Carne de rã
— Ranicultura, Evandro falando, bom dia.
— Bom dia, Evandro, eu queria marcar uma visita pra essa semana.
— A senhora gostaria de visitar nosso abatedouro?
— Nossa, é assim que vocês chamam? Que mau gosto, jesus cristo.
— Senhora? O abatedouro é onde nós abatemos os animais, o nome é esse.
— Ok, chama do que quiser. Eu preciso de uma visita com urgência. Quanto custa?
— Depende da qualidade da carne, uma rã de primeira sai em média uns sessenta por quilo.
— Por… ? Desculpa, o procedimento todo é sessenta? Quilo de quê? MEU?
— Da rã, senhora.
— Eu não tou entendendo, eu não sei falar em código, me situa. A rã é eufemismo pro quê?
— Não é eufemismo, senhora, é rã. Carne ao quilo.
— Então vocês realmente são um abatedouro? Eu não achei que existisse uma loja real de carne de sapo, que absurdo, quem come sapo? Em 2015? Qual o problema de comer galinha, muito mainstream?
— Senhora, isso é um trote?
— Não, desculpa. Eu não queria ofender a honra das rãs. Eu adoro rã. Amo. Acho lindo os saltos, o verde, o olhar de louca. É que uma amiga me disse pra procurar cartazes desse tipo de loja e ligar o número porque é um código, sabe, “carne de rã”.
— Código de quê?
— De um certo procedimento médico ilegal. Cê sabe. O que se resolve sozinho em nove meses.
— Carne de rã é código pra ABORTO?
— Primeiramente, não berra. 2015, Evandro. Quem berra em 2015?
— Eu sei do ano, senhora. Qual a relação entre rã e aborto? Como que alguém adivinharia isso? Ou é uma daquelas gírias de jovem que ninguém sabe como começou?
— Eu acho que é porque tem gente que chama a parte íntima de perereca, né. Minha vó chamava de perereca quando me dava banho, deus a tenha, mas uma vez ela se queimou na travessa de lasanha e berrou BUCETAAAA na frente da família toda. Um tio meu levantou da mesa, entrou no carro e foi direto pra terapia.
— Isso explica as ligações estranhas de uns meses pra cá, todo tipo de mulher repetindo carne e rã como quem faz aspas com os dedos. Caaaarne. Eu quero uma caaaarne de rãããã. Eu não sei o que é uma carne, não existe essa medida. Você não chegaria no seu açougueiro e pediria “uma carne”.
— Não, eu sou vegetariana. Mas eu também não iria na feira pra pedir “um legume”. A menos que legume fosse código pra baseado.
— E é?
— Não sei. Se não é, devia ser. Então vocês definitivamente não fazem nenhum tipo de aborto? Nadinha?
— Não, senhora, nem um pouquinho. Só rã, mesmo.
— Ok, brigada, Evandro. Bom dia aí pra você.
— Bom dia pra senhora.