A natação como tratamento alternativo para crianças portadoras de paralisia cerebral. Um estudo de caso

Introdução

O homem portador de alguma patologia como a paralisia cerebral pode ter seus movimentos afetados bem como a postura que pode ser causada por uma lesão fixa não progressiva que ocorre antes, durante ou depois do nascimento. O dano cerebral numa paralisia não é reversível, produzindo incapacidade física para o resto da vida, (CARMO, 2005).

A Paralisia Cerebral (PC) é o resultado de um dano cerebral que leva a inabilidade, dificuldade ou descontrole dos músculos e de certos movimentos do corpo. Portanto, o termo cerebral quer dizer que a área atingida é o cérebro, Sistema Nervoso Central (SNC) e a palavra paralisia refere-se ao resultado do dano ao SNC tendo como conseqüência a lesão nos músculos e na coordenação motora dos portadores da condição especial de ser e estar no mundo. É uma deficiência permanente que requer das crianças, dos pais, da família e da sociedade muitas adaptações.

Os pacientes de PC devem ser tratados por uma equipe que têm como objetivo reduzir o handicap psicomotor e se possível, colocar o paciente em condições de se integrar na vida comunitária. Uma equipe numerosa, constituída por neurologista infantil, ortopedista, pediatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo, especialista em terapia ocupacional e professores especializados, deve cuidar do paciente durante muitos anos, senão durante toda a vida (DIAMENT E CYPEL, 2005).

Neste contexto, identificamos que as atividades aquáticas são fundamentais para um desenvolvimento harmonioso das qualidades físicas, psicológicas e sociais de todas as pessoas, independentemente das suas capacidades e limitações.

A natação pode beneficiar o paciente portador de PC com relação à adequação do tônus acentuado, liberando o potencial de movimento restringido pelos músculos tensos, permitindo a aprendizagem de atividades necessárias para movimentos funcionais através de atividades globais, voluntárias e motivantes.

Na água a ação da gravidade é quase nula, permitindo a criança executar movimentos que não poderia realizar fora do ambiente aquático, estas atividades estimulam o desenvolvimento da propiocepção. A execução de movimentos ou posturas não habituais auxilia a estruturação da imagem corporal, também proporciona meios de estimulação para o desenvolvimento da fase psicomotora que se encontra, além disso, os exercícios de controle respiratórios são importantes para estes pacientes que normalmente possuem alteração da função respiratória.

Para Burkhardt e Escobar (1985), dentro da água desaparecem de forma notável as barreiras que às vezes marginalizam o deficiente, como cadeira de rodas, bengalas, próteses, muletas. Dentro da água aqueles que vivem a dependência passam a experimentar o prazer da autonomia.

Para o portador de paralisia cerebral a natação proporciona meios de estimulação para o desenvolvimento da etapa psicomotora em que se encontra. A função respiratória é freqüentemente alterada em conseqüência do problema neurológico que com a maturação do sistema nervoso surge à compensação fisiológica, a respiração oral pode ser substitutiva da respiração nasal, (BURKHARDT E ESCOBAR, 1985).

Este estudo foi desenvolvido partindo da problemática de tornar possível, através da atividade física adaptada, neste caso a natação, um tratamento alternativo, no intuito de contribuir na melhoria da capacidade funcional, no aumento da auto-estima e conseqüentemente o convívio social.

Neste sentido, o objetivo deste estudo foi analisar as contribuições da natação no tratamento da criança portadora de lesão cerebral.

Metodologia

1. Caracterização do estudo
A modalidade de pesquisa é um estudo de caso de uma paciente do sexo feminino com idade de 12 anos, portadora de paralisia cerebral. Esta estratégia de pesquisa consiste no estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira que permita seu amplo e detalhado conhecimento (GIL; 2002).
2. Coleta de dados
As técnicas de coleta de dados empregadas foram a de observação sistemática, entrevista utilizando formulário com perguntas abertas, aplicadas individualmente com a responsável pela cliente, antes e após a intervenção
O roteiro da entrevista continha perguntas referentes à percepção da paralisia cerebral, acompanhamento médico, quadro clínico atual e sobre a atividade da natação.
Além da entrevista foi realizada uma intervenção pautada em atividades físicas e psicomotoras realizadas no ambiente aquático durante um período de um ano.
3. Análise de dados
Os dados foram analisados inicialmente por meio da organização das informações em categorias e apresentados por meio de relato das observações dos pesquisadores e fragmentos dos relatos da mãe da cliente, por meio do método de análise do discurso.
4. Questões Éticas
Foi utilizado um termo de consentimento livre e esclarecido, tendo o cuidado de manter o sigilo e o caráter ético e profissional da pesquisa, respeitando as diretrizes da lei 196 / 96.

Resultados e discussão

A Paralisia Cerebral é uma desordem do tônus, do movimento e da postura de caráter não-progressivo devido a uma lesão que afeta o cérebro imaturo e interfere na maturação do Sistema Nervoso Central. Esta lesão provoca uma debilitação na coordenação da ação muscular com resultante incapacidade da criança em manter posturas e realizar movimentos normais (VIVONE et. al ; 2007).

São notórias as dificuldades que o portador de necessidades especiais tem em praticar algum tipo de atividade física e acesso ao lazer ativo, por falta de espaços e oportunidades. Muitas vezes devido à locomoção desses indivíduos que necessitam de cadeiras de rodas especiais e acesso aos meios de transportes.

Para Cidade e Freitas (2002):

Propiciar desenvolvimento global envolve ajuda para que o individuo consiga atingir a adaptação e o equilíbrio que requer sua deficiência; identificar as necessidades e capacidades de cada educando quando as suas possibilidades de ação e adaptações para o movimento; facilitar sua independência e autonomia, bem como facilitar o processo de inclusão e aceitação em seu grupo social. (p.37).

As atividades propostas seguiram um modelo que pudesse atender as necessidades da paciente, respeitando a sua individualidade biológica, as particularidades da patologia e as limitações da criança. A proposta foi desenvolver atividades que proporcionassem a melhora emocional, motivação e superação da deficiência, baseado nas funções e nos potenciais existentes nesta criança.

Foram realizadas atividades de fortalecimento muscular, melhora da postura, amplitude de movimento, além de atividades recreativas. Observamos que muitos dos exercícios que foram trabalhados eram de início realizados com ajuda e muita dificuldade pelo fato da dor. Com o a freqüência e repetição desses, conseguimos perceber a melhora na realização dos movimentos.

Conforme Escobar e Burkhardt (1985), a Paralisia Cerebral é uma situação complexa que tem efeitos não apenas sobre o crescimento ou desenvolvimento físico, mas também sobre a habilidade motora, a personalidade, a capacidade cognitiva, as atitudes pessoais e sociais do paciente, as emoções e atitudes e as interações com a família.

Com a experiência de está fora da cadeira de rodas, superando obstáculos mesmo com dificuldades, pode-se observar que a criança passa a superar seus medos, angustias e expectativas de qualidade de vida.

Na maioria das vezes, pelas condições físicas, os portadores de Paralisia Cerebral, não têm a oportunidade de praticar exercícios, levando uma vida sedentária e vegetativa. No caso da criança participante desta intervenção, percebeu-se o prazer, a força de vontade, a garra para tentar realizar as atividades propostas, e a motivação da sua responsável, aspectos que influenciaram positivamente no sucesso das atividades.

Conforme relatos da mãe da paciente, a natação trouxe muitos benefícios para a filha. “Com a natação periodicamente ela consegue realizar movimentos que surpreendem, como, por exemplo, consegue juntar as mãos, abrir e fechá-las”, o que demonstra a contribuição desta terapia no tratamento do portador de paralisia cerebral.

A busca de melhores padrões de qualidade de vida e de movimentos voluntários torna-se uma grande vitória, pois a cliente passa a perceber que não precisa viver de forma vegetativa, demonstrando a alegria quando começou a esboçar um movimento novo e superar as dificuldades.

Considerações finais

A educação física adaptada vem contribuindo com o desenvolvimento dessas pessoas, melhorando a auto-estima, tônus muscular, a socialização e a autonomia. Portanto, podemos analisar a importância da atividade física para indivíduo portador de PC.

Os benefícios são inúmeros apesar das limitações que estes indivíduos possuem em conseqüência da patologia e também, as condições precárias de atendimento no que diz respeito a espaço físico inadequado, poucos profissionais capacitados para atendê-los.

Apesar da criança portadora de lesão cerebral não aprender da mesma forma que o restante das crianças por apresentar dificuldades motoras, comportamentais e comunicativas as atividades influenciam positivamente a sua qualidade de vida.

O trabalho evidenciou que a natação diminuiu a rigidez muscular, aumentou a amplitude de movimento, o equilíbrio e a força da paciente. Desta forma, percebe-se a importância do trabalho de um profissional de Educação Física no tratamento do portador de Paralisia Cerebral.

Referências

  • BURKHARDT, R; ECCOBAR, M. O. Natação Para Portadores de Deficiências. 8ª Edição Rio de Janeiro. Ao Livro Técnico S. A, 1985.
  • CARMO, A. I. P. Hidroterapia Aplicada à Paralisia Cerebral Espástica — Acadêmica do 8º Período da Faculdade Selesiana de Vitória — ES, 2005 Disponível em: http://www.wgate.com.br/conteudo/medicinaesaude/fisioterapia/neuro/hidroterapia­_espastica.htm. Acesso em 27/12/2008.
  • CIDADE, R. E. A; FREITAS, P. S. Introdução à Educação Física e ao Desporto Para Pessoas Portadoras de Deficiência. Curitiba, Editora UFPR, 2002.
  • DIAMENTE, A; CYPEL, S. Neurologia Infantil. 4ª Edição. São Paulo. Atheneu, Volume 1 e 2, 2005.
  • PEDRINELLI, V. J. Pessoas Portadoras de Deficiência Mental e a Pratica de Atividades Motoras In. SESI — DN. Educação Física e Desporto para Pessoas Portadoras de Deficiência. Brasília: SESI — DN, 1994.
  • VIVONE , G.P. et. al. Análise da consistência alimentar e tempo de deglutição em crianças com paralisia cerebral tetraplégica espástica. Rev. CEFAC, São Paulo, v. 9, n. 4, dez. 2007.

fonte: http://www.efdeportes.com/efd130/a-natacao-para-criancas-portadoras-de-paralisia-cerebral.htm

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