteiro de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, que também assina a direção. Furtado mantém uma característica que lhe é peculiar: as narrações em offs em praticamente todas as suas obras. “Doce de Mãe” não foge à regra, e funciona.

Picucha continua a mesma mãe animada e adorável. Ela é a tradução daquele tipo de mãe ou avó que gostaríamos de ter por toda vida. É impressionante a vitalidade de Fernanda Montenegro em cena.

“Doce de Mãe”, provavelmente, durará apenas esta temporada de 14 episódios. Volto a dizer o que disse em 2012: se achei que o telefilme era o bastante, desta vez a série vem para deixar uma ótima lembrança para quem assiste.


P.S.1: Depois de ouvir Fernandona gritar “vai pra casa do caceta”, ouvi-la dizer “vou no banheiro fazer um ‘pips’” foi épico.

P.S.2: E é muito bom ver as emissoras — Globo e Record — apostando em séries, minisséries ou seriados. Cada uma com seu estilo e dentro de cada orçamento, as duas TVs, apesar de atrasadas, finalmente estão captando o espírito do tempo da teledramaturgia nacional.