A única

O frio intenso penetra as camadas de proteção que visto, gelando e adormecendo meu corpo e aguçando meus sentidos. Silêncio absoluto. Eu sinto minhas unhas se arroxeando, mas não consigo vê-las — à minha frente, apenas o vazio. Por milhões e milhões de quilômetros, vazio, com estrelas cintilando a distâncias inalcançáveis. Sem elas eu estaria solta no negrume do espaço, ignorando a dimensão do que me cerca, mas sua presença só amplifica minha solidão e me assegura de que sou, de fato, a única.

Acompanho com os olhos o contorno imaginário de uma constelação em forma de trono invertido. É Cassiopeia, rainha africana condenada ao firmamento por sua vaidade excessiva, que ofendeu as filhas de um deus. Filhas, estas, há muito mortas e esquecidas — mas aqui Cassiopeia vive, ascendendo da Etiópia à eternidade. Também eu pretendo ser eterna, por mais insignificante que isso seja num lugar em que os dias se confundem e a passagem de tempo é marcada apenas pela minha fraqueza.

Meu estômago ronca e se aperta, como que me punindo pelo descaso. A dor da fome já mal é sentida, é um incômodo ao fundo, e a sede que queimava a garganta agora arde sem pressa. Nada disso importa. O corpo é inútil sem estímulo, existe para me representar num mundo do qual já não faço parte. Então o esqueço, e me concentro no infinito.

Meu existencialismo é interrompido pelo som raspante de um violoncelo. Mantendo os olhos na imensidão à frente, caço às cegas na mochila jogada ao meu lado a fonte do incômodo e encontro o celular aceso, implorando minha atenção. Maíra. A chamada cai no correio de voz. Me atende, tou desesperada te procurando. Carina me disse que arrancaram o orçamento do teu planetário. Por favor, me diz aonde você tá e eu te busco. Não faz nenhuma besteira.

Eu nunca fui boa com pessoas. Em qualquer interação social me sinto mergulhada, explorando um mundo à parte e sentindo a ansiedade crescer no peito, pedindo ar e superfície. Períodos prolongados de isolamento remediam o que pede uma solução definitiva, mas não há solução definitiva, é impossível se fechar completamente. Não há para onde ir. Apenas no espaço se encontra a solidão, absoluta e absurda em sua plenitude. Nenhum estímulo externo, nenhuma distração, uma existência pura.

Desligo o celular e o jogo pra longe, desaparecendo com um baque de metal contra metal. O movimento brusco machuca minhas juntas, inertes há dias, e a dor me distrai por um momento, mas logo relaxo e caio num sono tranquilo.

Acordo suada, alerta, confusa. Por um minuto de pânico não sei onde estou, e tateio no chão gelado em que adormeci. Ao longe, um choque surdo, e outro, de novo e de novo. A luz das estrelas é quase imperceptível. Levo as mãos ao controle e ajusto o brilho, agora cegante, imersivo, machucando meus olhos. Ainda assim a névoa parece avançar e me sinto quase sem peso, flutuando de encontro a Cassiopeia.

Um último choque, estrondoso. Eles me encontraram. Não é justo. Eu quero ficar sozinha. Mas eles arrombam as portas barradas e me carregam pra longe da paz do meu universo projetado, numa ambulância estridente e ridícula, fazendo perguntas. Esfrego os olhos fechados até enxergar estrelas dentro das pálpebras, as vozes se confundindo com a sirene à distância, os pneus correndo o asfalto, e me perco no excesso de estímulo, sorrindo. Aqui também eu sou a única.

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