Como ser racista tentando não ser?

Caso Mallu Magalhães

Print tirado do Clipe “Você não Presta” de Mallu Magalhães

O inferno está cheio de boas intenções, dizem. Eu aprendi, levando muita porrada merecida de RadFem que sobre certas coisas é melhor se calar. Hoje, meu feminismo se resume a atacar machistas, mas jamais me enaltecer como feminista ou sequer fazer alusão de como uma mulher pode ser machista por reforçar de forma inconsciente o machismo pelo qual ela foi socializada à força.

Penso ser o mesmo em relação ao racismo. Há certas coisas que é melhor nem tentar, ainda mais quando a intenção é ir a favor de algo que achamos justo, simpatizamos e apoiamos, mas que jamais vivemos na pele. Minha avó materna e grande parte da minha amada família é negra, e tenho muito orgulho disso. Mas, fenotipicamente, eu não sou. Sou um mestiço de quatro etnias: negro com italiano e índio com alemão. Nasci branco, podendo ser confundido no máximo com um Grego ou Italiano de pele amorenada. Portanto, por mais que eu possa exercer empatia com o que sofreram meus antepassados e parentes mais próximos, não fui socializado como negro e nunca sofri nenhum tipo de racismo que possa lembrar. Aliás, enquanto homem, fenotipicamente branco e socialmente heterossexual, gozo uma vida de privilégios que só podem ser reconhecidos e desnaturalizados com muito esforço e desconstrução diária: tarefa árdua, mas absolutamente incomparável com a lida diária que mulheres, negros e homossexuais precisam ter em uma estrutura social que os inferioriza ou ‘subalternaliza’ por, simplesmente, serem quem são.

Todos os dias aprendo errando e ouvindo de peito aberto as pessoas que eu possa ter atingido. Mas nem sempre foi assim, óbvio. Nossa tendência é a defesa e a recusa em aceitar aquilo que nos faz ser quem não desejamos, machistas e racistas: ainda mais quando boa parte dos comportamentos que reproduzem essas chagas sociais foram internalizados e naturalizados de forma inconsciente em nós, através do modo como somos socializados na construção de nossas subjetividades.

Não tenho a menor ilusão de ter atingindo qualquer nível de consciência superior que me torne imune a cometer atos condenáveis que vão contra aquilo que acredito e luto para extirpar do mundo. Não tenho a menor ilusão de que nunca cometerei outros erros ou até os mesmos sem intenção. Só torço para ter o discernimento tal que me faça aceitar os alertas generosos ou raivosos sobre isso, e com eles, através deles, poder refletir e desnaturalizar cada vez mais um modo de vida e de presença no mundo que seja opressiva para qualquer um, principalmente para aqueles que já sofrem compulsoriamente a opressão estrutural da qual sou (sem ter pedido para ser) privilegiado.

Dito isso, posso afirmar que Mallu Magalhães errou em seu clipe. Mas não penso que tenha sido um erro gravíssimo e muito menos proposital. Penso que ela errou mais na justificativa que tentou dar, do que na tentativa de se colocar onde não devia a partir de seu ponto de vista branco, classe média. Mas é inegável que ela quis acertar. Claramente a letra da sua música e alguns signos de seu clipe, mostram seu esforço em se desvencilhar de tudo o que narrei em primeira pessoa no início deste texto.

Gif animado do Clipe

Não temos mistérios, embora guarde minhas cicatrizes mantendo as minhas diretrizes”, diz ela. Em seu império interior (sua consciência) e seu mundo solitário, ela convida a todos para sua festa, sem discriminação. Porém ela não convida uma determinada pessoa porque ela não presta. Dizer tudo isso cercada de bailarinos negros e vestindo uma camiseta que faz alusão ao único Oscar em que dois atores negros ganharam o prêmio máximo (Denzel Washington e Halle Berry) deixa claro, embora razoavelmente implícito, a temática da música. Que bacana! Daria para achar bem legal se fosse apenas isso. Mas não é… Se a temática da música, de fato, é o que parece ser, por que cargas d’água não houve cuidado quanto aos outros signos que vieram à tona no clipe?

Mallu dá a entender que houve decisões estéticas na elaboração do clipe que não passaram por seu crivo. Em seu pedido de desculpas após as críticas que recebeu de pessoas ligadas ao ativismo negro na internet, mostrou a total inconsciência da superficialidade da sua narrativa diante do produto final para sua divulgação. Ela não só não teve controle da produção, como depois de pronto nem passou por sua cabeça que aquilo não condizia com o que ela estava tentando passar na música. Ela se limita a dizer que não teve intenção de ofender ninguém. Não vejo dúvidas sobre isso. Muito provavelmente, fosse uma música que não trouxesse essa temática, sem camiseta de Oscar, passaria batido. Mas se ela quis abordar a questão e se mostrar solidária, minimamente, deveria ter tido mais cuidado com a forma que seria apresentado.

Rapper Emicida

No início da polêmica meu pensamento convergia muito com o do Emicida, pois também me veio a sensação de que havia temas de monte na indústria de entretenimento muito mais importantes para serem polemizados do que esse clipe. Em entrevista ao G1, o artista aborda a necessidade da liberdade dos corpos negros e de como seria pior um corpo de baile branco com negros desempregados ou se obrigando a subempregos por não ter espaço para exercer suas vocações. É óbvio que o corpo negro diariamente é submetido a muito mais degradação do que a objetificação de seus corpos untados de óleo em um clipe de artista branco. Considerando a liberdade artística e situações específicas como essa, Emicida alega que não se pode afirmar que os artistas do clipe foram usados, apesar da importância da preocupação dos movimentos sociais em se articularem com base em uma realidade racial comum:

Acho que há uma mania, às vezes, de salvar quem não está pedindo socorro. Você se coloca numa posição de dizer: ‘Esses bailarinos são ignorantes, não gostam de ser pretos, são cegos para sua autoestima’. Uma terceira pessoa está dizendo para eles que eles estão sendo usados.

Por outro lado, é maravilhoso saber que entre equívocos, acertos, polêmicas desnecessárias e relevantes, é possível hoje polemizar, enfrentar e denunciar as estruturas de dominação e opressão, partindo de pessoas e grupos cujas vozes foram silenciadas por séculos e que jamais seriam ouvidas não fosse a possibilidade que a internet abriu a todos nós.

Não podemos esquecer que racismo não é somente estrutural, mas fundamentalmente, estruturante. Sendo assim não há nada que seja banal quando se trata de racismo ou machismo, por mais que possamos priorizar ou centrar esforços em algo muito mais degradante que um clipe. É inegável, porém, por seu caráter estruturante, que todos os tipos de racismo (inclusive os inconscientes) estão interligados e precisam ser narrados, ditos e combatidos.

Sim, mesmo sem intenção, o clipe é racista. A meu ver, muito mais pela contradição entre aquilo que a música tematiza e a forma em que foi representada no clipe, do que se a temática fosse outra.

E sim, a polêmica teve certo exagero, mas foi e é, irrevogavelmente, necessária. Que outros artistas, principalmente brancos, ao querer tematizar a questão racial em suas obras, cuidem melhor dos conteúdos e procurem se aprofundar sobre o que para eles é natural e bacaninha, mas que para o outro pode reforçar signos que reproduzem a história que o próprio artista pretende criticar.


Gilberto Miranda Junior participa do Círculo de Polinização do RAIZ Movimento Cidadanista, é editor do Zine Filosofando na Penumbra e Revista Krinos. Escreve para as revistas Maquiavel, TrendR e Portal Literativo.