“Em Família”: diálogos matadores e uma história bem contada

Manoel Carlos acerta em cheio naquela que pode ser sua última novela


As quatro primeiras semanas de “Em Família” só corroboram uma máxima: Manoel Carlos é craque em escrever diálogos matadores, resultando em uma história muito bem contada. As conversas, apesar de algumas serem longas demais, são igualmente naturais, sem exageros, gostosas de ouvir. Junte a essas falas uma ótima direção, totalmente alinhada ao ritmo da história, temos um produto de ótima qualidade. Talvez um dos melhores de Maneco.

“Em Família” tem uma “pegada” dramática muito forte. Admito que Manoel Carlos e suas novelas não são um dos meus preferidos. Como já disse nesse espaço, gosto de “sangue nos olhos”. Mas “Em Família” até tem um pouco desse sangue: é uma novela emocionalmente tensa, dramaticamente nervosa, com os nervos à flor da pele. Seja com personagens de passado triste e mal resolvido como a protagonista Helena (Julia Lemmertz), personagens com a entrega total e impetuosa de Marina (Tainá Müller) ou a histeria e possessão de Branca, numa ótima interpretação de Ângela Vieira, odiosamente adorável em cena e com pérolas do tipo: “É caro me odiar. Você não tem cacife para isso”.

Caracterização

A polêmica das aparências de idade das personagens me parece desculpa para diminuir a obra. Muitas mulheres que são mãe filha parecem irmãs ou até mesmo o inverso. Natália do Vale (Chica), 10 anos mais velha que Julia Lemmertz (Helena) é menos pior do que Ana Beatriz Nogueira (Selma), mãe de Gabriel Braga Nunes (Laerte), apenas quatro anos mais velha.

A única falha de caracterização da trama é com as próteses colocadas para fazer a cicatriz “mutante” de Virgílio (Humberto Martins) e ao implante careca de Itamar (Nelson Bakserville). Os implantes saltam à tela, não são nada naturais.

As fases foram bem definidas através da fotografia, e nesta (a terceira), ela já não é mais fator importante. Ainda é um pouco amarelada, por vezes crua. Natural, como são as histórias. Não chega a ser marcante como em “Avenida Brasil” ou em “Amor à Vida”, mas tem personalidade. O diretor Jayme Monjardim entrega imagens que por vezes parecem pinturas.

Temas

Quando Manoel Carlos disse que “Em Família” seria um novelão, já tive o pré-conceito de achar que seria algo extremamente tradicional. A trama passa longe disso.

Apesar de discutir valores familiares — aparentemente conservadores, ainda mais em uma sociedade como a brasileira —, a trama consegue falar deles com propriedade e quebrando tabus pífios, mas que ainda ficam no imaginário das pessoas, como quando Ricardo (Herson Capri) fica tenso ao ver que o cartão está bloqueado e não tem como pagar o motel. Chica assume a responsabilidade, deixando o “macho alfa” tenso ao se ver enfraquecido e até mesmo humilhado por uma mulher que até pouco tempo estava temerosa em entrar num motel. O riso de Chica ao pagar a conta é libertário.

O romance homossexual de Marina e Clara (Giovanna Antonelli) é outro ponto que Manoel Carlos tem tratado com delicadeza. O tema não é novidade, muito menos nas novelas do autor. Mas, aqui, é algo natural — como deve ser —, sem os exageros de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) em “Amor à Vida”, novela anterior de Walcyr Carrasco (que é posto “no chinelo” perto de Maneco). A trama é fluída, ao mesmo tempo que é intensa. Marina é fulminante perto de uma doce Clara. E digo mais: o beijo entre as duas mulheres acontecerá muito antes do final da novela.

A história de Juliana (Vanessa Gerbelli) também é uma das que ganharão mais destaque. Por vezes desiquilibrada no objetivo de ter um filho a qualquer custo, a adoção de Bia (Bruna Faria), filha da empregada Gorete (Carol Macedo), morta, ainda renderá bons momentos. Tensos, é claro, e com uma interpretação ótima de Vanessa Gerbelli.

Por outro lado, a representação do conservadorismo está na pele de Miss Lauren (Betty Gofman), uma diretora de um asilo que trata os idosos como bonecos, impedindo, por exemplo, que usem determinadas roupas ou que casais sejam separados de seus quartos se não forem casados.

“Em Família” tem uma ótima galeria de personagens que causarão ódio (e amor, também): Branca, Miss Lauren, Juliana e, aguardando ansiosamente, Shirley (Viviane Pasmanter, sempre odiosamente adorável quando faz uma vilã).


Antes de estrear, “Em Família” definitivamente não era o tipo de novela que me faria assistir. Passados 20 capítulos, já posso dizer que a trama é uma das melhores — se não a melhor — novela de Manoel Carlos.


P.S.: “Em Família” só peca por ter Roberto “Friboi” Carlos em sua trilha sonora.