“Joia Rara”: comum, porém nobre novela das seis

A trama de Thema Guedes e Duca Rachid chega ao fim mostrando que, atualmente, é impossível manter uma novela com mais de 100 capítulos


Quando “Joia Rara” estreou, apostei que seria uma das melhores novelas de época já feitas em nossa TV. Por outro lado, a história seria convencional, apostando nos clichês folhetinescos. Tanto que titulei o texto da estreia como “Nobre e rara novela das seis”. Chegando ao final, mudo o título. De rara, tornou-se comum. “Joia Rara” foi o mais puro folhetim. Mas muito bem embalado, como nenhuma outra novela de época já vista.

“Joia Rara” termina com média geral de 18 pontos, uma das menores do horário das seis. No entanto, o apuro estético da produção e as boas atuações fizeram cair qualquer tipo de notícia tendenciosa em relação aos números — eles, tão injustos e que, definitivamente, não são sinônimo de qualidade.

O cuidado com a produção foi primoroso. A reconstituição dos anos 1940 foi acentuada pela fotografia quase em sepia, amarelada, por vezes até escura, melancólica. Mesmo as cenas no Cabaré Pacheco Leão, palco de apresentações calorosas das cantoras e vedetes, era escuro. No entanto, essa foi a marca de “Joia Rara”. Amora Mautner, a diretora da trama, pegou o que deu certo em “Avenida Brasil”, trama que dirigiu anteriormente: a fotografia, mais próxima do cinema, e os diálogos encavalados, em que todos os personagens falam ao mesmo tempo. Esta última característica se mostrou um problema, já que por vezes era difícil compreender as falas.

Amora Mautner (foto ao lado, com Carmo Dalla Vecchia e José de Abreu), em entrevista ao site oficial da novela, explica a fotografia adotada em “Joia Rara”. A diretora é tão perfeccionista, que até o cão de Pérola, Sidarta, segue a paleta de cores da trama:

Suas novelas têm uma luz diferente, amarelada. Avenida Brasil (2012) tinha uma linguagem que fazia referência ao cinema argentino, enquanto Joia Rara é inspirada na paleta de cores de Gustav Klimt. O que você pensa ao desenvolver essas linguagens?

AM: Acredito que temos que acrescentar a unicidade que existe em todos nós para que uma cena saia do comum e vire arte. Esse conceito de ter uma fotografia sempre me interessou muito porque eu sou ligada em estética. Acho que a gente tem duas ferramentas para contar uma história: a dramaturgia, que é a dramatização da cena, e a forma, em que entra a fotografia como um dos itens fundamentais. A luz tem que dizer a mesma coisa que o cenário e a roupa. Por isso que a paleta é uma coisa tão importante.

As autoras Duca Rachid e Thelma Guedes se desdobraram para manter 173 capítulos de “Joia Rara”. Nos últimos meses, ficou visível que a novela não mantinha fôlego, e passou a andar em círculos, num jogo de gato e rato. O ideal seria que “Joia Rara” terminasse, há pelo menos, dois meses. A única trama que teve uma evolução linear foi a de Ernest Hauser (José de Abreu). O antes vilão, arrependeu-se de todo o mal que fez, numa trajetória que se apoia nos pilares do budismo, pano de fundo da trama: amor, compaixão, perdão e transformação.

Aliás, Ernest foi o personagem que se livrou do estigma clichê da trama. A disputa de classes, mocinhos e mocinhas, vilões caricatos, e todos os elementos do folhetim estavam presentes. Amélia (Bianca Bin), a mocinha sofredora; Franz (Bruno Gagliasso), o herói incorruptível e Manfred (Carmo Dalla Vecchia), o vilão invejoso e cruel (mesmo com motivações que vem desde a infância) formaram o tradicional trio folhetinesco. Cativante, Mel Maia brilhou na pele de Pérola, a “joia rara” do título. De certa forma, foi a protagonista da trama, já que quase todas as ações principais giraram em torno da pequena. A última semana foi especialmente marcante para a menina: Pérola emocionou nos embates com Manfred enquanto estava sequestrada.

Outro ponto que diferenciou “Joia Rara” foi o uso de uma trilha sonora atemporal, que tinha nomes como Elis Regina e Tim Maia. Fatos históricos também foram “antecipados”, como uma maior participação feminina na sociedade, algo que seria possível apenas anos mais tarde.


Os últimos capítulos da novela mostraram que a duração (173 capítulos, quase sete meses) prejudica as histórias. O sequestro de Pérola pode ter sido emocionalmente tenso, mas não foi tão pior (ou grave, do ponto de vista criminal) quanto outros planos do vilão, como quase matar o verdadeiro pai, Venceslau (Reginaldo Faria), além de ser o mandante de alguns assassinatos e causar o acidente com o carro de Silvia (Nathalia Dill). Mais ainda, quando tentou matar o “irmão” Franz no primeiro capítulo, quando estavam escalando nos Himalaias.

Manfred cometeu tantos crimes, que o sequestro de Pérola — apesar de tenso e com gritos, muitos gritos de um ensandecido Carmo Dalla Vecchia — serviu apenas para o clímax , onde Ernest se joga na frente de Manfred e leva um tiro da polícia, se redimindo de todos os males que causou àquele que foi seu filho por anos.

Curiosamente, o clímax final foi no penúltimo capítulo — com o drama elevado a níveis altos de choros e gritos. A cena da morte de Ernest e Manfred, apesar de bem dirigida, foi drama até o último pixel da imagem. Devo considerar: as autoras fugiram do clichê de resolver tudo no final, diluindo os acontecimentos, reencontros, mortes, nascimentos e casamentos durante a última semana da novela.

O final com Gloria Menezes, Pérola mais velha, foi digno de toda uma boa novela, com uma grande atriz declarando um manifesto de paz. O budismo, pano de fundo de “Joia Rara” não foi doutrinatório. Foi a expressão de uma filosofia que prega o bem e o amor acima de tudo.

A próxima novela do horário, “Meu Pedacinho de Chão”, já chega toda escrita e terá por volta de 100 capítulos. O remake será dirigido por Luiz Fernando Carvalho, e as chamadas já mostram que terão todo o estilo do diretor: a novela será quase uma fábula, ainda que não seja uma trama infantil. Mas com 100 capítulos.

É chegada a hora de repensar as novelas — novos formatos, gêneros, duração —, ou será difícil manter o formato na TV brasileira.


P.S.1: Mariana Ximenes (Aurora), Letícia Spiller (Lola), Arlindo (Marcos Caruso) e todo o núcleo do cabaré foram os responsáveis pelos momentos leves e de humor da trama. As apresentações, por vezes longas, mostraram todo o glamour dos anos 1940 e as disputas internas das artistas por melhores apresentações.

P.S.2: Marcelo Médici (Joel) e Luana Martau (Cleo) foram, de longe, a melhor dupla (não necessariamente um casal) da novela. Ele, um gay enrustido. Ela, uma capira inocente. Os dois se casaram, mas Joel deixou claro que seu interesse é outro. Ou Cleo “se fez” de desentendida apenas para se casar…

P.S.3: Outra dupla foi Gertrude (Ana Lucia Torre) e Manfred. Mãe e filho completamente loucos. Ela, a verdadeira causadora de todos os males do filho e de Ernest. Ele, um vilão que tem suas crueldades justificadas por memórias do passado. As cenas dos dois, muitas vezes também na companhia de José de Abreu (Ernest) e Reginaldo Faria (Venceslau), foram os grandes momentos de “Joia Rara”.

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