
O estilo indireto livre é um dos recursos narrativos mais eficazes na criação da ilusão ficcional.
Digo isso por considera-lo uma técnica cujas nuances podem gerar para a narrativa efeitos poderosos de aprofundamento psicológico e atmosférico.
Trata-se de uma técnica sensível, que se fundamenta principalmente na sutileza. Isso quer dizer que exige do autor consciência em sua aplicação, correndo o risco de, se utilizada sem uma noção clara de seus efeitos, afogar o texto nas rasas águas do tédio.
Se nossa intenção é criar uma boa ficção, ou seja, fingir com dignidade, um grande problema é ser desmascarado no meio da história.
Segundo Todorov e Ducrot, em seu Dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem, o Indireto Livre comporta as marcas de tempo e pessoa do discurso indireto (do autor), mas tem sua estrutura semântica e sintática penetrada pelas propriedades do discurso direto (da personagem).
Em palavras mais simples: trata-se de um narrador objetivo em 3ª pessoa perpassado pelos pensamentos e discursos do personagem narrado, assumindo aquele as características deste.
Não diz respeito apenas ao ato de transferir a voz do personagem para o narrador. Ao analisar como a técnica é empregada por grandes autores, percebemos tratar-se de uma transposição muito sutil, que mescla as duas vozes. O pensamento da personagem está presente, mas sob a voz do narrador. Nos escritores menos experientes fica evidente a mudança de uma para outra, o que causa certo ruído no texto, como um zunido que não sabemos bem de onde vem.
A neutralidade onisciente
Flaubert foi um dos primeiros autores a aplicar conscientemente o estilo indireto livre (também conhecido como discurso indireto livre, escrita íntima, terceira pessoa íntima, entrar no personagem). Propunha uma neutralidade no ato de narrar. Buscava um narrador objetivo, que não deixasse suas marcas por onde quer que passasse.
Em geral, a utilização de um narrador em 3ª pessoa compromete a neutralidade.
A exigência de um distanciamento onisciente nos coloca em contato direto com o estilo do autor. Sua voz perpassa a narrativa a todo o momento, e por mais neutro que se deseje ser, ali está ela a nos lembrar quem conta a história.
A onisciência tende a chamar atenção para o estilo do escritor. Este se afasta tanto para dar conta de tudo, que acaba por sobrecarregar o texto com suas marcas personalíssimas.
É uma questão de foco narrativo, tal qual acontece no cinema. Vemos uma coisa de casa vez, como se não houvesse a possibilidade da ubiquidade de uma câmera ajustada em visão panorâmica nos dizendo o que se passa o tempo todo em todo lugar.
No estilo indireto livre a presença tendenciosa do autor é reduzida. Ou talvez se torne realmente onisciente ao permitir que as personagens se expressem através dele.
A técnica abandona a pretensão inocente de onisciência e concentra-se tanto no que é narrado que as percepções do narrador se fundem a das personagens. Aproxima-se de tal modo que praticamente desaparece nesse processo.
Em muitos momentos, nos textos de Alice Munro, temos a impressão de estar diante de um narrador em primeira pessoa devido ao aprofundamento proporcionado pelo bom uso desse recurso:
Greta devia ter percebido que essa atitude — desligada, tolerante — era uma bênção para ela, porque ela era poeta, e havia coisas nos poemas dela que de maneira alguma eram alegres ou fáceis de explicar.
[…]
Ia ficar cada vez mais difícil de explicar, conforme os anos fossem passando, o que exatamente era o.k. naquele período e o que não era. Dava para dizer, enfim, o feminismo não era. Mas aí você ia ter que explicar que feminismo não era nem uma palavra que as pessoas usavam. Aí você ia ficar toda enrolada dizendo que ter qualquer ideia séria, quem dirá uma ambição, ou quem sabe até ler um livro de verdade, podia parecer uma coisa suspeita, com alguma relação com o fato de seu filho ter pegado pneumonia, e um comentário sobre política numa festa do escritório podia custar a promoção do seu marido. Independente do partido político. O problema era uma mulher abrir a matraca. (Que chegue ao Japão. Alice Munro).
Com a técnica da escrita íntima, há a possibilidade de se contar uma história como se não houvesse um narrador a constantemente ditar os acontecimentos e controlar os fatos. A narrativa ganha a capacidade de conduzir a si mesma por meio da presença direta das personagens.
Passamos a ter mais consciência do que se o narrador fosse um personagem em 1ª pessoa.
Isso acontece porque ainda estamos na perspectiva de um narrador em 3ª pessoa, um pouco mais distantes dos acontecimentos.
Quando envolvidos demais em uma situação, temos dificuldade de ver as coisas com clareza.
Essa discussão questiona a prerrogativa de um narrador em 1ª pessoa (ou em 3ª ) saber tudo o que se passa à sua volta, ou até mesmo em seu interior. Raymond Carver, com seu chamado “realismo cru” põe em cheque a verdadeira capacidade do indivíduo de aprofundamento em sua própria realidade, em que nós, leitores, sabemos mais do que o protagonista da narrativa.
Afinal, não seria esse um aspecto mais condizente com a realidade? As pessoas sabem menos de si e do que se passa à sua volta do que imaginam.
Aproximação e distanciamento
Podemos perceber as marcas de cada personagem a partir da técnica. Há uma alternância entre personagem e narrador. Ora a história surge da mente do personagem, ora do narrador. Aproximação e afastamento contínuos.
A proximidade é tanta que parece não haver mais intermediários entre o narrador e a personagem, como se aquele entrasse na cabeça deste, assumindo suas palavras, sua forma de pensar, de falar, de interagir, de reagir aos eventos externos e internos.
Os acontecimentos são imediatamente filtrados pela personagem, enquanto que, na pretensa onisciência neutra, o narrador as apresenta depois de terem ocorrido, como um simples observador.
Tomemos um exemplo de James Wood:
(a) Ele olhou para a esposa. Ela parece infeliz, pensou ele, quase doente. Imaginou o que dizer.
(b) Ele olhou a esposa. É ela estava tediosamente infeliz de novo, quase doente. Que raio diria ele?”
(c) Ele olhou para ela. Infeliz, sim. Doentiamente. Claro, um grande erro ter contado a ela. A estúpida consciência dele de novo. por que deixou escapar? Tudo culpa dele, e agora? (James Wood. Como funciona a ficção).
Notamos uma aproximação progressiva do trecho (a) ao trecho (c), entre o narrador e o e personagem, até que as duas vozes se fundem e torna-se difícil definir quem diz de fato. Embora saibamos que o texto ainda está em 3ª pessoa, porém assumindo a voz do personagem ao redor do qual se situa a narração.
Assim, podemos ver tudo através dos olhos da personagem e também do narrador. Esse movimento torna-se perceptível ao notarmos a mudança no tom do texto. O vocabulário, a linguagem, as linhas de raciocínio se alteram para assumir a mente da personagem e abandonar momentaneamente o narrador. É sutil, mas está lá.
Temos simultaneamente a onisciência e a parcialidade. Chegamos bem perto do personagem, adentramos o seu mundo interior, para depois nos afastarmos e vermos além do que ele sabe. Esse movimento de aproximação e distanciamento acontece a todo instante. Temos uma visão mais abrangente da narrativa ao mesmo tempo em que somos carregados pelos sentimentos e visão de mundo mais restrita das personagens.
É como se os limites entre narrador e personagem fossem borrados. Não sabemos ao certo quem diz o que, a quem pertencem tais palavras.
Neutralidade e velocidade
A neutralidade é importante para se estabelecer um contraste entre personagem e narrador. Aquele está envolvido demais com a narrativa, ao passo que este deve manter certo distanciamento.
Não é uma regra, mas a técnica do estilo indireto livre subentende a existência de um narrador em 3ª pessoa mais objetivo, de modo que seja possível estabelecer um contraste entre as vozes. De outra maneira pode haver um choque, ou mesmo uma fusão ininteligível, entre o que diz a personagem e o que diz o narrador
Claro, tudo depende dos efeitos pretendidos pelo autor. Que as técnicas sejam aplicadas conscientemente.
Se o narrador em 3ª pessoa é aquele que constantemente expressa sua opinião a respeito do que expõe, torna-se um pouco mais difícil estabelecer uma linha divisória entre a sua voz e a de seus personagens. Caso haja a necessidade de que esse narrador expresse suas opiniões, é interessante que haja uma forma de identificá-lo.
Por outro lado, podemos ter um choque de vozes. O narrador não será capaz de se adequar às mentes de suas personagens se for tendencioso demais em suas exposições.
Tomemos um exemplo de Júlio Cortázar:
Passou don Luis, o relojoeiro, e lhe cumprimentou apreciativo, como se louvando sua figura arrumada, os sapatos que a deixavam mais esbelta, seu pescocinho branco sob a blusa creme (Ônibus . Júlio Cortázar).
Por conhecermos a neutralidade do narrador, percebemos claramente que a palavra pescocinho não pertence a ele, mas sim ao relojoeiro, que, de súbito, toma para si a narrativa. Ou foi o narrador que imediatamente se apossou da mente de sua personagem?
Decerto a narrativa também ganha velocidade. Não é necessário dizer que o relojoeiro pensava tudo aquilo da moça e que notou particularmente o seu pescoço. Com movimentos rápidos temos todas as informações que precisamos. Caso o texto fosse transcrito de forma indireta ou citado, tornar-se-ia enfadonho, perderia consideravelmente sua qualidade.
Estamos falando de economia textual. Quanto mais direto um texto, quanto mais puder dizer com menos palavras, mais eficaz será. E também estamos falando de sutileza.
Vejamos agora outro exemplo:
A noite estava repulsiva com o cheiro de homem. […] Um homem sozinho é uma coisa frágil. Grande e forte, com bons olhos afiados, mas obtuso na audição e insensível aos odores. Cervos, alces e até mesmo lebres são mais rápidos, ursos e javalis são mais ferozes na luta. Já homens em matilhas são perigosos. Quando os lobos se aproximaram da presa, o warg escutou o choro de um filhote, a crosta da última neve da noite quebrando sob as desajeitadas patas humanas, o crepitar dos couros endurecidos contra as longas garras cinza que os homens carregavam. […] Nas árvores haviam crescido dentes de gelo que pendiam arreganhados dos ramos castanhos sem folhas. (Prólogo de A dança dos dragões. G. R. R. Martin).
No trecho acima, a terceira pessoa permanece, mas estamos observando tudo através dos olhos de um warg, um lobo cujo corpo foi possuído por um ser humano. As palavras em destaque fazem parte do vocabulário da fera e expressam bem ao redor de quem a narrativa se concentra.
Pense em quantas palavras mais seriam necessárias para transmitir o modo de pensar e agir desse personagem.
George R. R. Martin aplica a técnica com maestria em sua obra. Cada capítulo de seus livros das Crônicas de Gelo e Fogo é narrado em terceira pessoa sob o ponto de vista de um personagem diferente. Com o uso do estilo indireto livre, torna-se claro como funcionam suas mentes, como interagem com seus universos.
O estilo indireto livre permite uma síntese derivada da voz do narrador e da voz da personagem. Exercitamos a economia de palavras, a profundidade do texto, a extensão de seu significado para além do que é dito. Fazemos mais com menos, por meio da sutileza, do subtexto, da obliquidade. Temos acesso simultâneo a dois universos distintos, participamos da dinâmica do texto de maneira mais ativa.


