“Em Família” começou longe da audiência dos sonhos que a Globo deseja para o horário. E a queda foi brusca: o primeiro capítulo já tem o nada honroso sub-título de pior estreia de uma novela das nove, com 33 pontos. Durante a primeira semana, a audiência não superou os 30 pontos.
Porém, esse talvez seja o melhor do “mais do mesmo” que Manoel Carlos pode oferecer. “Em Família” é esteticamente bonita, tem um elenco forte e o roteiro do autor é ótimo de se ouvir. Maneco é um dos poucos que consegue mostrar situações cotidianas — e até banais — sem ser piegas ou didático. É tudo muito natural, simples (sem ser simplório).

A verdade é que “Em Família” é uma novela contemplativa, que exige paciência (e um pouco de disposição) de quem assiste. Os diálogos e cenas são demorados, carregados muitas vezes de emoção, o que não chega a ser um defeito, mas afasta o telespectador que gosta de mais ação e rapidez — um dos motivos que fez “Amor à Vida” ganhar fôlego na reta final, apesar do roteiro pobre de Walcyr Carrasco.
O início foi marcado por duas fases da trama. A primeira durou apenas parte da estreia, e a segunda terminou dia 10. Foi um início bonito de se ver na tela e com atuações inesperadas. Bruna Marquezine, vivendo Helena na segunda fase, engoliu os parceiros de cena Guilherme Leicam (Laerte) e Fernando Rodrigues (Virgílio). Apesar disso, o Laerte de Guilherme Leicam conseguiu passar toda a psicopatia que o personagem tem por Helena.

Bruna dominou a primeira semana com uma segurança, com uma vivacidade, que tornou Helena uma personagem forte, muito mais forte do que as outras Helenas que Manoel Carlos criou. A Helena da segunda fase foi impetuosa, provocativa, atrevida. Uma atuação surpreendente de Bruna Marquezine, que volta como Luíza, filha de Helena na terceira fase.
O elenco não tão conhecido desta primeira semana em nada comprometeu a trama. Na verdade, soou até como um respiro. Destaco Juliana Araripe (Chica) e Cyria Coentro (Maria) como as melhores que passaram por esta fase.
Jayme Monjardim repete a parceria com Manoel Carlos que vem desde “Páginas da Vida” (2006), se mostra afiada. O diretor consegue, através da fotografia, imprimir a emoção que a cena necessita no momento. Com um olhar muito mais delicado, Monjardim acompanha a complacez do roteiro de Maneco, entregando belas imagens. Foi assim com a bonita “Flor do Caribe” (2013), última novela do diretor, e com o filme e minissérie “O Tempo e o Vento” (2013/2014).
Apesar de ser um diretor clássico, Monjardim vem inovando em cena (comparado ao seu estilo), como os enquadramentos da cena em que Virgílio e Laerte brigam, e quando Helena está na piscina e vê Shirley (Alice Wegmann) na borda, assim como quando ela se afogou na primeira fase da trama e a megera não fez nada.
O grande problema desta primeira semana foi a caracterização dos personagens e cenários. Da segunda para a terceira fase, haverá uma passagem de aproximadamente 20 anos. Durante as primeiras fases, pareceu que Goiânia era uma cidade parada no tempo, com carros das décadas de 70 e 80, músicas da década de 80, figurinos e cortes de cabelo atemporais. As passagens de tempo foram leves até demais, confundindo grande parte dos telespectadores. Essa confusão talvez seja um dos motivos da baixa audiência do folhetim.

Repito: “Em Família”, que talvez seja a derradeira novela de Manoel Carlos, se mostrou uma das melhores do autor, pelo menos por esta primeira semana. Meu único temor é que a Helena de Júlia Lemmertz perca a força que a jovem Helena nos mostrou, e que o Laerte de Gabriel Braga Nunes não seja um “cão arrependido”.
Por outro lado, fica a minha ansiedade para ver a Shirley de Viviane Pasmanter, atriz que viveu a inesquecível vilã Laura em “Por Amor”, também de Maneco.
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