#2 seu pai

ele pitototinho e bochechudo como você.

do menino que ele foi, sei que gostava de aviões. não devia serem muitos os que atravessavam o céu de Montanha, mas talvez por isso mesmo ele logo segurou um pelo rabo e ganhou mundo ligeiro. Ele vai te ensinar, filho, sobre os tipos e modelos, vai te dar alguns de presente para seus ensaios de vôo e, quando chegar a hora, vai voar com você, te oferecendo o assento na janela e as nuvens lá fora como forma de distrair seu medo.

ele gostava também da fazenda. da casa que mesmo depois de muitas casas vai ser a que primeiro ele lembra quando pensa em casa. de paredes brancas e janelas azuis. de flamboyants esparramando o laranja por cima das telhas. da terra. do mato. dos bichos. do cheiro que a chuva fazia. A segunda casa que ele conheceu, assim casa-alegria, casa-aconchego, casa-amor, imagino que tenha sido você, porque foi quando vi ele novamente à vontade para repousar em confiança e deixar o sorriso fazer morada.

muito novo, ele aprendeu a dançar nos clubes da cidade o forró, a lambada, a fumar, beber e a dirigir. também foi antecipado que ele conheceu o sexo das mulheres. e, para aquilo que não tem idade nenhuma que prepare, à violência e à confusão dos homens ele também foi iniciado cedo. Pra você, ele amacia o tempo. Respeita que seu andar tem ritmo próprio e que cabe a nós observar, esperar, acompanhar. E com você ele aprende a diminuir o passo — a respirar melhor. No nosso compasso de três, vamos encontrando o ritmo bom, a pressa sendo cada vez mais temperada pela moleza das nossas manhãs.

que medos, quais assombrações atrapalhavam o sono do seu pai menino? sei que ele às vezes se sentiu à deriva. solidão daquelas piores: entre multidão. pelo que crescia, passou a achar não caber mais no mundo, desajeitado, inadequado. não teve, talvez, quem olhasse nos olhos dele e dissesse que a gente pode se agigantar à vontade, ficar torto, canhoto ou com chulé que sempre tem espaço pra gente no mundo, que nossa vida tem serventia e que pelo menos no coração de alguéns a gente encaixa bem e nunca desencaixa. que a gente pode errar e voltar. acertar e depois errar de novo. — sempre voltar. porque, enquanto tem volta, nosso corpo aprende a ir confiante (de si) pelos caminhos. Ele forja pra você a acolhida que não teve, prova viva de que somos muito além do que recebemos: somos aquilo que oferecemos. Você veio pequeno e de olhos grandes, perdeu cabelo, ganhou orelhas de abano, e ele acha você todo dia lindo igual. Ri com carinho dos seus defeitos, porque não se trata de estar cego a eles, mas de tê-los na conta exata de quem você é, e de não abrir mão do precioso que você é em nome de ficção nenhuma. Seu pai é amor, filho. E o amor fez ele abrir espaços, construir o móvel onde você dormiria, relativizar a bagunça da sala e interromper o sono quantas vezes seu choro reclame. O amor faz ele te querer livre. Inclusive para nos desapontar as expectativas, exclusive para que você vá a inteireza do seu caminho pleno da alegria de ser quem você seja — esse que a cada dia descobrimos mais um pedacinho e nos delicia.

num flagra às cinco da manhã, vocês brincando de dormir igual.

quando conheci seu pai, enquanto conversávamos ainda somente com as palavras escritas e as distâncias (jeito poético de te contar a história de que nos conhecemos através de um aplicativo de encontros virtuais), eu falei certa hora, brincando-sério, do meu sonho de ter bruguelinhos correndo pelados e descalços pela casa, ao que ele respondeu que era um sonho comum. guardei a emoção. sabe lá se aquele encontro duraria um carnaval, quanto mais se caberiam descendências. pois passou o carnaval e foi crescendo em mim o desejo de ter um pedacinho dele pra amar sempre e breguices outras que animavam nosso convívio. mas era desejo que crescia discreto, e às vezes se duvidava, como quando seu pai que ainda não era pai impacientava-se desajeitado com alguma criança ou exibia uma vida já muito consertada e cheia de pequenos apegos e grandes verdades. Por mais que alguma coisa em mim me fizesse acreditar na potência dele, a verdade, filho, é que eu nunca-jamais teria como imaginar a lindeza que seu pai viria a ser enquanto pai. Não é exatamente o que ele faz que me surpreende — apesar de que ele faz muito, ou melhor, faz muito bem a parte dele no cotidiano das fraldas a serem trocadas — mas justamente o que ele desfaz: é na recusa à tradição que ele inventa um jeito novo de existir-se homem, pai, companheiro. Com menos julgamento e mais afeto, menos distância e mais corpo que abraça e beija, menos silêncio e mais amor que se enuncia e se esparrama pelos nossos dias.

sob um falso céu estrelado, um registro da força e do apoio com que te incentivávamos a vir.

ele foi a todas às suas consultas pré-natais. e chorou em todos os ultrassons. naquele que te revelou menino, se preocupou um pouco mais com o homem que ele seria pra você referência. ele leu todos os livros que chegaram às nossas mãos, e aprendemos juntos a reverenciar meu corpo feminino que te nutria e que se preparava, numa sinfonia de hormônios e outros mistérios, pra te dar à luz. ele foi parte essencial do nosso parto: o olhar sereno que me inspirou a relaxar entre as ondas que te traziam pra mais perto de nós, a voz que não me deixou esquecer de respirar quando respirar era difícil e, quando eu já achava que não conseguiria mais, foi dele quem vi a emoção estampada na face que me serviu de sinal de que você já se apresentava e de que eu conseguiria, então, uma forcinha final para que pudéssemos enfim te conhecer. Seu pai preparou sua vinda, filho, cuidou de nós o caminho inteiro da aventura que nos fez nascermos: um filho, um pai e uma mãe. Ele tem lugar nessa nossa história — ele manufaturou um –, pois se sobre “ser mãe” nossa sociedade impõe tantas normativas e modelos pré-fabricados, o papel do pai é folha em branco das nossas infâncias marcadas de ausências. Ele foi bom companheiro nas brigas justas que precisamos travar para que você se sentisse amparado quando saísse do quentinho do útero. Não tínhamos como te esconder, filho, que você recém chegava num mundo hostil, mas fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que você conhecesse que existe também muito amor&gentileza ao redor, e que são com essas armas que vamos juntos desbravá-lo.

desde então, você tem sido a alegria das manhãs dele. o motivo bom pelo qual ele se atrasa pra chegar no trabalho e se apressa pra sair de lá mais cedo. à noite, enquanto você chora de dor, cólicas de um corpinho que ainda está engrenando funcionamento, ele busca técnicas de alívio pra te oferecer, mas principalmente: ele te acompanha na dor, ele permanece com você no escuro do quarto, num silêncio capaz de suportar os gritos lancinantes que só um recém-nascido é capaz de produzir… pois ele sabe que a dor é importante também de ser atravessada, e se oferece em parceria pra única saída que efetivamente ajuda: a de não nos sentirmos sozinhos enquanto não encontramos saída. Você não está sozinho, filho.

Você tem um pai.

ele. as bromélias. e um pacotinho de você.